Notas estoicas, 2: Ansiedade e aprovação da multidão

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Não há conhecimento capaz de garantir o favor da multidão, a qual não é bom juiz do que fazemos (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Por que o retor, que tem ciência de ter escrito bem e de ter gravado na memória aquilo que escreveu, além de fazer uso de uma voz agradável, ainda se sente ansioso? Porque ele não se satisfaz com seus discursos. O que, pois, ele quer? Ser louvado pelo público. Ora, ele estudou para ter condições de pronunciar seus discursos, mas no que respeita ao louvor e à censura, ele nada estudou. De quem ele aprendeu o que é o louvor, o que é a censura, qual é a natureza de um e de outro, que tipo de louvor se deve buscar, que tipo de censura se deve evitar? Quando foi que ele se dedicou à disciplina que responde a todas essas questões? Por que, pois, ficar surpreso se, nos assuntos em que um homem é competente, ele supera os outros e, naqueles em que não tem experiência, ele não se distingue da multidão? Do mesmo modo como o citaredo que sabe tocar seu instrumento, canta bem, veste uma túnica bonita — e que treme, ainda assim, quando entra em cena. Pois ele tem domínio sobre todas aquelas coisas, mas não sabe o que é a multidão, nem o que são os gritos e as zombarias da multidão. Nem mesmo sabe o que vem a ser a própria ansiedade, se ela é nossa obra ou obra de outrem, se é possível ou não fazê-la cessar. Por tal motivo, se ele foi louvado, vai-se embora todo inflado de vaidade, porém, se foi alvo de zombarias, ei-lo como um pobre odre, furado e esvaziado.

É este o caso também conosco. O que admiramos? As coisas exteriores. A que nos aplicamos? Às coisas exteriores. E temos ainda dúvidas quanto ao porquê de experimentarmos medo ou ansiedade? O que pode acontecer quando consideramos os acontecimentos como males? Não está em nossas forças não ter medo, não está em nossas forças não ter ansiedade. (Epicteto, Diatribes, II, 16: 5-12)

A ansiedade é um dos males mais comuns de nosso tempo. Em grandes doses, ela chega a tornar a vida de quem a experimenta muito insatisfatória, se não inviável. Talvez não seja inútil observar que o termo que vertemos (na esteira de George Long e Joseph Souilhé) por “ansiedade” equivale ao grego agōnía, o qual provém de agṓn (“luta, combate”) e está relacionado ao verbo agōnídzō (“buscar vencer, esforçar-se pela vitória”). A partir do século IV a. C., época de Aristóteles e Demóstenes, a palavra agōnía sofreu uma metamorfose de grande monta, passando a caracterizar também um estado psicológico no qual o indivíduo entra, por assim dizer, em combate consigo mesmo. Crisipo, terceiro diretor da escola estoica, estudou extensivamente as paixões e qualificou a agōnía dentre os medos — a saber, aquele que se experimenta diante de coisa invisível ou incerta (agōnía dè phóbos adḗlou prágmatos; cf. Diógenes Laércio, Vidas e opiniões dos filósofos ilustres, VII, 113).

No trecho acima, portanto, Epicteto menciona uma paixão que põe o indivíduo em conflito interior, que o faz dispender grande quantidade de energia de modo infrutífero, e que pode recobrir acepções contemporâneas que vão da de ansiedade à de agonia propriamente dita, passando pela de angústia. O que ele nos diz vale não apenas para as pequenas ansiedades cotidianas, aplicando-se igualmente a tormentos sentidos de maneira mais intensa e duradoura.

E o que Epicteto nos diz? Comecemos por notar que ele está particularmente interessado em um tipo de ansiedade que nasce do desejo de agradar à multidão, de ser louvado por ela. Trata-se de uma modalidade de padecimento antecipatório presente até hoje — talvez mais comum do que nunca nos dias atuais, quando o que dizemos ou fazemos pode estar sujeito às reações valorativas dos outros nas mídias sociais. O mundo virtual pôs à nossa disposição meios de determinar a popularidade de nossas ações com exatidão inédita, e hoje temos condições de saber se agradamos ou não em termos quantitativos. Quantas pessoas “curtiram” nossa última postagem no Facebook? Com quantos profissionais temos contato via LinkedIn? Quantas vezes o artigo que escrevemos foi citado em publicações acadêmicas nos últimos meses? Quantas referências a nosso site pessoal existem, de acordo com uma pesquisa do Google? Quantos seguidores tem o canal que abrimos no YouTube no ano passado?

