Notas estoicas, 3: Vestir-se à moda estoica?

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Vestir-se à estoica: entre liberar-se da opinião comum e adequar-se ao dever na sociedade (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

[Musônio Rufo] julgava valoroso o homem temperante buscar proteção que não fosse dispendiosa e refinada para o corpo. E disse que é preciso fazer uso da toga e do calçado do mesmo modo que da armadura, em razão da qual o corpo é protegido, e não exibido. Com efeito, do mesmo modo que as melhores armas são as mais fortes e as mais capazes de conservar quem faz uso delas, não as chamativas e brilhantes, assim também os melhores calçados e vestes são os que melhor servem o corpo, não os mais capazes de atrair os olhares dos ignorantes. Pois é preciso que a proteção torne mais forte e poderoso o protegido, não mais fraco e inferior. Com efeito, os que procuram maciez e suavidade para a pele tornam pior o corpo, (se é o corpo enlanguescido e efeminado muito pior que o endurecido e exercitado). Somente os tecidos que são fortes e que fortalecem pela proteção beneficiam as partes protegidas. Por isso, não é de modo algum bom cobrir o corpo com muitas togas. Nem é bom, para quem não está doente, enfraquecer o corpo, abafando-o com ataduras e envolvendo as mãos e os pés com lã ou certos tecidos. Nem, em geral, é bom não sentir frio e calor, mas é preciso, com medida, estremecer no inverno, tomar sol no verão e ficar à sombra o mínimo possível. E é preferível fazer uso de uma túnica a precisar de duas. E melhor que fazer uso de uma túnica é usar um manto apenas. Também é melhor, para quem é capaz, estar descalço que calçado, pois quem está calçado corre o risco de estar como que acorrentado. Estar descalço confere muito mais facilidade de movimento e leveza para os pés, quando são exercitados. Donde se vê que os mensageiros não fazem uso de calçados nas vias e que os corredores, entre os atletas, não são capazes de conservar a velocidade se precisarem se mover rapidamente calçados. (Musônio Rufo, Diatribes, XIX; trad. Rodrigo Pinto de Brito e Aldo Dinucci)

Não há matéria que os estoicos considerassem indigna de suas preocupações. A doutrina que professavam debruçava-se mesmo sobre os aspectos mais comezinhos do cotidiano. Residindo a filosofia nos atos, não nas palavras, o aspirante à sabedoria estava obrigado a dar testemunho dos preceitos que aprendia na escola por meio de sua própria vida. Até questões de vestuário e aparência eram discutidas nos locais de estudo, como a agremiação original de Zenão, em Atenas, e as outras que se fundaram a partir da expansão romana.

De modo geral, os adeptos das escolas filosóficas que ganharam força do período helenístico em diante tomavam a simplicidade do vestuário de Sócrates, além de seu relativo desleixo com a aparência, como modelo a ser seguido. Nas cidades do Oriente helenizado e, posteriormente, no Império Romano, podia-se reconhecer um filósofo pelo aspecto que demonstrava: cabelos longos, barba e manto simples. As indumentárias, ao que parece, variavam ligeiramente de escola a escola, de sorte que era possível saber a afiliação filosófica de um indivíduo só de avistá-lo. Para além da roupa, os filósofos de uma dada vertente frequentavam sempre os mesmos lugares, tinham o costume de comer o mesmo tipo de alimentos, sujeitavam-se a rotinas muito semelhantes etc. A filosofia, portanto, era uma “maneira de viver” que transparecia em todos os hábitos dos que a ela se dedicavam.

Com os cínicos, tais como o célebre Diógenes de Sínope e Crates, do qual Zenão de Cítio foi aluno e seguidor, a indiferença às convenções sociais foi levada às últimas consequências: o ascetismo desses filósofos era tão radical — tão teatralmente radical — que era impossível, à primeira vista, distingui-los de mendigos. Andavam rotos e sujos de propósito, moravam na rua, aliviavam-se de necessidades diante dos olhos de todos; com isso, não apenas deixavam claro que não se envergonhavam de nada, como também afirmavam o que criam ser sua própria liberdade. É quase desnecessário dizer que, por mais espirituosos que tenham sido na tarefa de mostrar as hipocrisias e as sofisticações absurdas da sociedade, eram reféns de uma espécie de senso de provocação.

