As meditações diárias, 2: A meditação noturna ou retrospectiva

Koninck_JMC

Filósofo com o livro aberto, tela de Salomon de Koninck (1609-1656) (fonte da foto)

Nota: Este artigo dá sequência à nossa discussão sobre as meditações matinais dos estoicos. Mais uma vez, há uma parte histórica e teórica, um tanto mais alentada, e outra voltada à prática (“Resumo prático”), a que você pode ir se desejar ler um tratamento mais direto do tema. Além disso, reconheço minha dívida para com algumas fontes, como esta entrada do Daily Stoic, este post do Modern Stoicism e este do Stoic Journey; também novamente útil foi o capítulo “O exame de consciência entre os antigos”, do livro Estudos morais sobre a Antiguidade, de B.-C. Martha. Um conhecimento sólido só pode ser construído quando nos apoiamos no bom trabalho dos outros e lhes damos o reconhecimento devido.

TEORIA E HISTÓRIA

O exercício estoico da meditação noturna também parece ter-se derivado de técnicas do pitagorismo. A esse respeito, os Versos de ouro, recolha de leis ou preceitos anônima que condensa a sabedoria dos seguidores do filósofo de Samos, diz-nos o seguinte:

Não permita que o doce sono cerre-lhe os olhos,

sem ter repassado consigo o que você fez durante o dia:

Em que errei? O que fiz? Omiti-me em algo que deveria ter feito?

Considere todas as suas ações desde a primeira, sem esquecer nenhuma.

Castigue-se pelas ações más e regozije-se pelas boas.

Versos de ouro, v. 40-44

Em seu famoso comentário acerca dos Versos de ouro, o filósofo neoplatônico Hiérocles de Alexandria (ca. 430 d.C.) nota que o exame noturno das ações do dia que se finda deve ser minucioso, observando-se nele a adequação do indivíduo a cada uma das leis (ou dos preceitos) que o Legislador deixou assentes nos versos anteriores. (Os pitagóricos supunham que a sabedoria tivesse origem divina, por isso falam de um nomothétēs, algo como uma inteligência não humana responsável pela formulação e transmissão de tais leis.) Não será inútil, talvez, transcrever a recapitulação dos deveres que os seguidores da tradição pitagórica impunham a si mesmos, visto que também quem deseja adotar aspectos da filosofia estoica em sua vida cotidiana pode tirar proveito dos ensinamentos de outra escola. Eis o que Hiérocles registra, retomando os 39 versos anteriores:

Pois, que diz o Legislador? Que devemos honrar os seres superiores de acordo com a ordem e a posição de sua substância [v. 1-3]; ter respeito e consideração por nossos pais, nossas mães e nossos parentes [v. 4]; acolher e amar as pessoas de bem [v. 5-8]; dominar nossas paixões e afetos corporais [v. 9-10]; respeitar-nos a nós mesmos em tudo e sempre [v. 11-12]; praticar a justiça [v. 13-14]; reconhecer a brevidade desta vida [v. 15] e a instabilidade das riquezas [v. 16]; aceitar a sorte que o juízo divino nos envia [v. 17-18]; não nos comprazer senão em pensamentos dignos de Deus [v. 19-20]; levar constantemente a mente ao que houver de melhor [v. 21-22]; não amar e não acolher senão os discursos que mereçam tal nome [v. 23]; não deixar-se enganar e manter o ânimo forte na observância da virtude [v. 24-26]; cogitar antes de agir, afim de que o arrependimento não seja o fruto de nossas iniciativas [v. 27-29]; purgar-nos de toda opinião vã [v. 30] e seguir a vida do conhecimento [v. 31]; conformar nosso corpo [v. 32-34] e todas as coisas exteriores [v. 35-39] às exigências da virtude. (Hiérocles, Comentário aos Versos de ouro de Pitágoras, Versos 40 a 44)

O comentador também deixa claro que, para os pitagóricos, o fortalecimento da razão e de seu consequente domínio sobre a conduta deve ser objeto de exercícios diários:

São essas as leis que o intelecto divino impõe aos seres humanos. Desde o momento em que a razão os recebe, ela se torna um vigia zeloso para si mesma. Em que errei? O que fiz?, diz ela todos os dias, rememorando em ordem todas as ações boas e más. E ao fim de tal exame, se ela descobre que passou o dia sem ter violado nenhuma dessas leis, providencia para si uma coroa com os frutos da alegria divina. E se ela pilha a si mesma em falta, então ela se castiga por meio das severas correções do arrependimento, como se recorresse a fármacos. Eis por que, dizem os versos, é preciso afastar o sono para dar tempo à razão de fazer este exame. O corpo suportará com facilidade tais vigílias, não estando tão tocado pela necessidade de dormir em virtude do regime temperante, o qual submete as paixões ao império da razão. (idem)

