A “visão do alto”, um exemplo de meditação estoica

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As Plêiades, conjunto estelar na constelação de Touro, a cerca de 440 anos-luz da Terra (fonte da foto)

 

A filosofia antiga fazia uso de práticas de condicionamento mental tão refinadas quanto variadas. Os escritos que chegaram até nós trazem muitas marcas dessa maneira de conceber o caminho para a sabedoria, embora nos faltem instruções mais precisas do modo como tais exercícios eram levados a termo pelos filósofos. Graças ao trabalho de Pierre Hadot (1922-2010), contudo, parte dessa dificuldade foi sanada, e já é possível reconstituir em linhas gerais alguns dos exercícios espirituais dos antigos.

Certas anotações de Marco Aurélio em seu “diário filosófico” (as Meditações) consistem em uma exortação íntima a imaginar as coisas humanas e terrestres a partir de uma perspectiva longínqua: o imperador-filósofo entregava-se à tarefa de visualizar tudo quanto existe colocando-se para fora do tempo e do espaço por alguns minutos. Por meio do contraste entre a pequenez dos problemas, ambições, desejos e medos que Marco Aurélio reconhecia em si e em seus semelhantes e a vastidão do cosmos e da eternidade, cultivava-se a tranquilidade estoica:

Você pode eliminar muitas das coisas supérfluas que o incomodam, as quais residem unicamente em seu julgamento. E imediatamente abrirá para si um espaço grande e vasto, abarcando com o pensamento o universo inteiro, contemplando a eternidade do tempo e refletindo sobre a mudança rápida das coisas enquanto partes: quão breve o lapso do nascimento à dissolução, quão vasto o abismo do tempo antes do seu nascimento, quão igualmente infinito é o que há depois da sua dissolução. (Meditações, IX, 32)

Uma variação do mesmo exercício concentrando-se na diversidade e na mudança do mundo humano:

Enfim, quando se está falando da humanidade, veja as coisas terrestres como se as estivesse observando a partir de um ponto de grande altitude — rebanhos, exércitos, trabalhos do campo, casamentos, divórcios, nascimentos, mortes, escândalos dos tribunais, regiões desertas, povos estrangeiros variados, festas, lamentações, mercados; toda essa mistura do mundo e a ordem que nasce dos contrários. (idem, VII, 48)

Pierre Hadot comenta n’A cidadela interior, livro que examina detidamente a filosofia de Marco Aurélio, em um capítulo dedicado àquilo a que chamou “disciplina do desejo”:

Esse esforço por olhar do alto permite, portanto, a contemplação do panorama total da realidade humana sob todos os seus aspectos sociais, geográficos, sentimentais, e a sua recolocação na imensidão cósmica e no formiguejar anônimo da espécie humana sobre a Terra. Vistas a partir da perspectiva da Natureza universal, as coisas que não dependem de nós, as coisas a que os estoicos chamam indiferentes — a saúde, a glória, a riqueza, a morte — são restituídas a suas proporções verdadeiras.

É essa espécie de vertigem didática o que a “visão do alto” ou “visão em sobrevoo” (traduções possíveis para regard d’en haut) quer propiciar. A possibilidade de expandir a alma/mente é o exercício que prepara o ser humano para uma das excelências (ou virtudes) que lhe são próprias: a magnanimidade. Sêneca chama a atenção de Lucílio para a urgência de um tipo de reflexão que fortifique a alma, fruto de uma prática inteligente, em detrimento do exame de minúcias lógico-dialéticas:

Todas estas discussões não passam de jogos de eruditos brincando às escondidas! Afirma, antes, que é próprio da natureza do homem alargar o seu pensamento a todo o universo. A alma humana é qualquer coisa de grande e de nobre, e não admite que se lhe imponham outros limites senão os que lhe são comuns com a própria divindade. Desde logo, a alma não se contenta com uma pátria diminuta, seja Éfeso, seja Alexandria, seja qualquer outra cidade de ainda maior população ou mais esplendorosos edifícios. Para a alma, “pátria” são todos os espaços abarcados pelo universo, é toda esta esfera dentro da qual se encontram os mares e as terras, dentro da qual o ar separa e une ao mesmo tempo o divino e o humano, e na qual inúmeras forças divinas em perfeita ordenação cumprem atentamente as respectivas funções. Para além disso, a alma também não se confina a um exíguo período de tempo. “Todas as eras” — diz ela — “me pertencem. Século nenhum permanece fechado aos espíritos superiores, tempo nenhum se mostra inacessível ao pensamento”. (Cartas a Lucílio, CII, 20-22; trad. J. A. Segurado e Campos)

Sejamos um tanto cuidadosos com a expressão “espírito superior”, todavia. Por tudo o que ficou dito aqui, resulta evidente que superior é apenas aquele que se sabe idêntico a todos em sua condição mortal, não buscando meios de escamotear tal constatação de si mesmo. A rigor, a expressão só quadraria bem ao sábio, essa figura meio mítica que faz coincidir, a todo momento, o seu modo de pensar com as exigências da natureza. Estamos longe de ser assim — e é por isso que devemos nos exercitar interiormente, seguindo a trilha deixada pelos estoicos.