Filho do cinismo, o estoicismo manteve muito da valorização do que é imediato, frugal, essencial — uma característica dos filósofos maltrapilhos. No excerto citado acima, conservado pelo doxógrafo João Estobeu (séc. V d. C.) em seu Florilégio, lemos um testemunho das opiniões de Musônio Rufo acerca das questões de vestuário. A insistência do mestre de Epicteto no fato de que a roupa devia somente proteger o corpo, e não adorná-lo, fica manifesta a cada linha. Segundo Musônio Rufo, há que dar preferência a peças que sejam baratas, pouco chamativas e, por assim dizer, fortificantes para o corpo. Nenhuma deferência por noções como a elegância ou a formalidade; nem mesmo a qualidade das vestes entra na discussão.

As raízes cínicas da filosofia estoica aparecem de maneira bastante acentuada nos fragmentos que contêm os ditos de Musônio Rufo, como este que nos ocupa. Dinucci e Brito, comentando algumas das Diatribes deste filósofo, observam a centralidade do adjetivo eutelḗs (“de preço baixo ou vil; pobre, parco”) e da ideia expressa pelo substantivo eutéleia (“barateza, modicidade”) na ilustração do modo de vida ali preconizado: não se trata apenas de simplicidade, mas de algo que vai além, opondo-se a todo e qualquer luxo ou gasto supérfluo.

Sabemos, porém, que os estoicos não viviam como os cínicos (ainda que os admirassem): não eram adeptos da mendicância por eleição, conservavam-se dentro dos limites do pudor público, não viam vantagens na falta de higiene, não se entregavam a encenações de autonomia, como o eram os insultos lançados aos passantes da rua. Embora falassem de eutéleia, o que compreendiam por esse vocábulo era algo um tanto diverso daquilo que vinha à mente dos filósofos que decidiram viver como cães. Em que sentido, pois, os estoicos divergiam dos cínicos e de que modo essa divergência se manifestava em questões do dia a dia, como o vestuário?

Aqui, comparecem dois elementos característicos do estoicismo: o desenvolvimento de uma lógica formal e a noção de dever face à coletividade. Aferrados à lógica na interpretação do conceito de indiferentes, os estoicos serão obrigados a reconhecer, por exemplo, que o traje que se usa não importa muito, apenas o uso que dele se faz. A ostentação da pobreza, traço distintivo dos cínicos, torna-se tão problemática quanto a ostentação da riqueza. Com efeito, Diógenes e companhia eram vindicativamente pobres, agressivamente mendicantes, mas, segundo a lógica estoica mais estrita, não há motivo para supor que um miserável fosse melhor ou pior que um ricaço. De mais a mais, com a introdução do conceito de indiferente preferível, certas condições exteriores, ao facilitarem o desempenho dos deveres que se assumem face à coletividade, receberam um selo ligeiramente valorativo. Assim é que ter saúde pode ser melhor que não tê-la; ser eloquente, melhor que não sê-lo; constituir uma família, melhor que não constituí-la; possuir alguns bens, melhor que não possuí-los. E — por que não? — vestir-se decentemente e com adequação às circunstâncias, a depender do papel social do indivíduo, será preferível a cobrir-se de andrajos.

Tendo tais coisas em vista, a recomendação de Musônio Rufo tem de ser tomada cum grano salis. Ele e Epicteto, seu maior discípulo, professaram e praticaram um estoicismo bastante embebido em tintas cínicas, defendendo a opinião de que uma vida de relativa reclusão era preferível a uma que implicasse participação nos afazeres públicos. Musônio chegava mesmo a idealizar a existência do campesino que retira da natureza o pouco de que precisa (cf. Diatribes, XI), embora não se tenha registro de que ele tenha vivido desse modo, assim como Epicteto sempre pintou o casamento como desejável, apesar de só ter desposado uma mulher no final de sua vida, para poder, segundo Simplício, adotar um menino enjeitado pelo pai. Além de marcado por uma idealidade cínica, o estoicismo de ambos esteve, portanto, bastante centrado numa experiência escolar, que se apresentava, para o olhar de alguém de fora, como um grupo de alunos gravitando em torno de um professor, todos barbados e vestidos da mesma maneira. Essa reclusão, essa separação do resto da sociedade que principiava pelo próprio vestuário, nunca significou uma fuga da política: de fato, ambos os filósofos tornaram-se incômodos para o poder imperial, como o comprovam os dois exílios de Musônio Rufo, sob Nero e sob Vespasiano, e a expulsão dos filósofos de Roma, por volta de 93, o que levou Epicteto a instalar-se em Nicópolis.