Um dos vetores que permitiram a transmissão da meditação retrospectiva dos pitagóricos para o ambiente estoico foi a escola fundada por Quinto Séxtio (entre sécs. I a.C. e I d.C.), filósofo de tendências ecléticas. Sêneca frequentou-a, fazendo referência a ela em diversas de suas obras; do grupo de Séxtio, ele disse, por exemplo, que se tratava de uma seita “nova e de vigor romano” (Sextiorum nova et romani roboris secta). Ali se vivia em comunidade, sob regime vegetariano (o próprio Sêneca adotou a dieta pitagórica que aprendeu com Séxtio em grande parte de sua vida) e se praticavam técnicas ascéticas de variadas origens, embora a tendência geral da escola fosse o estoicismo adaptado às necessidades romanas. Sobre a meditação noturna que Séxtio ensinara a seus discípulos, Sêneca escreveu o seguinte:

Todos os nossos sentidos devem ser treinados para tornar-se firmes. São por natureza resistentes, contanto que a mente desista de enfraquecê-los — esta, que deve ser convocada a prestar contas de si cotidianamente. Assim agia Séxtio e, ao termo do dia, quando se recolhia para o repouso noturno, ele se interrogava a si desta maneira: “Que mal seu você sanou hoje? A que vício se opôs? Em que respeito você está melhor?”. A ira cessará e se tornará mais moderada se souber que tem de aparecer todos os dias ante um juiz. Pode haver algo melhor do que essa prática de examinar todo o seu dia? Que sono é aquele que advém depois do autoexame, quão tranquilo, quão profundo e livre é ele, quando a alma foi elogiada ou advertida e, como um observador de si e um censor secreto, chega ela ao conhecimento de seus hábitos!

Desse recurso me valho e diariamente, diante de mim mesmo, advogo minha causa. Logo que se apagou a luz e minha esposa, já ciente de meu hábito, fez silêncio, perscruto todo o meu dia e revisito meus atos e palavras. Nada escondo de mim, nada omito. De fato, por que temeria eu algum de meus erros, quando poderia dizer: “Trate de não fazer mais isso; por ora eu lhe perdoo. Naquela altercação você falou muito combativamente. Não vá ter, depois disso, com ignorantes: não querem aprender os que nunca aprenderam. Àquele, você o advertiu com mais franqueza do que devia; desse modo, não o emendou, mas o ofendeu. No futuro, veja não apenas se é verdadeiro o que diz, mas se aquele a quem você se dirige suporta a verdade: o bom fica feliz em ser advertido; quanto pior é o homem, menos ele tolera quem o corrige.” (Sobre a ira, III, 36)

A importância que Sêneca dava ao autoexame e à revisitação de suas ações também fica clara neste trecho de sua correspondência com Lucílio:

Vou observar-me com toda a atenção, vou fazer uma coisa da maior utilidade: avaliar com cuidado cada um dos meus dias. Habitualmente, ninguém autoanalisa a sua própria vida, o que só contribui para acrescer os vícios. Todos pensamos no que estamos para fazer, e mesmo isto raramente, mas não atentamos no que já fizemos, quando afinal as decisões quanto ao futuro estão dependentes do passado. (Cartas a Lucílio, LXXXIII, 2; trad. J. A. Segurado e Campos)

Epicteto, cerca de meio século depois de Sêneca, também faz referência à prática da revisitação dos atos do dia que se encerra. A estas alturas, a meditação noturna já era, ao que parece, amplamente conhecida dentro dos meios estoicos:

É preciso sempre ter à mão o juízo exigido pela necessidade: na refeição, os juízos que dizem respeito à refeição; no banho, os que dizem respeito ao banho; na cama, os que dizem respeito à cama.

Não permita que o doce sono cerre-lhe os olhos,

sem ter repassado consigo o que você fez durante o dia:

Em que errei? O que fiz? Omiti-me em algo que deveria ter feito?

Considere todas as suas ações desde a primeira, sem esquecer nenhuma.

Castigue-se pelas ações más e regozije-se pelas boas.

Devemos ter em mente tais versos para nos valer deles com proveito, não para declamá-los como se declama o “Peã Apolo”. (Diatribes, III, 10: 1-4)

Benjamin-Constant Martha (1820-1895), que se dedicou ao estudo do desenvolvimento da filosofia moral na Antiguidade, observa que nem sempre o apelo à meditação retrospectiva contido nos Versos de ouro tinha sido bem compreendido: muitos filósofos que comentaram a doutrina dos pitagóricos tomaram-no por um simples exercício de memória. Resultante disso era uma certa tendência, notada dentro e fora da escola pitagórica, a não se levar a sério o conjunto de ensinamentos que os Versos de ouro encerravam, considerando-os quase como uma simples técnica mnemônica. De fato, parece ter sido razoavelmente comum a mera récita dos versos, sem nenhum tipo de reverberação interior. Epicteto nota que essa murmuração negligente era semelhante ao que sucedia com os peãs, cantos dedicados a Apolo, que eram entoados sem atenção nem fervor. A meditação noturna proposta pelo estoicismo exigia, porém, a participação efetiva do prokópton, não se limitando a uma série de fórmulas a serem engroladas ou mastigadas antes de dormir.

