“Epicteto e Stockdale: Algumas estratégias para combater o assédio moral” — Aldo Dinucci*

© Direitos autorais reservados.

Artigo gentilmente cedido em forma de colaboração.

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Sair da posição de vítima e agir, buscando uma resposta moral e socialmente correta (fonte da foto)

O presente texto se baseia numa palestra que fiz para alunos do Ensino Médio em Tobias Barreto, cidade do interior de Sergipe, em outubro de 2017. Minha ideia era falar para os jovens sobre estratégias para combater o assédio moral e a manipulação, usando como ferramentas o pensamento de Epicteto e Stockdale.

Epicteto, um dos grandes nomes do Estoicismo Imperial, entre os quais se incluem Sêneca, Musônio Rufo e Marco Aurélio, nasceu no ano de 55, em Hierápolis, na Frígia, e morreu por volta de 135, em Nicópolis, antiga cidade localizada na entrada do Golfo Ambraciano, no Épiro. Epicteto mesmo nada escreveu. Tal tarefa coube a Lúcio Flávio Arriano Xenofonte, cidadão romano de origem grega, que compilou (possivelmente com auxílio da taquigrafia) suas aulas em oito livros (As Diatribes de Epicteto), dos quais quatro sobrevivem, e constituiu o Encheirídion de Epicteto, um breviário de princípios morais epicteteanos. Há uma tradução nossa anotada do Encheirídion disponível para download aqui.

James Bond Stockdale foi um oficial norte-americano, piloto de caça, que estudou Epicteto enquanto fazia seu mestrado em Stanford e teve a possibilidade de testar na prática o pensamento epicteteano enquanto prisioneiro de guerra durante sete anos e meio no Vietnã. Stockdale, após ser libertado, escreveu um livro sobre sua experiência, que traduzimos e disponibilizamos para download neste outro link.

De Epicteto, vamos usar as duas principais premissas de seu pensamento. Epicteto constrói uma ontologia pela qual as coisas do mundo dividem-se em “sob nosso controle” e “não sob nosso controle”. As primeiras dependem de nós. As segundas não. As primeiras são boas ou más. As segundas não. Entre as primeiras, estão nossas operações mentais, como julgar, pensar, analisar, decidir. As segundas são tudo o mais que acontece no mundo e que não depende de nossos juízos, pensamentos, análises e decisões: nosso parentesco, a época em que e o lugar onde nascemos, o corpo com qual nascemos, a classe social na qual nascemos etc.

Agora vem a questão, e com ela a segunda premissa: em que sentido as coisas que não estão sob nosso controle e que não dependem de nós não são nem boas nem más? No sentido de que elas são os materiais para a ação e que podem ser bem ou mal usadas. Cabe a nós nos posicionar diante dos acontecimentos. Como agir diante dos acontecimentos é algo que nos concerne, é da nossa responsabilidade. Agora, embora não sejam nem boas nem más, essas coisas que não dependem de nós não se equivalem quanto à dificuldade de lidarmos com elas. Há coisas com que é fácil lidar, e há coisas difíceis. Por exemplo: estar no domingo à tarde na praia ensolarada tomando banho de sol não envolve muita dificuldade. Mas viver num ambiente hostil no qual as pessoas a todo o momento tentam nos agredir física e moralmente é muito mais difícil. A partir disso, podemos entender o estoicismo de Epicteto como uma doutrina que nos prepara para agirmos diante de situações difíceis de modo a mantermos nossa sanidade mental.

Stockdale, por sua vez, aplicou a doutrina de Epicteto num ambiente de hostilidade, no qual se buscava isolar os prisioneiros e manter seu moral baixo. A partir dessa experiência, traçaremos um paralelo com a definição de assédio moral, que, segundo o site Assédio Moral no Trabalho, pode ser definido como “a exposição […] a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas  […] desestabilizando a relação da vítima com o ambiente”.

