Manual de Epicteto, 4: Antecipação das contrariedades e tranquilidade

roman-baths-252279_1920

Em um mundo de multidões, são múltiplos os entraves e contratempos; saibamos antecipá-los (fonte da foto)

Quando estiveres prestes a empreender alguma ação, recorda-te de que qualidade ela é. Se fores aos banhos, considera o que acontece na sala de banho: pessoas que espirram água, empurram, insultam, roubam. Empreenderás a ação com mais segurança se assim disseres prontamente: “Quero banhar-me e manter a minha escolha segundo a natureza”. E do mesmo modo para cada ação. Pois se houver algum entrave ao banho, terás à mão que “Eu não queria unicamente banhar-me, mas também manter minha escolha segundo a natureza — e não a manterei se me irritar com os acontecimentos”.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

A consolidação do Império Romano significou muitas coisas. Dentre elas, a emergência das multidões. Entre os séculos I e II, a capital do Império contava cerca de 1 milhão de habitantes, e os domínios romanos como um todo tinham entre 40 e 70 milhões de pessoas, de acordo com estimativas modernas. Pode não parecer muito, mas em se tratando de tempos antigos são cifras colossais. Boa parte dos escritos desse período dá conta desses fatos: há ali descrições vivas das massas que se movimentavam pelos mercados, pelos teatros, pelos templos, pelas termas, pelos fóruns, pelas casernas, pelos jardins públicos e, claro, pelos circos romanos. A realidade imperial era bastante semelhante à nossa em diversos aspectos — apenas a escala era diferente.

A transposição do estoicismo de seu contexto de origem grego para o mundo romano teve de avir-se, portanto, com uma realidade humana multitudinária. E nessa nova configuração, fazia-se necessário responder a certos problemas suscitados pela proximidade entre gente tão diversa. Mesmo para os aspirantes à sabedoria, a convivência forçada com pessoas anônimas cujo comportamento estava bem longe do ideal podia ser um desafio e tanto. Neles havia, como em toda outra sorte de indivíduos que prezam por sua autonomia, o risco da tendência à irritação com o que viam em volta de si e do brotar de um desprezo generalizado aos seus semelhantes. Nada muito diferente do que se verifica até hoje, é claro, mas a misantropia não era autorizada pelos preceitos do Pórtico. Quando mais não fosse, pelo simples fato de que ninguém jamais se tornou feliz por detestar os seus irmãos humanos.

Sêneca assim descreve a Lucílio o vaivém de pessoas no balneário onde se encontrava, no sul da Península Itálica:

Aqui estou eu agora, rodeado de barulho por todos os lados, pois estou vivendo por cima de um balneário. Imagina toda casta de ruídos capazes de pôr os ouvidos no desespero: se são os fortalhaços a treinar-se erguendo nas mãos pesados halteres de chumbo, quando não conseguem ou fingem não conseguir levantá-los, só ouço gemidos; se sustêm a respiração e depois voltam a respirar, então são assobios, é um arfar ofegante; se me calha apanhar algum fracalhote que não deseja mais do que uma vulgar massagem, então chega-me aos ouvidos o som das mãos a bater nos ombros — um som que varia conforme a mão assenta plana ou côncava. Mas se surge um jogador de bola que se ponha a contar os pontos marcados, então é o fim! Junta a tudo isto o barulho dos arruaceiros, dos ladrões apanhados em flagrante, dos que gostam de se ouvir a cantar no banho, dos que saltam com um chapão de todo o tamanho! (…) Sinto-me mesmo já tão endurecido contra o ruído que até seria capaz de suportar a voz sobremaneira irritante do comitre marcando o ritmo dos remadores. É que eu obrigo o meu espírito a conservar-se atento a si mesmo sem se deixar aliciar pelo exterior. Pode haver lá fora todo o ruído que se queira, contanto que dentro do meu espírito não haja conflitos, não haja luta entre a ambição e o temor, não haja discussão entre a avareza e a dissipação, com uma delas a procurar impor-se à outra. Que interessa, afinal, que à nossa volta reine o silêncio se dentro de nós se agitarem as paixões? (Cartas a Lucílio, LVI, 1-2, 5; trad. J. A. Segurado e Campos)