Em outra passagem, já citada em nosso artigo anterior, Epicteto compara os exames de consciência a que um sujeito excessivamente preocupado com a existência mundana e um verdadeiro filósofo se submeteriam para alcançar seus objetivos. Nela, para além do registro satírico, vemos a interdependência que existe entre a meditação que se fazia pela manhã e aquela que acontecia à noite. O trecho encerra uma advertência quanto ao mau uso dessas técnicas pitagórico-estoicas, as quais devem ser sempre praticadas com bons propósitos em mente. Preparar-se para o dia que começa e revisitar suas ações na jornada que terminou sem ter em mente que devemos fazer o uso correto das representações e regrar nossos desejos e repulsas pode ser um exercício não apenas vão, mas daninho. Leiamos agora o excerto por inteiro:

Esse homem se levanta pela manhã e procura alguém a quem dirigir uma saudação ao sair de casa, alguém a quem dizer uma coisa amável, alguém a quem enviar um presente, um modo agradar ao dançarino, um modo de, agindo mal com uma pessoa, ganhar as boas graças de outra. Quando ele faz uma prece, é esse o objetivo de suas preces. Quando ele oferece um sacrifício, é por isso que ele o faz. O preceito de Pitágoras — “Não permita que o doce sono cerre-lhe os olhos” — é por ele aplicado da seguinte maneira: Em que errei em matéria de adulação? Como agi? Terá sido como homem livre, como homem nobre? E se ele descobre ter feito alguma coisa desse tipo, ele se recrimina e se acusa: Por que falar daquele modo? Não era possível mentir? Mesmo os filósofos dizem que nada nos impede de dizer uma mentira. 

Mas quanto a você, se você não se importa com nada a não ser usar as representações de modo apropriado, pela manhã, tão logo esteja desperto, pergunte-se: O que me cabe fazer do ponto de vista da impassibilidade, do ponto de vista da ataraxia? O que sou? Sou eu um pobre corpo? Uma propriedade? Uma reputação? Não sou nada disso. Então o que sou? Um ser racional. O que se exige, pois, de um ser assim? Revisite os seus atos. Em que falhei naquilo que é capaz de conduzir à felicidade? O que fiz de contrário à amizade, à sociabilidade, ao reconhecimento? Em que dever desse tipo eu me omiti? (Diatribes, IV, 6: 31-35)

Por fim, uma observação de cunho mais geral: as meditações matinal e noturna fundamentam-se em uma atitude psicológica (ou espiritual) de que podemos nos beneficiar a qualquer momento do dia. Marco Aurélio fala da possibilidade que tem o filósofo estoico de “voltar para dentro de si mesmo” (eis heautòn anakhōreîn), e os exercícios prospectivos e retrospectivos devem ser feitos com esse espírito. Vejamos o que ele diz:

As pessoas procuram para si mesmas retiros no campo, na praia, nas montanhas; e também você tem o hábito de desejar ardentemente coisas assim. Mas tudo isso é absolutamente antifilosófico , porque é possível encontrar retiro em si mesmo a qualquer momento. Não há para o homem retiro mais tranquilo nem mais livre de preocupações que a sua própria alma — e sobretudo quando se tem em si mesmo todo o necessário para alcançar, com a atenção bem dirigida, aquele sossego natural que nada é senão um outro nome para ordem. Faça uso de tal retiro de modo contínuo; regenere-se a si mesmo. (Meditações, IV, 3: 1)

RESUMO PRÁTICO

Pelo que vimos, o exercício da meditação noturna ou retrospectiva baseia-se em três perguntas:

em que falhei ou errei? → pergunte a si quais foram os seus erros no dia que finda, emita contra si uma sentença moderada (não incorra em recriminações mórbidas, trate-se a si próprio como um amigo, não como um carrasco) e comprometa-se a corrigir suas falhas a partir de então;

o que fiz de bom? → indague-se a respeito do que você fez de positivo no dia que passou, entenda quais foram as virtudes que você empregou e alegre-se comedidamente com suas boas ações;

o que deixei de fazer? → questione-se quanto ao que poderia ter sido feito e não o foi, veja se você se omitiu em algum ponto, pense no que poderia ter sido feito de maneira mais virtuosa ou com maior proveito.

Essas perguntas podem ser feitas pelo aspirante à sabedoria antes de dormir. Há quem prefira manter um diário filosófico, contemplando, além do exame retrospectivo, outras questões íntimas que sejam de seu interesse.

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