Notas estoicas, 4: O estoicismo e as relações familiares

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É inútil (e desgastante) tentar controlar nossos parentes, mas não a maneira como os tratamos (fonte da foto)

O homem de bem não se desentende com ninguém de sua própria iniciativa e, tanto quanto pode, impede os outros de fazê-lo. A vida de Sócrates nos fornece também um exemplo deste fato: ele não somente evitava brigar com os demais, mas também impedia o desentendimento entre outros. Veja no Banquete de Xenofonte quantos conflitos ele apaziguou; por quanto tempo ele suportou Trasímaco, Polo e Cálicles; como ele tolerava sua esposa e até o filho, que buscava refutá-lo com sofismas. Pois ele se lembrava sempre de que nenhum homem tem poder sobre a faculdade diretora de outro. Não desejou, portanto, nada que dele mesmo não fosse. E o que era isso? Não era fazer alguém agir em conformidade com a natureza (pois é coisa que pertence a outrem), mas, enquanto os outros tratam o que é deles como lhes apraz, manter-se em um estado conforme com a natureza, limitar-se a seus próprios atos de modo que os outros se ponham, por seu turno, em conformidade com a natureza. Eis o que é sempre objetivo do homem de bem. Será o de tornar-se pretor? Não, mas se esse posto lhe cabe em sorte, ele conserva intacta sua faculdade diretora em tal circunstância. Será o de casar-se? Não, mas se lhe é dado casar-se, ele se mantém em um estado de conformidade com a natureza em tal circunstância. Porém, se ele quisesse que um filho ou uma esposa não cometesse erros, estaria querendo que aquilo que pertence a outrem não pertencesse a outrem. E ser instruído [na filosofia] é exatamente isto: aprender aquilo que é próprio de si e o que é de outro. (Epicteto, Diatribes, IV, 5: 1-7)

Uma das características distintivas das relações familiares é que elas não se baseiam no poder de eleição dos indivíduos, sendo totalmente independentes de nossas escolhas (ou quase sempre assim). Trata-se de uma realidade tão fundamental que, se quiséssemos definir o ser humano em chave biológico-filosófica, poderíamos ser levados à constatação de que todo e qualquer um de nós é filho de duas outras pessoas, um pai e uma mãe, ainda que possamos não vir a conhecê-los. O homem é sempre aquele ser que é filho de alguém. Acresce a isso o fato de que muitos de nós têm ainda irmãos e poderão vir a tornar-se progenitores um dia, o que cria uma rede complexa de relações que inclui, para além do núcleo doméstico mais convencional, avós, tios, primos, sobrinhos e — por que não? — irmãos de criação. Em tal configuração, uma multiplicidade de conflitos razoavelmente duradouros pode surgir. E, como ninguém o ignora, eles não podem ser resolvidos como os de outra natureza: não é possível pedir demissão de sua própria família, nem mudar-se dela como se muda de casa, nem contratar parentes que nos sejam mais satisfatórios. Arbitrariedade das arbitrariedades da Fortuna, a família é um grande laboratório da tolerância — ao menos para aqueles que têm mais horror às lamúrias que aos obstáculos que a vida cria.

Nada há de brilhante ou original na constatação de que não escolhemos nossos pais nem a família que nos acolheu ou não no mundo. De fato, é uma coisa banalíssima de se dizer. Mas talvez por isto mesmo haja tanto receio ou preguiça de se extrair daí qualquer consequência que nos aclare a existência. Uma delas é, evidentemente, que nenhum ser humano em crescimento é responsável pela educação que lhe é oferecida dentro de casa: língua, país, nível cultural e padrão de vida são, por exemplo, fatores a que todos somos expostos em nossos primeiros anos, que nos moldam largamente o caráter, sobre os quais ninguém tem poder.

Contudo, uma família não é só composta de abstrações como hábitos e valores, mas sobretudo de pessoas concretas, com suas personalidades que ora se harmonizam, ora se entrechocam. E aqui as coisas podem ficar complicadas, pois é possível que, longe das generalidades até este ponto tratadas, a Fortuna tenha presenteado você com um pai omisso, uma mãe manipuladora, uma irmã negligente com as finanças ou um filho que ainda age como adolescente, do alto de seus 50 anos.