Sêneca está apontando para uma questão importante: a tranquilidade interior, para os que aprendem a disciplinar o espírito, independe das circunstâncias exteriores. Está em paz consigo aquele que não permite que nenhuma agitação se instale dentro de si: é possível conservar a calma quando o mundo inteiro é tomado pelo frenesi ou pelo desespero, ou mesmo viver atormentado em solidão e quietude. Reconheçamos, porém, que é difícil não se deixar abalar e mesmo arrastar pelas diversas contrariedades que a vida em sociedade nos oferece. Manter-se aferrado à resolução firme de sempre extrair o melhor de si e gozar de uma disposição de espírito serena demanda do indivíduo uma vigilância constante, uma tensão interior voltada para o sentido correto, o de não se permitir nunca entrar despreparado em uma situação em que os outros poderão demovê-lo de seu equilíbrio.

Em suma, a diversidade de seres humanos com que deparamos dia a dia encerra em si um potencial imenso para amofinações e incômodos. Isso se deve ao fato de que as pessoas que nos cruzam o caminho conduzem suas vidas de outras maneiras, perseguem outros objetivos, às vezes interpondo-nos obstáculos, conscientemente ou não. A menos que tenhamos disposição para viver como ermitães ou em vilarejos, é impossível não nos expormos a uma série de situações que contrariam nossos planos criadas por outras pessoas — e isso com frequência diuturna. Essas contrariedades de causa humana se subdividem em três grupos:

• perturbações: contratempos e incômodos ligeiros, que não alteram substancialmente nossos planos;

• grandes inconvenientes: obstáculos de importância razoável, que alteram nossa rotina;

• infortúnios: reveses de grande monta e tragédias, com impacto duradouro em nossas vidas.

Evidentemente, o excerto de Epicteto que nos ocupa entende as contrariedades em sentido mais largo do que o de possíveis problemas causados por gente desconhecida e numerosa. As contrariedades também podem ser ocasionadas por agentes impessoais. Uma tempestade que desabe sobre a sua casa pode molhar a roupa que você tinha deixado estendida no varal (perturbação), inundar alguns cômodos do lar ou avariar eletrodomésticos (grande inconveniente), ou ainda produzir um deslizamento de terra que destrua a construção, matando alguns de seus parentes (infortúnio). Em se tratando de doenças, a mesma gradação se aplica: você pode ser acometido de uma gripe leve, sem grande efeito (perturbação), pegar uma pneumonia ou uma hepatite que o deixe acamado por muitos dias (grande inconveniente), ou ainda lutar contra um câncer agressivo (infortúnio). Essas situações hipotéticas têm o potencial de causar abalos emocionais de importância variada, mas não nos indispõem, ou não deveriam nos indispor, com nossos semelhantes. Ainda que sejamos levados a culpar alguém por uma coisa ruim que nos tenha acontecido advinda de causas naturais, temos então a possibilidade de ser rapidamente reconduzidos à razão e a uma resignação inteligente. E o primeiro passo para tal é admitirmos que estamos diante de fatalidades — de gravidade baixa, média ou alta, mas fatalidades.

A coisa muda de figura em se tratando de contrariedades criadas por pessoas; temos a tendência de responsabilizar ou culpar os outros pelos entraves que nos causam, não raro de modo injusto ou exagerado. Os estoicos insistem bastante no fato de que a mesma possibilidade de tratamento racional existe na lida com indivíduos que nos sejam desagradáveis. Tudo é uma questão de aumentar o nível de consciência quanto a nossas ações, deixando de lado o que não nos diz respeito.

