Entrevista com Aldo Dinucci (Trecho)

Está no ar desde a última quarta-feira, 25 de outubro, a entrevista que fiz com Aldo Dinucci, professor da Universidade Federal de Sergipe e tradutor de Epicteto e Musônio Rufo.

Abaixo, o trecho inicial do bate-papo publicado pelo site Sociedade Científica.

Fale-nos um pouco de sua trajetória acadêmica e do modo como você teve contato com a filosofia estoica.

Iniciei minhas leituras filosóficas quando garoto, lendo primeiro Lucrécio (Da Natureza das Coisas, poema maravilhoso) e depois diálogos de Platão. Sempre senti proximidade com a literatura clássica quando menino, lendo, por exemplo, a Odisseia uma dezena de vezes. Menino, vivia em Petrópolis, nos anos 70 e 80. A cidade era perfeita para ler e meditar. Além disso, tinha inúmeros sebos nos quais eu podia comprar livros de qualidade por preço irrisório. Afora os clássicos, eu gostava muito de poesia brasileira e literatura de divulgação científica, como os livros de Asimov e, sobretudo, de Carl Sagan. A minha graduação na UERJ foi apagadíssima, nada me interessava. Passei o tempo lendo Jung e Philip K. Dick. Meu mestrado e meu doutorado foram sobre Aristóteles, Górgias e o Sócrates dos “primeiros diálogos” de Platão. Um dia, na biblioteca da UCP de Petrópolis, onde então trabalhava, me caiu nas mãos uma edição das cartas de Sêneca. Fiquei chocado: jamais havia ouvido falar dos estoicos em 10 anos de estudos em filosofia! Depois comprei uma coletânea de textos estoicos de Jean Brun. No final do livro, me deparei com o Manual de Epicteto. Fiquei atônito: como um texto daquela relevância poderia estar fora do alcance dos leitores lusófonos contemporâneos? Decidi traduzir do grego a obra, o que realizei efetivamente.

De um ponto de vista prático, quais são os princípios do estoicismo de que você se beneficia em seu cotidiano?

O mais importante para mim é a distinção de Epicteto entre coisas que estão sob nosso encargo (eph’hēmîn) e coisas que não estão sob nosso encargo (ouk eph’hēmîn). Segundo este princípio, as coisas externas, aquelas que não se identificam com as operações básicas do pensamento, não são por si mesmas boas ou más, são outrossim materiais para a nossa ação, dos quais podemos fazer bom ou mau uso. Há materiais mais difíceis de lidar, outros mais fáceis, mas todos podem ser utilizados por nós de uma boa maneira. Essa distinção, aparentemente simples e contrária ao senso comum, é extremamente útil. Ao retirarmos o valor das coisas externas e o colocarmos sobre as nossas próprias coisas, nos concentramos sobre o que realmente podemos realizar, aceitando a externalidade como o material que nos é dado para trabalhar. Por exemplo, no caso das dificuldades, quando um problema nos ocorre, como doença, vazamento no encanamento, pessoas desonestas que abusam de nossa confiança, ao invés de nos concentrarmos sobre o fato externo, lamentando e sofrendo, nos concentramos sobre o que podemos efetivamente fazer para, ao mesmo tempo, superar a dificuldade e manter-nos mentalmente saudáveis.

Leia a íntegra da entrevista aqui.

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