Reconsideremos: que poder temos sobre o comportamento de nossos familiares? Se tenho um pai que, apesar de meus apelos, não nota a minha existência, o que a razão recomenda: lamentar-me e continuar desejando mudá-lo, ou trabalhar sobre mim mesmo para que esse traço do caráter paterno não me fira? Se minha mãe envenena a vida da família com intrigas, qual é o caminho racional a seguir: desesperar-me e fazer-lhe ameaças se ela não se emendar, ou já contar com suas maledicências e futricas, mantendo-me imune a elas? Se a falta de responsabilidade financeira de minha irmã continua a criar-lhe problemas com credores, o que a razão me dita: querer em vão policiá-la e pagar suas contas, ou compreender que a pessoa que se prejudica não sou eu? Se meu filho se obstina em não assumir as responsabilidades de sua idade e vive na ilusão de que seus pais lhe cobrirão a retaguarda para sempre, qual é a alternativa racional: o desgaste e o lamento, ou a resignação depois de tantas tentativas infrutíferas?

Todos nós convimos nas respostas acertadas para essas perguntas, mas elas dificilmente correspondem ao comportamento que temos frente a parentes problemáticos. E por que isso acontece?

Em parte porque estamos sujeitos a automatismos familiares, sempre nos portando da mesma maneira com dadas pessoas, mesmo quando tais ações irrefletidas têm resultados catastróficos; em parte porque nosso envolvimento emocional com entes tão próximos cria um impedimento a que nos vejamos totalmente desvinculados deles, fazendo nossa felicidade depender de certos elementos em sua trajetória de vida. Nas duas partes da explicação, vemos que se trata de dados que deitam raízes profundas na vivência de muitos de nós. Os estoicos, entretanto, julgam que esse comportamento automático-sentimental não produz resultados sadios e acaba redundando em emoções violentas — as paixões. Epicteto e companhia pretendem inculcar em seus seguidores a noção de que as relações familiares também devem ser postas de algum modo sob a batuta da razão, de que é coisa perigosa deixá-las florescer sem a supervisão de uma atenção nutrida com os princípios da filosofia apenas porque se está lidando com gente que se vê todo dia. Pois é justamente o caráter cotidiano de tais relações o que as torna particularmente desafiadoras para qualquer filosofia de vida: nós não pensamos no que é imediato, óbvio, palpável, dado como certo, mas os estoicos diziam que isso é um erro. E um erro que nos custa muito da tranquilidade que podemos vir a experimentar.

Regressemos ao fragmento inicial. Em primeiro lugar, ele nos indica que a pessoa comprometida com o bem não procura brigas. Ela até pode ser acusada ou envolvida em alguma discussão, mas isso lhe sucederá à revelia. Quando possível, ela tentará pacificar os que estão à sua volta, mas, se obstinados estiverem, não haverá remédio senão deixá-los digladiando-se. Se você tem pais que resolvem tirar um fim de semana para discutir aos brados e “lavar a roupa suja” de anos, é seu dever de filho tentar trazê-los à razão, mas, se isso se revelar inútil, procurar ignorar o entrevero será a melhor saída: você não criou aquela situação. Epicteto menciona o exemplo de Sócrates, que não se indispunha jamais com Xantipa, mulher de temperamento “mais insuportável que o de uma besta selvagem”, nem caiu na armadilha do filho Lâmprocles, que tentou enredá-lo com cavilações dignas de um sofista (cf. Xenofonte, Memoráveis, II, 2).

Ainda que Epicteto idealize Sócrates mesmo na função de pai — o que, vamos dar algum crédito a Xantipa, é discutibilíssimo —, o ponto se mantém: os que amam a sabedoria e pretendem trilhar o caminho que leva até ela não podem “morder as iscas” que lhes são lançadas por parentes irascíveis ou inconvenientes. Porém, o filósofo — ao menos o filósofo estoico — tem algo a seu favor para conseguir manter-se tranquilo na maior parte do tempo: a dicotomia do controle, que o leva a “aprender o que é próprio de si e o que é de outro” (manthánein tà ídia kaì tà allótria). Ele reconhece que não tem poder sobre a “faculdade diretora” (hēgemonikón, i. e., a parte responsável pelo governo de toda a mente) dos outros, e que desejá-lo é, de certa forma, atentar contra as leis da natureza. É preciso contentar-se com o que é seu, com o seu próprio hēgemonikón, com as suas próprias ações e com a vida interior que lhe cabe. E eis por que, no seio da família, o filósofo tentará, nas pegadas do Sócrates um tanto idealizado por Epicteto, conservar-se “conforme com a natureza” (katà phúsin), o que nada é senão um estado de tranquilidade que nasce da certeza de que se está imbuído da razão mais certa e agindo-se da melhor maneira possível. O que os outros fazem é problema deles.

