“Como o estoicismo me ajudou a superar a depressão” — Andrew Overby*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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A sabedoria estoica pode ser uma luz no fim do túnel (fonte da foto)

No princípio, todos queremos mudar o mundo. Os depressivos apegam-se a este impulso por mais tempo que a maioria, acho, e desse modo, quando se dá a constatação inevitável de que não se pode fazê-lo, “a ficha desaba” com peso maior.

A constatação de que cada um de nós não passa de um ator no palco global, e não seu principal arquiteto, é uma daquelas mudanças de consciência significativas, mas possivelmente sutis, que separam certos aspectos da juventude daqueles da idade adulta — tamanho é o seu efeito. Trata-se, talvez, de um dos primeiros resvalos da inteligência nas limitações humanas.

Os que têm propensões ao perfeccionismo e ao sonhar grande podem ser fortemente afetados por isso. Ser a um só tempo um sonhador diuturno e alguém que sabe que seus sonhos de mudar o mundo — ao influenciarem aquilo que se percebe como um destino ou uma força de vontade próprios — são extremamente improváveis de verificar-se é um convite para a visita do pensamento deprimente.

Até certo ponto, é esta a minha história. Aos 24 anos, em alguma medida minha vida adulta consistiu, até agora, em rodar à volta do campo de atração desta verdade imensa. Ainda preciso reconciliar o mundo real com o que concebo, e transportar para aquele o que desejo para mim mesmo.

Mais do que a maioria das pessoas, os depressivos têm condições de beneficiar-se dos ditos de estoicos proeminentes como o imperador romano Marco Aurélio ou o escravo liberto Epicteto. Com a dicotomia do controle formulada por este em mente, podemos visualizar que apenas algumas poucas coisas estão em nosso poder, e outras estão além de nossa capacidade de controlá-las. (De fato, creio que a tricotomia do controle introduzida por William B. Irvine em A guide to the good life [“Um guia para a vida boa”, em tradução livre] é ainda melhor, com o acréscimo de uma terceira categoria intermediária, que recobre as coisas sobre as quais temos algum controle.) Precisamos avaliar a quantidade de controle que temos [em cada situação] e aprender a nos encorajar com o abandono das coisas que não podemos influenciar.

É este o ponto exato em que o modo de pensar estoico pode comparecer: a exemplo dos que estão envolvidos no movimento, hoje famoso, do “Eu Quantificado” [Quantified Self], e que medem diariamente a resposta galvânica de sua pele, seus padrões de sono, sua dieta, os passos dados a cada dia, além de outras grandezas possíveis, para registrar em pontos seu próprio preparo físico, aqueles que apresentam tendências depressivas ou outras condições negativamente comprometedoras de saúde mental precisam monitorar a si mesmos.

Este tipo de reconhecimento daquilo que nos é próprio a fim de ser mantido em nossas mãos autônomas, em contraste com as muitas coisas que não podemos de maneira nenhuma controlar, parece-me, a mim, uma área da prática estoica rica de lições para os depressivos — ou para qualquer um que deseje experimentar um pouco mais de tranquilidade em sua vida cotidiana.

Sempre fui abrangente em minhas leituras e, no Ensino Médio, tendo uma familiaridade por alto com os nomes próprios mais conhecidos da cultura ocidental, tinha uma noção vaga de quem fossem os estoicos. (Fui tomado de viva impressão com o fato de muitos indivíduos eminentes terem adotado ao menos partes do estoicismo para si próprios — ou, quando menos, de terem tido o desejo de ser vistos dessa forma.) Lembro-me de ter visitado a Biblioteca Clinton, no Arkansas, e ali ouvido falar da reverência do ex-presidente pelas Meditações de Marco Aurélio. Aquilo ficou gravado no fundo de minha mente desde então.

Mais recentemente, comecei a explorar a sabedoria dos estoicos de maneira mais expressiva, procurando entender suas crenças e ver o que poderia ser aplicado à minha própria vida, que inclui a depressão, além das consequentes oportunidades perdidas e da duradoura performance abaixo da média que a acompanham. Eu ouvira comparações com o Budismo e estava ávido de saber mais. Deparei com vários livros escritos para um público mais vasto. Assim que comecei a lê-los, fiquei intrigado.

Estava ali uma filosofia que tentava racionalizar a vida, que não buscava eliminar a emoção ou a afeição, e sim instilar uma apreciação fundamente arraigada por elas mediante o cultivo de um olhar desinteressado. Uma filosofia que desprezava o consumismo de massa e a aquisição insana de novos produtos apenas para satisfazer o desejo de novidade perpétua. Que prezava em alto grau a comunidade dos seres humanos por inteiro, cujos membros integram, todos eles, a cosmópolis à qual pertenciam os estoicos.

