O que promete e o que requer de nós o estoicismo

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O que mais belo há no estoicismo é sua visão do Cosmos como um grande ser vivo (fonte da foto)

Por Aldo Dinucci*

Eu não sou sábio e (que tua maledicência seja satisfeita) não o serei. Exige de mim,  portanto, não que eu seja igual aos bons, mas unicamente melhor que os maus. Basta-me a cada dia cortar algum de meus vícios e refrear meus desvarios.

Essa citação é de Sêneca, em seu diálogo Da vida Feliz (XVII, 3) e trata-se de uma profissão socrática de ignorância. Como todos sabem, é princípio básico da sabedoria do Sócrates da Apologia de Sócrates, de Platão, a afirmação de que a sabedoria de todo humano é pouco ou nada se comparada à sabedoria divina. Ora, pra que serve dizer a si mesmo a cada dia que nada se sabe? Serve, creio eu, para evitar que se caia na ilusão de possuir portentosa sabedoria. Serve para ter bem claro na mente que todo conhecimento humano, o que inclui nossos estudos sobre estoicismo ou o que for, é uma aventura errante.

Em Epicteto, essa limitação ganha dimensões dramáticas. Na diatribe 1.15, Epicteto fala o seguinte sobre o que a filosofia promete:

A filosofia não promete preservar nenhuma das coisas externas ao humano. Caso contrário, admitirá algo exterior à sua própria matéria. Do mesmo modo que a matéria da carpintaria é a madeira; a da estatuária, o bronze; assim também a matéria da arte da vida é a vida de cada um.

Entre as coisas externas ao humano está o próprio corpo humano, o qual, obviamente, não segue as vontades humanas, ou não haveria doença nem velhice nem morte. Acrescente-se a isso que o sábio estoico é um ideal, um conceito, como o de saúde ou de beleza, que pode até se concretizar em alto grau neste ou naquele indivíduo, mas que nunca chega efetivamente a existir plenamente, já que é um ideal. Isso decorre do mencionado caráter imperfeito de todo conhecimento humano.

Epicteto tem plena ciência disso. Jamais se declara estoico ou filósofo. Na verdade se refere aos estoicos na terceira pessoa. Na diatribe 1.29, por exemplo, Epicteto, falando a alguém em séria enrascada, lhe diz: “Pois os argumentinhos não te fazem falta agora – os livros dos estoicos estão cheios deles!”

No Manual, Epicteto não é menos enfático:

[46.1] Jamais te declares filósofo. Nem, entre os homens comuns, fales frequentemente sobre princípios filosóficos, mas age de acordo com os princípios filosóficos. Por exemplo: em um banquete, não discorras sobre como se deve comer, mas come como se deve. Lembra que Sócrates, em toda parte, punha de lado as demonstrações, de tal modo que os outros o procuravam quando desejavam ser apresentados aos filósofos por ele. E ele os levava!

[48.b1] Sinais de quem progride: não recrimina ninguém, não elogia ninguém, não acusa ninguém, não reclama de ninguém. Nada diz sobre si mesmo — como quem é ou o que sabe. Quando, em relação a algo, é entravado ou impedido, recrimina a si mesmo. Se alguém o elogia, se ri de quem o elogia. Se alguém o recrimina, não se defende. Vive como os convalescentes, precavendo-se de mover algum membro que esteja se restabelecendo, antes que se recupere […] Se parecer insensato ou ignorante, não se importa. Em suma: guarda-se atentamente como <se fosse> um inimigo traiçoeiro.

Logo ao início de meus estudos sobre estoicismo tive a sorte de esbarrar num livro sobre a célebre expedição de Shackleton (A Incrível Viagem de Shackleton, de Alfred Lansing), na qual o navio em que estavam os bravos aventureiros foi engolido pelo mar, e os homens (todos eram homens nesta expedição) tiveram que passar os próximos dois anos comendo pinguins e vivendo sobre o gelo nas piores condições possíveis e imagináveis. No final, Shackleton e mais dois marujos tomaram um bote salva-vidas e atravessaram um mar absurdamente hostil, numa quase suicida missão para encontrar socorro, e tiveram sucesso nisso.