LUCIANO E A COMÉDIA HUMANA

Um dos diálogos em que o escritor Luciano de Samósata (ca. 125-180) ridiculariza as noções filosóficas de seu tempo passou para a história com o título Icaromenipo ou Uma viagem aérea. Ali, o sátiro e filósofo cínico Menipo (séc. III a.C.) — um de seus personagens críticos prediletos — conta a um amigo como, partindo do Monte Olimpo, empreendeu uma expedição até a morada dos deuses, seguindo o exemplo de Ícaro. Dotando-se da asa de uma águia à direita e de uma de abutre à esquerda, ele voou pelos céus por alguns dias, fazendo da Lua a sua primeira parada. A referência a essas duas aves não é fortuita pois tem a ver com a caracterização de um Menipo exemplarmente humano: uma criatura voltada tanto ao que é nobre e alto (próprio da águia) como ao que é vil e baixo (próprio do abutre).

Na Lua, sem conseguir discernir nada de reconhecível a tamanha altura, o viajante alado vê o espectro de Empédocles (ca. 490-430 a.C.), que morava ali desde que fora lançado para fora do globo pelo vulcão Etna. O filósofo de Agrigento ensina a ele que, para conquistar uma visão como a das águias, bastava-lhe bater algumas vezes a asa direita. E eis o que Menipo relata a seu amigo a partir daquele ponto:

Mal bati a asa, um raio de luz inundante me circundou, e todos os objetos até então ocultos tornaram-se bastante claros. Foi então que, olhando na direção da Terra, discerni perfeitamente as cidades, os homens e aquilo que faziam. Não somente vi o que se passava a céu aberto, como também aquilo que se praticava dentro das casas onde cada um se cria abrigado do olhar alheio: Ptolomeu [Filadelfo] dormindo com a irmã; o filho de Lisímaco conspirando contra o pai; Antíoco, filho de Seleuco, falando por sinais secretos com sua madrasta Estratonice; o tessálio Alexandre sendo assassinado pela mulher; Antígono corrompendo a nora; o filho de Átalo pondo veneno na taça do pai. Em outro ponto, vi Ársaces [da Pártia] apunhalando uma amante, e o eunuco Arbaces empunhando a espada contra Ársaces; guardas arrastando o medo Espartino pelos pés para fora de um banquete, tendo este na têmpera o vergão de um golpe de seu cálice de ouro. Cenas semelhantes passavam-se nos palácios da Líbia, da Cítia e da Trácia — adultérios, assassinatos, emboscadas, rapinas, perjúrios, suspeitas e traições entre parentes.

Eis o entretenimento que a realeza me ofereceu, mas a conduta dos particulares era ainda mais risível. Observando-os por sua vez vi o epicurista Hermodoro cometendo perjúrio por mil dracmas; o estoico Agátocles processando um dos alunos por causa do pagamento por suas aulas; o retor Clínias furtando um cálice no templo de Asclépio; e o cínico Herófilo dormindo em lugar mal-afamado. Isso sem mencionar os que arrombavam portas, os que faziam chicanas, os que emprestavam com usura, os que cobravam dívidas insistentemente. Ampla comédia de cem atos, tendo por cenário o universo! (Icaromenipo, 15-16)

E, queixando-se ao amigo que todas essas coisas se davam de modo simultâneo e desordenado e ouvindo dele que se tratava de uma confusão ridícula, continuou:

Pois bem, meu caro amigo, todos os habitantes da Terra são coristas dessa espécie, e a vida do ser humano é composta de semelhante cacofonia: não apenas suas vozes não se coadunam, mas eles diferem em passos e figurinos, movem-se em sentidos contrários, não têm as mesmas ideias — até que o mestre de coro expulsa-os de cena, um de cada vez, dizendo-lhes que já não tem necessidade deles. A partir de então, eles se tornam todos semelhantes, guardam silêncio, deixando de cantar sua ária destoante e confusa. Porém, enquanto a exibição durou, com sua diversidade maravilhosa, tudo o que se passava ante meus olhos era realmente risível.