Vejamos a primeira classe de contrariedades, que denominamos perturbações. Por se tratar de incômodos em pequena escala, são coisas que não nos deveriam tirar do sério ou entristecer, mas o efeito cumulativo dessas diminutas irritações potenciais pode estragar o dia ou a semana de alguém. Epicteto não hesita em dizer de quem é a culpa por tal estado emocional: do próprio indivíduo enraivecido ou prostrado. Na psicologia estoica, as paixões só se instalam na mente de alguém quando ele dá sua permissão. As perturbações têm um caráter razoavelmente previsível: são inerentes a diversas atividades cotidianas, como os espinhos o são à rosa, ou o caroço ao abacate. Epicteto sugere a cada um de nós, pois, que ponha diante dos próprios olhos (próballe seautȭi) as coisas que costumam acontecer (tà ginómena), em especial os embaraços que podem fazer parte da situação em que vamos agir. O exemplo do Manual é o dos banhos públicos, frequentados por todo matiz de gente na Roma imperial. Podemos imaginar outras coisas por nossa própria conta.

Se antes de tomarmos um ônibus para ir ao trabalho colocarmos diante dos olhos todos os aborrecimentos que podem vir junto com essa ação, estaremos mais preparados para lidar com algum deles, na eventualidade de que venha a acontecer. Em termos epicteteanos, temos de entender a qualidade da ação que estamos a pique de empreender. Trata-se, como se nota, de uma variação da premeditação de males futuros de que falamos anteriormente, mas com um alcance menor e mais imediato. Um elenco das coisas desagradáveis que podem acompanhar nossa viagem de ônibus incluirá: dentre as perturbações de causas impessoais, a possibilidade de que o ônibus por que você espera se atrase, de que o veículo que você tomou esteja em más condições, de que ele venha a sofrer uma pane e parar, de que fique preso em um congestionamento etc.; dentre as de causas pessoais, as filas, a possibilidade de que o motorista não pare em seu ponto (mesmo com a sua solicitação), de que o coletivo esteja muito cheio, de que nele haja passageiros importunos, gritalhões, malcheirosos, vulgares etc. — e, em muitas cidades brasileiras, você também deve imaginar a possibilidade de que venha a ser assaltado ou furtado (embora talvez isto seja um “grande inconveniente”). Para pôr as coisas em perspectiva, lembremo-nos de que a presença de ladrões de vestes nos banhos públicos de Roma, citada por Epicteto, era uma realidade atestada por diversos outros autores — o que não impediu ninguém à época de ser virtuoso.

Antes de pôr o pé no local em que trabalha, mesmo procedimento: o que pode dar errado? quais são as chateações prováveis e de quem partirão elas? quais dos seus colegas seguramente exibirão mau humor? quem serão os fofoqueiros e os intrigantes? quais serão os erros em que incorrerão, obstinados? por fim, que equipamentos podem falhar? Sendo plausível que tais coisas se verifiquem, por que não preparar-se de antemão? O despreparo mental não faz sentido nenhum, vamos reconhecê-lo! Por que permitir que acontecimentos sobre os quais não se tem controle desfaçam a tranquilidade que você tenta cultivar dentro de si? Deixando-os de lado como indiferentes, é possível concentrar-se nas instâncias interiores que são os encargos nossos (tà eph’hēmîn), em particular o impulso para a ação (hormḗ). Sobre a antecipação de contrariedades causadas por pessoas à nossa volta, considere também esta passagem célebre de Marco Aurélio:

Ao amanhecer, diga a si mesmo: hoje me depararei com um indiscreto, um ingrato, um insolente, um desleal, um invejoso, um antissocial. Tudo isso lhes sucede por sua ignorância do bem e do mal. Mas eu, que vi a natureza do bem, que é o certo, e a do mal, que é o errado, e a da pessoa que comete a falta, que é afim à minha, partícipe não do mesmo sangue ou semente, mas da mesma mente e da mesma partícula divina, não posso sofrer danos de nenhum deles porque nenhum me infectará com seu erro. Nem posso indispor-me com um semelhante ou odiá-lo, porque nascemos para uma tarefa comum, como os pés, como as mãos, como as pálpebras, como os maxilares superior e inferior. De modo que obrar uns contra os outros vai contra a natureza: e oposição são a ira e a rejeição. (Meditações, II, 1)