Então esta é minha imagem do humano no mundo: navegamos num bote salva-vidas num mar sem bordas. O bote é nosso corpo. O mar é o mundo. Nosso pensamento (“razão” é uma palavra muito forte, acho, para essa coisa que temos na mente e que ajuda a caminhar) tenta manejar o leme da mísera embarcação, mas os movimentos desta, derivados dela ou sentidos através dela (a estrutura de madeira, os movimentos do mar), isto é, as emoções, as enfermidades mentais e físicas (todas corpóreas para os estoicos), os acontecimentos alucinados e variados do mundo, nunca estão muito longe, sempre estão a ponto de virar o bote de ponta cabeça. E, é claro, quando advém a tempestade, só nos resta, como diria Epicteto, aguentar firme.

Agora, o que me chamou atenção desde o início no estoicismo não são os truques para a tranquilidade (embora seja gostosa a sensação de ataraxia, o gelado nas veias, a indiferença esfuziante e a atenção da mente muda perante o brilho da realidade), mas a visão de mundo, coisa que não se vê nesse estoicismo que agora fazem nos EUA, que reduz o Pórtico a um conjunto de regrinhas “para manter a tranquilidade”, a algum esquema moderno de autoajuda, que, como todos sabem, é coisa muito chata.

O mais belo no estoicismo, para mim, é a visão do humano integrado na Natureza, é a visão orgânica do Cosmos como um grande ser vivo, é a compreensão da fraternidade entre todos os humanos, filhos e filhas do Cosmos. É belo, para mim, ver o mundo assim, isso concorda com minhas intuições primeiras, muito anteriores a qualquer estudo de filosofia, algo que passa além das salas de aula de filosofia e dos congressos. Essa visão cósmica do mundo (porque kosmos significa, em grego, “boa ordem”, “bela ordem”) tem mais a ver com poesia, música, trilhas na natureza, crianças, cães, gatos, orquídeas, vida plena.

Quanto às condições para gostar do estoicismo, sempre me lembro do exemplo de Diógenes, o Cão, que quando alguém lhe pediu para ser seu aluno, ele demandou que o “neófito” carregasse um grande e fedorento queijo por um local luxuoso. E quando, por embaraço e vergonha, o outro desistiu, Diógenes disse: “Um queijo estragou nossa amizade”. Esse tipo de filosofia (cínica, estoica, cínico-estoica) exige como pré-requisito de quem a estuda e a admira uma saudável indiferença por opiniões alheias, status, distinções de classe social e etnia, bem como um apreço espontâneo pelas coisas naturais. Exige amor e curiosidade pelas coisas humanas de toda parte. Exige um caráter humanista.

Então, para mim, o estoicismo promete nos dar aquilo que já temos em germe. Se não tivermos isso, ele não nos dará. O estoicismo é um humanismo, e a condição prévia para podermos saboreá-lo é sermos humanistas. Se tivermos sorte, estudaremos o estoicismo dos estoicos (permitam-me gorgianizar) e tornar-nos-emos não estoicos (coisa que nem os estoicos eram, já que a todo momento diziam que não eram), mas mais humanizados, isto é, mais cientes de nosso caráter efêmero e indigente e de nossos anseios comunitários — mais cientes da fraternidade que constitui a humanidade, junto com as demais espécies que habitam a Terra e, quiçá, as estrelas.  Mais atentos para as maravilhas e as delícias da vida comum, que passam despercebidas para os que vivem à procura e às custas de luxo, ostentação, poder e fama.

(A foto em destaque é de uma orquídea do Orquidário Binot, de Petrópolis.)

(*) Doutor em Filosofia, Professor da Universidade Federal de Sergipe, Tradutor do Manual de Epicteto.

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