São filósofos que enfatizam o dever e a virtude, ensinando seus praticantes a dar o melhor de si como seres humanos racionais e capazes, assim como a buscar a excelência nas situações da vida, quaisquer que sejam elas — seja, digamos, governar um império (excelentemente), seja lecionar em uma classe cheia de estudantes (excelentemente). Eles incentivam a equanimidade face aos desafios da vida. Para meu tipo de personalidade e à luz de minhas experiências de vida, o modo de pensar estoico se afigura meio natural.

TRANSFORMANDO A DEPRESSÃO EM UM ATIVO

Se o teste para a ética e o modo de pensar estoicos é como tais coisas são transformadas em práticas, seja-me permitido então pôr por escrito algumas delas que podem ser úteis aos outros.

Na verdade, penso que muitos dos que lidaram com a depressão ou com outros problemas de saúde mental se sentirão bastante receptivos aos conteúdos do estoicismo. Para eles — e para quem quer que esteja interessado em prospectar a psicologia humana em seus fundamentos —, basta que ouçam falar dos estoicos, em uma época que os relegou, de modo geral, a uma posição à margem.

As pessoas depressivas são bastante autoconscientes; de fato, são autoconscientes demais, e de modo extremamente negativo, não raro pondo-se a si próprias em derrisão por pequenas infrações a seus padrões idealizados e diminuindo-se por não serem perfeitas, mesmo em um mundo que reconhecem como pleno de imperfeições e de desperdício de capital humano.

Parte da depressão reside em fixar-se nas falhas do passado, ruminando continuamente os acontecimentos ou as circunstâncias que já se foram e até extraindo deles uma espécie de confiança negativa. Esse tipo de pensamento é antitético a bons efeitos no momento em que se vive, ao menos na maior parte do tempo. Produz fracassos no presente, criando um sistema de retroalimentação cuja voracidade não se satisfaz com facilidade. Um fracasso se sobrepõe a outro — e a mais outro, e a mais outro.

O modo de pensar estoico pode ser uma ajuda ao ensinar a discípulos dispostos como separar, na mente, o passado do presente. Voltando à dicotomia do controle, o passado é algo sobre o qual não temos poder. Precisamos aprender como controlar conscienciosamente a maneira de esquadrinhar o passado em retrospectiva e como apenas fazê-lo, em nossos próprios termos, quando isso se nos mostrar útil.

Os depressivos também podem buscar auxílio na injunção estoica para tratar a adversidade como uma ocasião de treinamento voltado à capacidade mental e à resiliência — falando de modo mais geral, à vida. Concentrarmo-nos no que pode ser nossa resposta em vez do que está acontecendo conosco, do que foi feito conosco, do que não podemos influenciar ou controlar, é o passo que tem de ser dado por todos os indivíduos, depressivos ou não, que desejem manter um equilíbrio mais sadio em sua vida cotidiana.

Capacitado pelos hábitos estoicos, um depressivo pode converter essa autoconsciência hipercrítica em um ponto forte. Ter clarividência quanto ao modo como as coisas de fato são (sem perder a tranquilidade) é um ativo e tanto. Enxergar a realidade em vez de dar confirmação apenas ao que desejamos ver é uma habilidade que os outros têm de adquirir. O que se conhece por “realismo depressivo” é um diamante bruto esperando para ser lapidado na forma de uma joia brilhante: um senso de resiliência bem desenvolvido, o qual pode suportar com maior facilidade as estilingadas e flechadas das circunstâncias adversas.

O “empoderamento estoico” abarca tanto as preocupações profissionais quanto as de cunho pessoal. A mim, parece-me que os que têm depressão têm menor tendência à hipocrisia que aqueles que não a têm ou nunca a tiveram, como estão menos propensos a mentir. É uma opinião puramente subjetiva, mas estar obrigado a pôr a nu as bases emocionais de seu próprio estado mental produzirá mais empatia e diminuirá a tendência ao engano e à dissimulação. Em resumo, uma pessoa com tendência à depressão é mais passível à expressão da honestidade e da empatia.

A empatia, para os estoicos, é fundamental. Com exercícios como os Círculos de Hiérocles, que expandem o domínio das preocupações de um indivíduo desde si mesmo até a família, a cidade, o país e finalmente o mundo, além de determinarem um compromisso para agir de acordo com o interesse público ou tomar parte nos negócios de todos, o estoicismo mostra-se semelhante à depressão no sentido de que um senso altamente desenvolvido de empatia é uma de suas partes integrantes.

Se a empatia puder se consolidar como uma apreciação razoável pelo drama do outro que vá além do nível superficial das platitudes sociais, então os que têm depressão se tornarão, naturalmente, competentes na coisa. Para os demais, a melhor maneira de desenvolver o conjunto das habilidades da empatia poderia ser por meio dos exercícios estoicos. Quando o assunto é inteligência emocional e empatia, creio que os depressivos tenham de fato algo a oferecer como lição aos outros. O que em geral nos falta aprender, contudo, é ter a empatia sem perder a tranquilidade, usar a emoção como um componente vital da razão, sem que jamais aquela venha a subvertê-la.

