“As mulheres estoicas, 1: Pórcia” — Donald Robertson*

Copyright © Donald Robertson, 2013. Todos os direitos reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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Pórcia fere a própria coxa para pôr-se à prova em tela de Elisabetta Sirani (1638-1665) (fonte da foto)

Pórcia (Porcia Catonis) era a filha de Catão de Útica — Catão, o Jovem —, o grande herói estoico da República romana. Pouco sabemos a seu respeito, a não ser algumas anedotas de autenticidade histórica duvidosa. Contudo, ela aparece sendo retratada como uma mulher estoica, devotada à filosofia, seguindo os passos de seu pai renomado.

Ela viveu no primeiro século antes de nossa era, várias gerações antes dos estoicos romanos do período imperial cujas obras sobrevivem ainda hoje: Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio. Foi contemporânea de Cícero e do estoico Posidônio de Rodes. Casou-se com Marco Júnio Bruto, um político e filósofo romano, também influenciado pelo estoicismo, que foi o principal assassino do tirano Júlio César. A mãe de Bruto era meio-irmã de Catão, o Jovem, o qual desse modo era tanto tio como, mediante o casamento com Pórcia, se fizera sogro de Bruto.

Ao final de sua Vida de Catão, Plutarco escreveu:

Nem era a filha de Catão inferior ao resto da família pela sobriedade [sōphrosúnē] e grandeza de espírito [andreía]. Ela era casada com Bruto, que matou César: estava a par da conspiração e deu fim à própria vida de modo à altura de seu nascimento e virtude. [Vida de Catão, 73: 4]

Já a Vida de Bruto, de Plutarco, contém a seguinte história:

Pórcia, sendo aplicada em filosofia, grandemente afeiçoada ao marido e cheia de uma coragem reflexiva [i. e., aliando coragem e prudência], resolveu não inquirir nada dos segredos de Bruto antes de colocar-se a si mesma à prova. Ela então dispensou todas as criadas de seus aposentos, e tomando em mãos uma pequena faca, das que são usadas para cortar unhas, abriu um talho profundo na coxa — ao qual se seguiu um grande derramamento de sangue e, pouco depois, dores violentas e uma febre com calafrios, ocasionada pela ferida.

Ora, quando Bruto sentia ânsia e aflição extremas por causa da esposa, ela, no auge da dor que experimentava, falou-lhe assim: “Eu, Bruto, sendo a filha de Catão, fui-lhe dada em casamento não como uma concubina, para dormir na mesma cama e sentar-se à mesma mesa que você, mas para tomar parte em todas as suas fortunas, boas e más; e de seu lado, no que diz respeito aos cuidados que me tem, não vejo motivos para reclamar; mas, quanto a mim, que prova de meu amor, que satisfação poderá você receber, se eu não puder suportar conjuntamente suas tristezas recônditas, não for admitida em nenhuma de suas deliberações que exijam sigilo e confiança? Sei muito bem que as mulheres parecem ser de natureza débil demais para que lhes possam ser confiados segredos; porém, decerto, Bruto, um nascimento e uma educação virtuosos, além da companhia dos bons e honrados, têm algum peso na formação de nossos costumes — e posso jactar-me de ser a filha de Catão e a esposa de Bruto, títulos de parentesco em que antes me fiava menos, mas agora eu me pus à prova: e descobri que posso desafiar a dor.”

Tendo pronunciado tais palavras, ela lhe mostrou a ferida e contou-lhe a provação que fizera de sua constância [peîra, lit. apenas “teste, tentativa”]; diante do quê, ele, ficando maravilhado, ergueu as mão para os céus e rogou a assistência dos deuses em sua empreitada, para que se mostrasse um marido digno de uma esposa como Pórcia. Então, bem logo procurou dar tratamento à mulher. [Vida de Bruto, 13: 3-6]

De acordo com certa história, quando posteriormente ficou sabendo da morte de Bruto, Pórcia cometeu suicídio engolindo carvões incandescentes. Ainda que outros testemunhos contradigam tal versão, ela se tornou bastante conhecida e inspirou vários autores, notadamente Shakespeare.

Pórcia às vezes aparecia com o nome de “Portia” na literatura inglesa do período elisabetano. Shakespeare a retrata na peça Júlio César, e n’O mercador de Veneza escreveu [comparando a personagem Portia, futura esposa de Bassanio, à figura histórica em que seu nome se inspirara]:

Em Belmonte, há uma dama deixada em rica posse;

e é ela formosa e, mais formoso é dizê-lo,

de virtudes sem par: às vezes de seus olhos

chego a receber belas mensagens sem dizeres:

seu nome é Portia, em nada ficando atrás,

da filha de Catão, a Pórcia de Bruto. (vv. 163-168)

(**) No original: “In Belmont is a lady richly left; / And she is fair, and, fairer than that word, / Of wondrous virtues: sometimes from her eyes / I did receive fair speechless messages: / Her name is Portia, nothing undervalued / To Cato’s daughter, Brutus’ Portia.”

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(*) Donald Robertson (site pessoal) é formado em Filosofia pela Universidade de Aberdeen e atua há diversos anos como psicoterapeuta. Especializado em Terapia Cognitivo-Compotamental (CBT, em sigla inglesa), vem explorando as muitas intersecções entre a TCC/CBT e o estoicismo antigo, em uma abordagem que procura lastrear-se em evidências clínicas. Publicou cinco obras, das quais têm destaque The Philosophy of CBT: Stoic Philosophy as Rational and Cognitive Psychotherapy (2010) e Stoicism and the Art of Happiness (2013). Participa da organização de eventos como a Stoic Week e a Stoicon, além de ser um dos editores da página “Modern Stoicism“.

Publicado em 11/12/2013 no site pessoal “How to Think Like a Roman Emperor — Donald Robertson’s Stoicism Blog”.

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