Vê-se, pois, que há algo mais aqui do que mero lembrete ao bom desempenho das funções administrativas que cabiam a um chefe de Estado: o imperador-filósofo estava interessado em primeiro lugar nos deveres que tinha, enquanto ser humano, para com seus semelhantes, os quais formavam com ele uma fraternidade de nível superior, baseada no compartilhamento de uma mesma razão, dada pela natureza ou por Deus. Apegado à virtude da justiça (dikaiosúnē) ou equanimidade, ele reconhecia, à maneira socrática, que os que agem mal o fazem por uma ignorância profunda daquilo que seja o bem, não devendo ser tomados por monstros. Epicteto ataca o problema por outro lado, mas em sentido semelhante. Para ele, o indivíduo que empreende uma ação e se expõe às perturbações que a situação acarreta tem de estar consciente de que age em duas frentes: para alcançar seu objetivo prático (seguindo o seu impulso, a sua hormḗ) e para manter sua “escolha” (prohaíresis) segundo a natureza (katà phúsin, phisikȭs). E a segunda finalidade é mais importante que a primeira porque depende unicamente de nós mesmos.

O termo prohaíresis, vertido por Dinucci e Julien como “escolha”, precisaria de esclarecimentos adicionais bastante detalhados. Para o que nos incumbe aqui, fiquemos com o seguinte: com essa palavra, de tradução difícil, Epicteto indica uma faculdade exclusivamente humana, potencialmente livre, responsável por nossas escolhas morais. Essa noção, que se torna central na filosofia epicteteana, parece situar-se em uma zona intermédia entre a acepção de “escolha deliberada” (F. E. Peters) e a de “pessoa moral” (J. Souilhé), em uma imbricação entre a inteligência e a vontade: trata-se da condição da liberdade humana (cf. Diatribes, I, 29: 1 e seguintes). A prohaíresis será referida como “faculdade de escolha moral” a partir deste ponto.

Voltemos ao exemplo do trabalho para ver como essas sugestões estoicas funcionam. Você tem algumas tarefas a desempenhar em seu expediente. Depois de defini-las de modo claro e realista, você traz à mente tudo o que pode dar errado dentro de certa margem de previsibilidade, prestando atenção especial aos obstáculos que as pessoas com quem convive poderão lhe trazer. Começa então a agir em seu serviço, cedendo aos impulsos (hormâi) que julga corretos. Em dado momento, surgem-lhe perturbações mais ou menos previstas: um colega procrastinador, um cliente irritado, um chefe que não entende em que pé estão as coisas. São coisas que produzem pequenos abalos em seu ânimo (ninguém é de ferro!), mas você fez o suficiente para blindar-se mentalmente contra danos maiores. Ao fim do expediente, como resultado, você foi capaz de cumprir com as tarefas diárias, além de ter tratado com civilidade e justiça as pessoas que lhe produziram perturbações.

Epicteto descreveria a coisa assim: por ter sabido de que qualidade eram as ações que você havia de empreender, você foi capaz de levá-las a termo e manter sua faculdade de escolha moral (prohaíresis) em conformidade com a natureza. Já Marco Aurélio, deste modo: por ter partido da noção de que o agir mal se dá por ignorância do bem e reconhecido que a natureza humana impõe a colaboração entre semelhantes, você conseguiu deixar de lado os incômodos causados por certas personalidades e centrar seus esforços na consecução de uma ação útil para os demais e na manutenção de um estado de espírito sereno (porque seguro de que nada que viesse de outrem poderia desfazer uma resolução assentada no bem). Incidentalmente, observemos que quem se exercita assim com frequência passa a prestar muito mais atenção às próprias falhas, sobre as quais é possível agir, que às dos outros, que estão fora de seu próprio alcance. A autocrítica se torna mais importante que a crítica a outrem.

Existem casos, entretanto, em que os obstáculos são de tal ordem que chegam a modificar os planos que fizemos. São as contrariedades de nível médio, aqui chamadas grandes inconvenientes. Coisas dificilmente antecipáveis, que constituem um desafio maior para nós. Também aí as interpretações de Epicteto e de Marco Aurélio têm relevância.