Retirei da citação as referências ao trabalho, pois tais situações de assédio ocorrem também no lar, na escola, em todo tipo de associação. As situações humilhantes podem ser diversas, como piadinhas, tratamento desrespeitoso, imposição de tarefas incompatíveis, exclusão de atividades sociais, propagação de boatos que firam a reputação. A finalidade de humilhar alguém é destruir a autoestima da pessoa e excluí-la do meio social, é, enfim, matá-la socialmente. Tendo isso em vista, podemos destacar três estratégias para lutar contra isso e não permitir que os assediadores alcancem seu objetivo, libertando-nos do jugo deles e nos mantendo mentalmente saudáveis. Descartamos por principio a alternativa violenta, por ser evidentemente indevida, e que pode ser o primeiro impulso de alguém numa situação de assédio. Essas situações são extremamente dolorosas, pois atingem o ser humano em sua dimensão social. Todos sabem que o humano, sem o convívio adequado com outros humanos, se encontra em situação precária e perigosa, podendo reagir a isso de formas inusitadas e violentas, indubitavelmente injustificáveis, mas compreensíveis, dada a precisão do humano de estabelecer laços de afeto saudáveis e recíprocos com outros seres humanos.

No cerne das estratégias que iremos prescrever está a ideia de que temos que tentar, em meio a situações desfavoráveis e dolorosas, sair da situação de vítima. Assim, se somos alvo de uma situação de assédio, temos que sair da passividade e da imobilidade, mas temos que agir de forma social e moralmente correta.

Buscar união e apoio: os assediadores querem eliminar socialmente o assediado, então cabe ao assediado buscar união, buscar pessoas que o apoiem. Primeiro, no próprio ambiente de assédio, o que é o mais difícil, pois em geral os assediadores constrangem os demais a darem as costas ao assediado. Segundo, onde for possível: buscar apoio familiar, buscar amigos fora do ambiente hostil, buscar apoio institucional (através de ouvidorias), buscar apoio legal, buscar apoio espiritual (caso a pessoa for religiosa).

Não fazer acordos: essa lição de Stockdale é difícil de aprender e de aplicar, mas é essencial para combater o assédio — tanto enquanto alvos quanto enquanto cúmplices, em potencial de situações de assédio. Como dissemos, o ser humano é por natureza social, e por isso estimamos muito ser admitidos e fazer parte de grupos. Porém, muitas vezes, o preço do ingresso no grupo é se comprometer com algum valor desumanizante, alguma opinião racista, classista, sexista etc. Muitas vezes concordamos com coisas tais, ou nos silenciamos diante da expressão de tais opiniões, seja porque não queremos ficar de mal com as pessoas que compõem esse grupo, seja porque gostamos dessas pessoas. Mas aqui vale lembrar: as piadinhas e gracejos racistas, sexistas, classistas, por exemplo, têm consequências reais e nada engraçadas: pessoas são destratadas, excluídas e mesmo mortas em razão delas, pois essas piadas e opiniões em última análise sugerem que seus alvos não são seres humanos dignos do nome, não merecem respeito e devem ser eliminados do convívio ou mesmo mortos. Então cabe ao humano consciente não compactuar com tais valores através do silêncio. Por mais duro que seja, é preciso seja discordar frontalmente, seja se retirar após o fato, demonstrando não concordar com o que foi dito.

Fazer a coisa certa: não basta não compactuar com valores desumanizantes, mas é preciso também, como estratégia final para eliminar o assédio, promover valores humanizantes, como a defesa do meio ambiente, dos direitos humanos, da ideia de que há apenas uma humanidade, bem como dar o exemplo na vida diária. No nosso país, imperam os maus exemplos: pessoas dirigem pelas ruas como assassinos; outras, furam filas; outras, são incapazes de nos cumprimentar, embora nos conheçam — há infinitos maus exemplos à nossa disposição. Que sejamos então exemplos do contrário, bons exemplos, agindo bem nas pequenas coisas.

Se quisermos viver num lugar mais humano, é parte desse lugar mais humano que nós sejamos também mais humanos nas pequenas coisas, pois nas pequenas coisas também demonstramos quem somos.

___________________

(*) Aldo Dinucci é professor adjunto de Filosofia na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Especializado no pensamento dos antigos, publicou uma versão portuguesa do Encheirídion de Epicteto (2012), em cooperação com o professor Alfredo Julien, e o volume de estudos Górgias de Leontinos (2014). É, além disso, editor da revista Prometeus. Seus artigos e traduções podem ser lidos no perfil que mantém no serviço Academia.edu, com atualizações constantes.

 

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