Ao tratar das questões de parentesco em outro ponto (cf. Diatribes, III, 3: 5-9), Epicteto chega a ser mais assertivo, transmitindo a seus alunos a convicção de que os liames familiares devem ser preteridos em favor do bem — e, por extensão, da excelência (ou virtude). Não obstante a dureza do trecho, ele não passa de uma reformulação da noção estoica (fundamental) de indiferente, que precisa ser, como sempre, bem compreendida. Ao dizerem que a família é um indiferente, estoicos como Epicteto não queriam significar que ela não tinha importância, mas que a possibilidade de agir bem de um indivíduo não se altera porque seus familiares vivem em harmonia ou desarmonia. Ter um pai abusivo ou um pai diligente não faz de ninguém melhor ou pior pessoa, assim como ter irmãos desleais ou amáveis também não o faz. Os adeptos do Pórtico nunca se interessaram pela vida em si, apenas pela vida moral — pelas fibras de nosso ser que nos fazem escolher o que é bom ou mau em cada circunstância. Para eles, se a experiência familiar tem degradado a existência de uma pessoa é porque ela, não instruída na filosofia, não tem sabido demarcar os limites entre si e os outros, consanguíneos. E tal pessoa, por dura que lhe pareça a alternativa, deve preferir o bem ao sangue.

Resta, decerto, uma objeção na mente dos leitores, que podem ter achado a “receita estoica” para uma boa convivência em família um tanto cinzenta, rica em desprendimento, pobre de afetos. Com efeito, a família é lugar de amor, que é uma coisa que doamos a nossos parentes e recebemos deles (dificilmente em igual grau). Mas a família também é, não nos esqueçamos, um espaço de dever e de cumprimento de papéis. Ora, os estoicos não excluem o amor da fatura familiar, mas consideram-no secundário relativamente ao dever (veja-se o texto de Diatribes, I: 11, em que Epicteto exorta um pai que não aguentava ver o sofrimento da filha a voltar ao leito da pequena doente). No limite, o que eles afirmam é que devemos continuar a ser bons pais, bons filhos, bons irmãos etc. mesmo quando não há nenhum laivo de retribuição afetiva do outro lado, mesmo quando somos pagos por nossa dedicação com insultos ou incompreensão — e que é uma tolice sentir mágoa por causa disso. Talvez essa centralidade do dever e do cumprimento dos papéis possa parecer severa, árida demais a quem vive em uma família na qual existe razoável harmonia e o amor circula constante e desimpedido. Todavia, para quem sofre com a proximidade de parentes disfuncionais ou problemáticos, saber em que ponto acaba o poder que você tem e começa o poder de deliberação e ação de outrem, e que é necessário cumprir o dever que cabe a você sem esperar nada — absolutamente nada! — em troca, pode ser a única maneira de se manter são e mais ou menos ao abrigo das amarguras.

Por fim, uma recomendação colhida no Encheirídion:

Toda coisa tem dois lados: um suportável e outro não suportável. Por exemplo, se teu irmão foi injusto contigo, não o tomes por aí, isto é, que ele é injusto (pois isso não é suportável), mas toma-o antes por aqui: que ele é teu irmão, e que fostes criados juntos — assim o tomarás de acordo com o que é suportável. (Epicteto. Manual, 43; trad. Aldo Dinucci e Alfredo Julien)

Os tradutores optaram por modificar ligeiramente a referência em torno da qual se organiza o capítulo ou seção acima. No original, porém, como observam em nota ao texto, faz-se menção às duas asas de uma ânfora: por uma delas o grande vaso pode ser sustentado, pela outra não pode sê-lo. Alguns tradutores estrangeiros propõem uma adaptação que tem a sua conveniência e escrevem algo como: Todas as coisas têm duas alças: uma pela qual podem ser carregadas, outra pela qual não podem ser carregadas.

Ficamos, portanto, com isto: nossos problemas familiares são como uma ânfora de duas asas ou uma mala de duas alças; eles podem ser “carregados” ou não, a depender do lado por que os agarremos.

 

 

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