Suponhamos a situação seguinte: você celebrará o aniversário de sua filha pequena em casa. Algumas semanas antes, tomou todas as providências necessárias: enviou os convites, encomendou as comidas e bebidas, comprou balões, alugou um kit de decoração com motivos infantis etc. Na véspera, repassa na mente tudo o que terá de fazer no dia seguinte, que é crucial: muitas coisas precisam ser buscadas de carro e alguns parentes dependerão de sua carona para chegar à sua casa. No dia da festa, eis que você se defronta com um veículo estacionado ante sua garagem, em plena guia rebaixada, impedindo a sua saída. Você inquire os vizinhos e se dá conta de que ninguém conhece o proprietário do veículo importuno. Espera mais uns quarenta minutos, e nada: parece que o carro ficará ali mesmo. Você tem de agir logo, ou a festa não acontecerá. Em sua mente, começam a aparecer sugestões ou solicitações para a ação — os impulsos ou hormâi — e um turbilhão de imprecações e xingamentos. As alternativas de ação imaginadas são estas: (a) arranjar alguns litros de gasolina e atear fogo ao veículo; (b) empunhar uma barra de ferro e quebrar-lhe os vidros todos; (c) esvaziar alguns de seus pneus; (d) ligar para a autoridade municipal de trânsito e solicitar um serviço de guincho; (e) deixar um bilhete firme mas cortês à pessoa que fez o estacionamento proibido ou falar diretamente com ela, nos mesmos termos. Os itens (a), (b) e (c) não são condizentes com a conduta que alguém que leve Epicteto e Marco Aurélio a sério; no mínimo, não eliminam o obstáculo, além de serem péssimos exemplos para sua filha. Restam (d) e (e). Entrar em contato com a autoridade responsável pela remoção de veículos estacionados em local proibido é perfeitamente estoico, desde que seja uma ação feita com serenidade, e não uma vendeta pessoal. Ainda assim, é possível que o guincho demore demais ou então, coisa frequente em boa parte do Brasil, ninguém se importe com a sua solicitação. Neste último caso, você ficou com a alternativa (e) — entrementes, teve de mudar os planos, telefonar para fornecedores, usar carros de praça para buscar as coisas, mas acabou dando um jeito em tudo.

E por que dirigir-se com firmeza e cortesia à pessoa, e não desvairar-se ou dizer a ela “umas verdades”? Ora, porque o que há de mais importante é, segundo Epicteto, manter sua faculdade de escolha moral naquela serenidade que é a marca do conformar-se com a natureza; as pessoas fazem dessas coisas, e a irritação só nos azedará o dia e nos levará a agir pior. E porque, de acordo com Marco Aurélio, quem sabe distinguir entre o bem e o mal e reconhece em si o dever de agir com justiça mesmo com pessoas importunas, entende que as contrariedades só nos desequilibram se permitirmos que elas assim o façam; se não foi por descuido, o motorista que obstruiu sua garagem agiu em ignorância do bem verdadeiro, que é zelar pela melhor convivência entre todos. Para os estoicos, a ação desagradável ou má é problema de quem a comete. Quanto a nós, saibamos manter uma resolução firme e agir com a excelência (ou virtude) apropriada para cada caso. “Mas eu gastei dinheiro por causa da atitude estúpida desse indivíduo!”, dirá alguém. Você tem de decidir o que valoriza mais: o dinheiro ou uma disposição de espírito virtuosa e tranquila. “Falei com educação e segurança ao fulano, mas ele me respondeu com insultos e rudeza!”, dirá um outro. E desde quando você tem controle sobre as ações dos outros? Já não lhe basta o contentamento com sua própria conduta? “O que me parece é que esse estoicismo quer ensinar as pessoas a agir de maneira bovina!”, dirá um terceiro. Bem, isso é um jeito de ver as coisas pelo pior lado; ainda assim, vamos dizer que os modos bovinos são melhores que os bufalinos.

Em uma das Diatribes registradas por Flávio Arriano, Epicteto dialoga com um interlocutor, real ou imaginário, comparando as belas coisas da vida ao espetáculo oferecido pelas obras do escultor Fídias (ca. 480-430 a.C.) na cidade de Olímpia. O trecho é particularmente instrutivo porque nos mostra que, quando temos um propósito bem definido que nos parece superior, somos capazes de suportar uma série de contrariedades:

— Mas acontecem coisas desagradáveis e penosas na vida.