Isso tem a ver não com mudar os acontecimentos ou ocorrências exteriores, mas as reações que temos a eles. Alterar o estado mental em que se encontra uma pessoa tende a ser difícil (quando pode ser feito), mas perceber que aquilo é apenas a representação de alguma coisa, e não a coisa em  si, pode ser um alívio. Lembrar-se de que as reações que temos diferem da própria realidade é vital.

Bons hábitos podem ser um grande auxílio na manutenção da saúde mental. Adaptar-se para adotar os melhores hábitos possíveis no momento presente é um passo excelente, desde que se dê tempo para a sequência de pequenos progressos. A adaptação é uma coisa poderosa, e os depressivos somos mais capazes de adaptação do que em geral nos cremos.

Quando pensamentos deprimentes ou frustrantes vêm à mente, a técnica de substituição de pensamento pode funcionar. Isso significa converter um pensamento sem proveito em um que tenha proveito no momento em que se vive. O pensamento acerca de um acontecimento do passado ou a lembrança de uma antiga relação que se revelem tormentos podem ser convertidos em coisas mais construtivas com disciplina mental e prática. Talvez uma ânsia vã de se dar atenção a algo negativo possa tornar-se um gatilho para que seja tomada uma ação positiva. Muitos têm usado lembranças como a de um bullying sofrido durante a infância ou outro tipo de angústia pretérita para se estimularem na direção da consecução de objetivos quando adultos; parece ser um caminho potencialmente útil para os que procuram acomodar uma história de depressão com a virtude estoica.

Uma prática estoica muito valiosa é a da visualização negativa. Esse exercício consiste em visualizar todas as coisas ruins que possam acontecer, todas as que possam dar errado, toda ferida que possa ser reaberta, todo ponto de vulnerabilidade, todo segredo exposto à luz do sol, todo erro convertido em gafe de maior monta. Para uma pessoa com tendência à depressão, a coisa será sentida mais como dotar de vestes novas um velho conhecido, creio, do que como uma experiência inteiramente inédita. Imagino que muitos outros venham a considerar tal exercício um tanto mórbido, mas suspeito de que muitos depressivos o viriam a apreciá-lo.

O segundo componente que eu adicionaria ao exercício de visualização negativa é o seu contraponto: gratidão. Imagine-se a si mesmo sentindo-se grato todos os dias. É um hábito excelente. Antes de dormir, pense nos acontecimentos do dia ou em algo mais permanente. Tenha em mente aqueles que abriram e pavimentaram o [nosso] caminho. É este um exercício muito útil.

A humildade também é um aspecto valioso do pensamento estoico. Ter uma aparência e uma dieta simples são marcas de humildade. As pessoas depressivas costumam sentir que foram humilhadas, mas há valor em converter isso em um sentido de modéstia penetrante e abrangente, quando possível.

Lembrar-se da própria pequenez no contexto mais vasto do universo, e de todos os entes com vida dentro dele, pode ser útil para aliviar um tanto da ansiedade ao prover algo do distanciamento mental, relativamente a uma reação imediata ou a uma situação estressante, que os hábitos estoicos têm por objetivo instilar.

O último exercício que eu proporia é a regra da manchete. Esta prática consiste em imaginar suas ações sendo divulgadas pela manchete de um jornal — de preferência, um que todos leiam. É simples e fácil de contextualizar. É como o que acomete os que creem viver sob holofotes [spotlight effect] — exceto pelo fato de que você deve só fingir que todos realmente prestarão atenção e farão comentários à coisa. Se algo não “pegar bem” na primeira página de um jornal, pode não se tratar de uma ação virtuosa.

Tudo o que ficou dito acima se resume a fazer escolhas com atitude. A passividade, no melhor dos casos, é neutra — se é que ela efetivamente não piora ou prolonga os problemas. Esta nem sempre é possível; todavia, dedicar-se a uma série de ações — ou melhor, fazer uma série de escolhas — é tudo o que uma pessoa pode, com razoabilidade, tentar para manter-se responsável por si mesma. Se há algo que os estoicos são capazes de ensinar aos que têm problemas com a saúde mental, é que fazer uso da razão pode aliviar um tanto o fardo que se carrega.

Referências e Recomendações:

HADAS, M. The Stoic Philosophy of Seneca: Essays and Letters. W.W. Norton & Company, 1968.

EVANS, Jules. Philosophy For Life and Other Dangerous Situations: Ancient Philosophy for Modern Problems. New World Library, 2012.

IRVINE, William B. A Guide to the Good Life: The Ancient Art of Stoic Joy. Oxford University Press, 2009.

USSHER, Patrick. (eds.) Stoicism Today: Selected Writings Volume One, 2014

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(*) Andrew Overby nasceu e viveu a maior parte da vida no Texas. Fez seus estudos universitários em Nova York. Ele se interessa por temas como economia, tecnologia, política e psicologia, escrevendo sobre eles em sua página no Medium.

Publicado em 19/09/2015 em “Stoicism Today/Modern Stoicism“.

 

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