Nem todos os estoicos permaneciam dentro dos pequenos círculos das escolas de filosofia, porém — e a história romana não é avara destes últimos espécimes. Considere-se este fragmento de uma das Vidas de Plutarco:

Em geral, Catão era da opinião de que os costumes de seu tempo eram tão corruptos e necessitavam de uma reforma tão grande que era necessário, para emendá-los, tomar um caminho totalmente contrário ao que então se seguia. Vendo que uma púrpura excessivamente vermelha e vívida estava muito em voga, ele procurava trajar uma que fosse de tonalidade mais escura. Não raro saía para a rua, depois do desjejum, sem calçados nem túnica, não para buscar notoriedade com essa prática singular, mas para acostumar-se a sentir vergonha somente do que fosse propriamente vergonhoso, sem se importar com a opinião dos homens a respeito de outras coisas. (Plutarco, Vida de Catão de Útica, VI)

Para o que nos tem interessado aqui, há duas coisas a notar. A primeira é que Catão de Útica, figura política da maior importância e estoico dos mais rigorosos, não renunciava ao uso da púrpura, procurando antes pô-lo em conformidade com seu temperamento austero. A púrpura era parte de sua dignidade senatorial; tendo funções públicas de destaque, era preciso que estivesse à altura delas  — sem excessos, no entanto. A segunda coisa é que, por ser um homem muito cônscio de suas grandes qualidades, ele sabia que estas não se localizavam na posição que ocupava ou no modo como se vestia, motivo pelo qual se exercitava, andando pelas ruas com vestes simples.

(Nesta sequência da série Roma, infelizmente não legendada, vemos Catão de Útica diante do Senado, acusando Júlio César de tramar o fim da República. O ator Karl Johnson aparece vestido com uma réplica de uma toga pulla, indumentária grosseira usada nas ocasiões de luto, dando a entender que Catão, ali, pranteava o regime que se extinguia, num lance algo teatral que não estaria de todo distante do que o senador estoico seria capaz de fazer.)

Algo semelhante se nota na trajetória de Marco Aurélio, quase dois séculos depois. Tendo tomado o manto dos filósofos aos 12 anos, ele foi paulatinamente persuadido, em especial pela mãe, a voltar aos trajes próprios dos cargos que viria a ocupar. Quando se tornou imperador, em 161, reduziu boa parte da pompa imperial, mas continuou vestindo-se de acordo com suas prerrogativas militares, políticas e religiosas. Afinal, é coisa sabida que o poder nunca foi para ascetas.

Escrevendo a Lucílio, Sêneca exprime-se em termos bastante equilibrados a respeito do vestuário adequado a um estoico:

E mais te aconselho a que não procedas como aqueles que mais pretendem dar nas vistas do que aperfeiçoar-se: evita tudo quanto se torna notado quer na tua pessoa, quer no teu estilo de vida. O aspecto descuidado, o cabelo por cortar, a barba por fazer, o ódio afetado ao dinheiro, a cama no chão, são formas deformadas de ambição que tu deves recusar. O próprio nome da filosofia, ainda que sem atitudes ostentatórias, já causa por si má vontade! O que seria, então, se nos começássemos a afastar dos comuns hábitos de vida. Sejamos no íntimo absolutamente diferentes, embora na aparência vivamos como os demais. Não usemos togas esplendorosas nem tampouco sórdidas; não tenhamos pratas cinzeladas com incrustações de ouro maciço, nem tampouco consideremos sinal de frugalidade a ausência completa de ouro e prata. Devemos agir de modo a que, em comparação com os outros, a nossa vida seja, não diametralmente oposta, mas sim melhor. (…) A primeira coisa que a filosofia nos garante é o senso comum, a humanidade, o espírito de comunidade, coisas de cuja prática nos afastará uma vida demasiado diferente. (Sêneca, Cartas a Lucílio, V, 1-4; trad. J. A. Segurado e Campos)

Distante dos excessos e consciente do que é necessário para cumprir o seu papel na sociedade, o aspirante à sabedoria estoica do presente fará as melhores escolhas para o seu guarda-roupa, que será mais sóbrio que valioso, mais funcional que vasto.

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Donato Ferrara é professor e administrador escolar.

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