Os homens da Antiguidade também estavam sujeitos a esse gênero de pressão interna, embora não contassem com as ferramentas de hoje — as quais, em muitos sentidos, tornaram o quadro pior. Alguns deles, porém, tinham uma vantagem: podiam recorrer à filosofia, que tinha uma dimensão prática bastante desenvolvida. Valendo-se do cabedal analítico do estoicismo para uma finalidade prática bem definida, Epicteto observa que a ansiedade nasce quando um indivíduo não se contenta com os frutos e satisfações proporcionados pelo conhecimento ou competência que ele possui, buscando coisas exteriores, que se situam em um domínio que não é o seu. Há, por exemplo, uma ciência da composição dos belos discursos — a retórica — e uma arte voltada à cítara e ao canto — a música —; não existe, todavia, um saber capaz de garantir com segurança o favor das multidões.

Mas por que é tão comum, nos seres humanos, a tendência de se trocar o certo pelo duvidoso? Marco Aurélio expressa de si para si uma perplexidade semelhante ao considerar o peso que damos à opinião alheia:

Nunca deixo de me surpreender com isto: todos nós nos amamos a nós próprios mais que às outras pessoas, mas levamos em conta mais o julgamento delas a nosso respeito do que aquele que de nós fazemos. (Meditações, XII, 4)

De volta à linha de raciocínio de Epicteto. Quando o retor e o citaredo deixam de pensar que o mais importante é ter um bom desempenho em público, passando a desejar que a multidão os louve ou, ao menos, não se volte contra eles, adentram um terreno movediço. A insegurança psicológica que caracteriza a ansiedade é consequência da falta de segurança dos objetos aos quais tendem os desejos acalentados pelos indivíduos. O que equivale a dizer que a ansiedade é uma consequência (ou tradução) perfeitamente lógica de uma relação viciada do sujeito com a realidade: ao tentar controlar as coisas que não são controláveis, ele acaba controlado por elas.

Em outra passagem das Diatribes, Epicteto compara o ansioso a um estrangeiro que não consegue orientar-se em pátria diversa, ignorando-lhe os usos e os costumes. Sentir ansiedade é, de algum modo, sentir que não estamos em casa, que não estamos de todo à vontade. Sobre esse tipo desnorteado, o ansioso-estrangeiro, Epicteto acrescenta o seguinte:

Ele ignora que quer aquilo que não lhe pode ser concedido e que não quer as coisas que não podem ser evitadas; ele nem mesmo sabe o que lhe é próprio e o que é de outrem. Se ele o soubesse, nunca sofreria entrave ou constrangimento, não ficaria ansioso. (Diatribes, II, 13: 8)

Extrapolando o símile epicteteano, conclui-se que temos de voltar às leis que regem nossa cidadania universal: quando as infringimos, somos punidos. Pelo desconforto psicológico — as paixões. A dicotomia do controle, já mencionada aqui, é como uma carta que estabelece nossos deveres: nossa natureza está constituída de tal modo que, se desejarmos ser livres, teremos de nos voltar aos “encargos nossos”, não ao que é exterior, como a opinião dos outros sobre o que fazemos. Relembremos os termos que abrem o Encheirídion organizado por Flávio Arriano:

Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa ― em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos ― em suma: tudo quanto não seja ação nossa. Por natureza, as coisas que são encargos nossos são livres, desobstruídas, sem entraves. As que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem. (Manual, 1: 1-2; trad. Aldo Dinucci e Alfredo Julien)

Se não há uma ciência ou arte que permita ao indivíduo a obtenção do favor do grande número, visto que apenas o que é interior é verdadeiramente de nossa alçada, haveria mais alguma coisa que a filosofia estoica poderia dizer acerca da multidão, da opinião geral? Epicteto nos oferece mais alguns elementos para compreendermos a incompatibilidade entre os preceitos da filosofia e os comportamentos mais difundidos. Alertando seus alunos sobre o poder de “contágio” que os não instruídos no estoicismo teriam sobre os próprios prokóptontes de sua escola, ele diz o seguinte:

Por que essas pessoas são mais fortes que vocês? Porque todas as tagarelices insensatas que elas proferem vêm das opiniões que elas têm; ao passo que do lado de vocês, as belas coisas que dizem provêm de seus lábios. São palavras sem vigor nem vida, e chega a ser nauseante escutá-los em suas exortações e a propósito da miserável virtude de que tanto falam. Eis por que os não instruídos os sobrepujam. Porque a opinião tem sempre uma força invencível. (Diatribes, III, 16: 7-8)

Se você se esforça por conhecer a si próprio e às suas motivações mais íntimas, por que permitir que a opinião dos outros lhe roube a tranquilidade? Insaciável é aquele que, além de uma consciência em paz, deseja ainda o louvor dos outros. E os insaciáveis perdem os tesouros que têm em busca de coisas — muita vez ilusórias — que não têm.

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Donato Ferrara é professor e administrador escolar.

 

 

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