Notas estoicas, 1: Cleanto de Assos e as virtudes asininas

donkey-1714138_1920

Cleanto tomou o asno como um animal que conotava resistência e perseverança (fonte da foto)

[Cleanto] era muito aplicado, mas não tinha grandes dons naturais, sendo de intelecto exageradamente lento. Foi por isso que Tímon [de Fliunte, filósofo cético discípulo de Pirro] disse a seu respeito [parodiando a Ilíada, III, 232-234]:

Quem é esse carneiro que por entre as fileiras

dos homens avança, esse ser obtuso, amante de versos,

massa rochosa e pusilânime, natural de Assos?

Ele suportava pacientemente as zombarias de seus condiscípulos. Ao ser chamado de asno, não se incomodava com isso, dizendo ser o único que podia carregar os fardos que Zenão lhe punha em cima. (Diógenes Laércio, Vidas e opiniões dos filósofos ilustres, VII, 5: 170)

Principal discípulo de Zenão de Cítio e segundo diretor da escola estoica, Cleanto de Assos (ca. 330 – ca. 230 a.C.) não passou para a história como um renovador da filosofia ou um criador de conceitos. Diz-se que foi na juventude um atleta pobre (talvez um lutador) que chegou a Atenas com apenas quatro dracmas. Muito trabalhador, sujeitava-se a uma ocupação bastante humilde — era o responsável pela irrigação de um jardim — durante a noite, de onde tirava o sustento para as necessidades básicas e para as aulas de filosofia na escola de Zenão, a que assistia de dia. Vivia com tamanha frugalidade que chegava a ter economias, dizendo ser capaz de alimentar outro Cleanto com o pouco que ganhava, se tal fosse preciso.

Ridicularizado pelos filósofos rivais, nem mesmo seus companheiros do Pórtico deixaram de notar sua pequena acuidade de raciocínio. Por conseguinte, as realizações intelectuais de Cleanto parecem não ter tido o alcance dos trabalhos de Zenão, que assentaram as bases do estoicismo, nem o peso do primor lógico das obras de Crisipo, o terceiro escolarca do Pórtico. Da perspectiva estoica, contudo, a velocidade do pensamento ou a potência do intelecto não são coisas cruciais para a filosofia. Assim, o Cleanto que aparece no relato que Diógenes Laércio faz no Livro VII das Vidas e opiniões dos filósofos ilustres, dedicado aos estoicos, pode não ter densidade teórica, mas a figura está longe de ser desimportante.

Sejamos claros: os antigos estoicos não esperavam que todos os interessados em suas ideias fossem indivíduos brilhantes. Essa constatação pode nos parecer absurda hoje em dia porque julgamos que a tarefa de um estudioso da filosofia seja discutir questões complicadíssimas, dando-se a um trabalho de prospecção da realidade que chega às margens do que pode ser efetivamente dito e fazendo uso de um vocabulário impenetrável para os não iniciados. Os que leem — ou tentam ler — as obras de Heidegger ou Merleau-Ponty, por exemplo, decerto terão dificuldades para seguir o raciocínio desses filósofos e, entendendo-os bem ou mal, terminarão a leitura com a impressão de que se trata de autores excepcionalmente inteligentes. Mas o que importa ter sempre em mente é isto: em linhas gerais, o modo como a filosofia antiga via-se a si mesma difere bastante das práticas modernas — e no caso do estoicismo a diferença é ainda maior.

Conforme notou Pierre Hadot em vários de seus escritos, os antigos não confundiam o discurso filosófico com a filosofia em si. A função do primeiro era, como uma espécie de instrumento ou elemento auxiliar, permitir o acesso à segunda, mas o fundamental para o filó-sofo (o “amante da sabedoria”) era ser capaz de pôr em prática aquilo que constituía o centro de suas preocupações. O discurso filosófico, portanto, tinha por objetivo proporcionar um meio de contaminação, por assim dizer, de nossa “parte moral” por nossa “parte intelectual” e vice-versa. Por intermédio dos instrumentos da inteligência, o filósofo seria capaz de examinar de maneira mais clara suas ações, entender suas motivações reais, corrigir seus defeitos e avaliar suas responsabilidades, ao passo que, esforçando-se por praticar a virtude, podia vigiar o curso de seus pensamentos, mantendo-os dentro daquilo que fosse adequado ou realmente honroso.