— E em Olímpia não acontecem coisas assim? Você não sufoca de calor ali? Não fica espremido no meio da multidão? Não toma banhos em condições incômodas? Não fica ensopado quando chove? Não tem o seu quinhão de tumulto, de ruído e de outras perturbações? São todas coisas importunas que, suponho, em face do valor do espetáculo, você aceita e suporta. Ora bem, você não recebeu faculdades que lhe tornam possível suportar tudo o que aconteça? Não recebeu a magnanimidade? Não recebeu a coragem? Não recebeu a perseverança? E que me pode importar, a mim, que sou magnânimo, tudo quanto possa sobrevir? O que me perturbará, ou me incomodará, ou me parecerá doloroso? Falharei em minha tarefa de usar a faculdade que recebi exatamente para essa finalidade e ficarei gemendo e me lamentando por causa das coisas que ocorrem? (Diatribes, I, 6: 26-29)

Resta a terceira e última sorte de contrariedades, a que demos o nome de infortúnios. Trata-se de acontecimentos de grande impacto na vida de quem os sofre, visto que envolvem perdas significativas: a doença, a pobreza, a prisão, a morte. A filosofia estoica também tem muito a oferecer como consolação e encorajamento nesses casos em que o indivíduo parece desertado pela Fortuna, mas tais remédios não são o assunto deste comentário. Ressaltemos, ainda assim, a necessidade de preparação do espírito para grandes reveses e calamidades, que podem ocorrer porque fazem parte do jogo da vida, mesmo quando causados por outras pessoas. Devemos ter em mente, por exemplo, que é mais ou menos plausível estarmos na posição de vítima ou na de conhecido de uma vítima de um crime grave: afinal, vivemos em um país com quase 60.000 homicídios anuais. Ou refletir na possibilidade de sermos traídos ou abandonados pelas pessoas que amamos: em 2014, houve no Brasil algo como 341 mil divórcios. Ou ainda meditar no fato de que ninguém está livre de um tumor maligno, que muita vez acomete indivíduos até então perfeitamente saudáveis: segundo a OMS, mais de 8 milhões de pessoas morrem de câncer anualmente.

Você não pode controlar nenhuma dessas coisas, mas tem dentro de si tudo o que é preciso para lidar com elas. Como o Dâmocles do mito, pende sobre a cabeça de cada um de nós uma espada (ou várias delas), suspensa por um fio finíssimo que a uma simples aragem pode partir-se. É possível optar por não olhar para o teto, mas a ameaça está ali, indiferente à sua inconsciência fingida. Também é possível compreender o mundo em que nos movemos: é a aposta dos estoicos. Por meio da premeditação de males futuros e da atenção às próprias ações, começamos com a tolerância face às perturbações diárias, passamos a vigiar nossa conduta quando estamos defronte dos grandes inconvenientes e atingimos enfim a possibilidade de suportar infortúnios, comprometidos que estaremos com a tranquilidade e a virtude, combatendo o que possa haver de rebelde em nosso interior.

Para terminar, façamos nossas estas palavras de Sêneca, assim se exprimindo diante de um Lucílio que se desfazia em queixas por causa de escravos fugitivos:

Nada disto se pode considerar um acontecimento insólito e inesperado. Sentir-se lesado por um caso destes é tão ridículo como lamentar-se por ser salpicado no balneário, empurrado no meio da multidão ou sujo por um bocado de lama. A condição da vida humana assemelha-se à passagem por um balneário, uma multidão ou uma estrada: certos contratempos serão provocados, outros casuais. Não é coisa fácil, a existência. Iniciaste uma longa jornada: hás de escorregar, de tropeçar, de cair, de te fatigar, de chamar (sem sinceridade!) pela morte! Aqui terás de abandonar o teu companheiro, além de levá-lo à sepultura, acolá de te precaveres contra ele. É através destas contrariedades que avaliaremos até que ponto é pedregoso este caminho da vida. (Cartas a Lucílio, CVII, 2)

Você vive? Tem certeza mesmo de que vive? Prepare-se então para a lama.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s