“As mulheres estoicas, 2: Fânia” — Donald Robertson*

Copyright © Donald Robertson, 2017. Todos os direitos reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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“Leitura da sentença capital de Públio Clódio Trásea Peto”, tela de Fyodor Bronnikov (1827-1902) (fonte da foto)

Fânia integrava a “oposição estoica” a Nero, a qual era liderada por seu pai, o herói político estoico Trásea, em conjunto com seu marido, o celebrado Helvídio Prisco. Ela viveu durante o reinado de Nero e morreu por volta de 103 d. C., sob Trajano. Na tela de Fyodor Bronnikov intitulada “Leitura da sentença capital de Públio Clódio Trásea Peto”, ela é retratada presumivelmente como uma das mulheres que consolam o pai, Trásea.

Era neta de uma romana célebre chamada Árria Maior, da qual relatou a seguinte história para Plínio, o Jovem. O esposo de Árria, Aulo Cecina Peto, recebera ordem de cometer suicídio da parte do imperador Cláudio pela participação que tivera em uma rebelião. Ele não teve coragem de tirar a própria vida, e então Árria tirou-lhe a adaga das mãos, apunhalou-se a si própria e devolveu-a, dizendo ao marido: “Não dói, Peto!” [Non dolet, Paete.].

Plínio, o Jovem, ainda descreveu Fânia como uma mulher dotada de fortaleza e respeitabilidade, mas sendo uma rebelde política. Ela acompanhou o marido Helvídio Prisco no exílio quando ele fora banido por Nero em virtude de sua simpatia pelos heróis republicanos Bruto e Cássio (o que fora proibido pelo imperador). Ela o seguiu no exílio pela segunda vez sob Vespasiano, por se oporem a seu governo. Prisco foi posteriormente executado por este mesmo imperador.

A própria Fânia foi condenada ao exílio por Domiciano em 93 d. C. por ter solicitado ao estoico Herênio Senécio que escrevesse uma biografia enaltecendo seu marido recém-falecido — e Herênio foi executado. Durante o julgamento deste, Fânia foi indagada, sob ameaças, se tinha sido ela a instruir Herênio a escrever o livro, e ela confirmou com valentia que havia confiado a ele os diários do marido. Plínio escreveu: “ela não disse uma só palavra para minorar o perigo que lhe pesava”. As posses de Fânia foram confiscadas, mas ela salvou os diários do marido e a sua biografia.

Quando estava doente, aparentemente à beira da morte, o amigo Plínio escreveu a respeito dela:

Somente o seu espírito está cheio de vigor, digno do marido Helvídio e do pai Trásea, mas todo o resto declina; e não estou somente temeroso, mas profundamente entristecido. Dói-me que uma mulher tão formidável seja tolhida da vista de sua gente [civitatis], e ignoro quando alguém como ela será visto de novo. Quanta castidade, quanta santidade, quanta dignidade [gravitas], quanta constância! [Cartas, VII, 19: 3-4]

E continua:

Quão agradável é ela, quão afável, e como é respeitável [veneranda] e amável — duas qualidades raramente encontradas na mesma pessoa. De fato, ela será uma mulher que indicaremos para nossas esposas, de cuja fortaleza também os homens poderemos tirar exemplo, e que, agora quando ainda podemos vê-la e ouvi-la, admiramos tanto quanto as mulheres de quem lemos a respeito. Para mim, sua própria casa parece cambaleante, estremecida em suas fundações, não obstante ela deixe descendentes. Quão grandes terão de ser as virtudes e feitos destes para que ela não morra como a última de sua linhagem! [idem: 7-8]

Nota do Tradutor: Este texto parece incorporar, no original, elementos do verbete da Wikipédia em inglês a respeito de Fânia (indicado no início).

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(*) Donald Robertson (site pessoal) é formado em Filosofia pela Universidade de Aberdeen e atua há diversos anos como psicoterapeuta. Especializado em Terapia Cognitivo-Compotamental (CBT, em sigla inglesa), vem explorando as muitas intersecções entre a TCC/CBT e o estoicismo antigo, em uma abordagem que procura lastrear-se em evidências clínicas. Publicou cinco obras, das quais têm destaque The Philosophy of CBT: Stoic Philosophy as Rational and Cognitive Psychotherapy (2010) e Stoicism and the Art of Happiness (2013). Participa da organização de eventos como a Stoic Week e a Stoicon, além de ser um dos editores da página “Modern Stoicism“.

Publicado em 14/04/2017 no site pessoal “How to Think Like a Roman Emperor — Donald Robertson’s Stoicism Blog”.

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