Assim, pode-se dizer que a filosofia antiga estava precipuamente interessada no desenvolvimento de algo que se poderia denominar inteligência moral. Quando se toma o exemplo de Sócrates, tal interesse fica bastante claro. Deixando-se de lado (por motivos didáticos) a questão da fidelidade de Platão ao modo de pensar de seu mestre, certos argumentos que aparecem na boca de Sócrates quando este se defronta com Trasímaco (na República) ou com Cálicles (no Górgias) são muito mais questionáveis, muito menos conclusivos do que a urdidura dos diálogos platônicos pode sugerir. Alguns comentadores, como Bernard Williams, supõem que a insuficiência argumentativa do Sócrates platônico seja, em muitos pontos, propositada, dando espaço para o leitor indagar-se quanto ao porquê de tais falhas. Seja como for, o que importava no caso de Sócrates não era tanto sua capacidade analítica, sua “potência intelectual” ou mesmo sua presença de espírito, mas o fato de ter posto a inteligência — grande, porém não infalível — a serviço de um tipo de exame radical de si, capaz elevar a vida a um outro patamar.

A proposta de uma vida examinada pela filosofia, experimental em Sócrates, já tinha uma história razoável quando foi reinterpretada à maneira estoica. Para Zenão e seus seguidores, a ataraxia (ou imperturbabilidade) era um dos efeitos desejáveis do ideal da escola: viver em conformidade com a natureza. Apesar de sua lerdeza de espírito, Cleanto era suficientemente aplicado aos preceitos estoicos para gozar da estima de seu mestre e causar grande impressão mesmo entre não filósofos. A esse respeito, Diógenes Laércio refere uma série de episódios em que o asno de Assos dá mostras de senso de humor e autocontrole que denotam um intenso trabalho interior, uma inteligência moral muito vivaz. Eis um dos mais representativos:

Ele estava presente ao teatro quando o poeta Sositeu declamou o verso

Vêm aqueles em rebanho, movidos pela loucura de Cleanto,

e permaneceu impassível, o que deixou os espectadores tão maravilhados que eles o aplaudiram e expulsaram Sositeu do palco. Depois, quando o poeta ofereceu suas desculpas pelo insulto, ele as aceitou, dizendo que, se Dioniso e Hércules não se irritavam quando eram ridicularizados pelos poetas, seria absurdo que ele, Cleanto, se indignasse com uma maledicência à-toa. (idem, 173)

Desprezado pelos que se julgavam mais inteligentes, vemos que as virtudes asininas que Cleanto tomou, sem nenhuma vergonha, como suas garantiram-lhe a posição de escolarca e o respeito dos leigos. Era um homem sólido em todas as acepções do termo. Ele descobriu, assim como Sócrates (que se dizia um moscardo a atazanar o povo ateniense) e Diógenes de Sínope (que vivia e filosofava como um cão vadio), que era possível reverter uma associação com animal pejorativa em seu próprio favor. Em sua lentidão mental, ele conseguiu divisar uma coisa muito importante: aquele que não ignora ter em si algo de vagaroso e de bruto não irá correr atrás do que os outros homens perseguem (glória, poder, dinheiro, prazeres), nem se dará a sutilezas vãs como aquelas que caracterizam a retórica, as belas-letras, as modas intelectuais. Todos os seus recursos — mente e corpo — estarão à disposição para que o aperfeiçoamento de si seja feito sem maiores distrações. Quem se reconhece como limitado e mesmo inferior têm abertos os caminhos para o que é superior. Com efeito, Cleanto trabalhou sem ambição, viveu sem vaidades, suportou insultos com paciência, estudou a filosofia de Zenão com afinco e tornou-se, por fim, um guia para seus discípulos.

Séculos depois, Epicteto exprimiu-se nestes termos, que tão bem ilustram o exemplo de Cleanto:

Você ignora que parte ínfima do universo é, comparado ao todo? Refiro-me ao corpo; pois, pela razão, você não é inferior aos deuses nem menor que eles: a grandeza da razão não se estima por seu tamanho ou altura, mas pelas opiniões. (Diatribes, I, 12: 26)

Deixemos a descrição superlativa de nossa condição um tanto de lado e concentremo-nos no que interessa: não é a capacidade de entender coisas complexas ou decifrar enigmas o que nos nobilita, mas o conteúdo do que pensamos. Somente os pensamentos que se articulam dentro do âmbito da inteligência moral, que contribuem para a construção do caráter, têm poder transformador verdadeiro: são capazes de fazer de um asno um homem dos mais robustos — alguém que não se incomodará de carregar vasos de água de um poço pela noite adentro ou que ficará impassível diante das provocações de um falastrão qualquer.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s