Mas o que me dava mais ganas de rir que o resto era ver os que se desentendem por causa dos limites de um país, que se vangloriam de cultivar a planície de Sicião, de ter posses na planície de Maratona, na parte vizinha de Enoe, ou de possuir mil acres no demos de Acarne. Toda a Grécia, como eu a via então, não me pareceu ter mais do que quatro dedos, e a Ática não era, em proporção, mais que um ponto imperceptível. Isso me levou a refletir sobre o pouco de terreno que restava aos ricos para alimentarem o seu orgulho. Com efeito, o que possui mais dinheiro dentre eles, segundo me pareceu, era o cultivador orgulhoso de um átomo de Epicuro. Em seguida, mirei os olhos no Peloponeso e, considerando o território da Cinúria, lembrei-me de que, por aquele mísero cantinho, não maior que uma lentilha do Egito, tantos argivos e lacedemônios tinham caído mortos em um único dia. Enfim, quando eu via algum homem enfatuado com os seus oito anéis e quatro cálices de ouro, ria a bandeiras despregadas, dado que o Pangeu inteiro, com suas minas, não era maior que um grão de painço. (idem, 17-18)

A “visão do alto” criada por Luciano tem finalidade claramente crítica e satírica: de seu pouso lunar, Menipo não vê diferença entre as intrigas palacianas, as hipocrisias dos filósofos e as vaidades dos proprietários. Tudo faz parte da mesma loucura humana, risível e que se apresenta como um coro de comédia sem harmonia nem coerência. A crítica que Luciano move contra os membros das escolas filosóficas de sua época — acadêmicos, peripatéticos, cínicos, céticos, epicuristas e estoicos — é em certo grau procedente: os filósofos que fustiga em seus diálogos não vivem de acordo com os preceitos que ensinam, fazem uso de vocabulário rebuscado e balofo e escondem seus vícios da opinião pública (a crer nele, eram especialmente indolentes e apegados ao dinheiro).

Em Icaromenipo, o sátiro, antes de empreender a viagem aérea, procura filósofos de diversas orientações com a esperança de que fossem capazes de explicar-lhe o que era o universo. Ao sentir-se desorientado com as teorias que escutava, que se baseavam em absurdos e se contradiziam umas às outras, Menipo decide ir ver as coisas como eram de fato no ponto mais alto que julgava existir, o palácio dos deuses: “eu me dei conta de que o único remédio existente para minhas dúvidas era acoplar asas em mim e voar eu mesmo até o céu” (ibidem, 10). Entende-se, pois, que o ataque à filosofia é apenas aparente: Luciano não se opõe ao esclarecimento verdadeiro do ser humano por meio da razão, mas sim à má filosofia — sectária, incompreensível, fundada em aparências, descolada da experiência cotidiana. A crítica à filosofia é também um modo de fazer filosofia. No final das contas, o que Menipo faz no diálogo — ir ver as coisas por si próprio — é a atitude filosófica fundamental, tornando supérflua toda a discurseira de seus mestres. Essa atitude encerra algo de alto e divino (a asa de águia, ave-símbolo de Zeus), mas mantém algo de baixo e animal (a asa de abutre, ave-símbolo de Ares, deus da violência): precisamos do alto para ver o baixo. Batamos de vez em quando nossa asa direita para ver as coisas de cima e compreendamos nossa posição no mundo.

Em outra de suas obras breves, Caronte, Luciano oferece ao leitor mais uma “visão do alto”. Curioso de saber como era a vida humana, o barqueiro do Hades que dá título ao diálogo procura o auxílio de Hermes. Caronte conhecia bem os mortos, habituado que estava a levar as sombras (ou almas) desencarnadas em sua barca, na travessia do rio Aqueronte; desejava saber, porém, por que elas sentiam tantas saudades da vida e do que nela haviam deixado. Depois de empilharem quatro grandes montanhas (Ossa, Pélion, Eta e Parnaso) e “calibrarem” a visão para distância tão longa, a contemplação se inicia. Eis um trecho do diálogo entre o deus olímpico e o deus ctônico (note que, também aqui, está presente a oposição entre o alto e o baixo no par Hermes-Caronte):

HERMES: Mas você está vendo, Caronte, essa multidão de pessoas a navegar, a guerrear, a fazer demandas, a lavrar a terra, a emprestar a juros ou a mendigar?

CARONTE: Sim, vejo um magote considerável, uma vida cheia de movimento e tumulto, cidades semelhantes a colmeias, nas quais cada um tem o seu ferrão e pica o vizinho. Alguns são verdadeiras vespas: pilham e extorquem os mais fracos. Mas o que são essas formas enevoadas que giram secretamente à roda deles todos?

HERMES: São a Esperança, o Medo, a Loucura, a Volúpia, a Avareza, a Cólera, o Ódio e todo o resto. Abaixo está a Loucura, que, como criatura doméstica, vive com os homens, onde ela tem direito de hospedagem, estando acompanhada do Ódio, da Cólera, da Inveja, da Cobiça, do “Não-sei-nada” e do “Que-então-fazer?”. Acima, esvoaçam o Medo e a Esperança. Aquele ora se diverte com alarmar uma pessoa até que perca o juízo, ora a atemoriza com aplicação. Esta, planando por cima das cabeças dos homens, alça voo quando eles se creem a pique de alcançar o bem prometido e os deixa de boca aberta — como Tântalo, o qual você vê no Hades, enganado pelas águas. Se levar o olhar para mais longe, você distinguirá as Moiras fiando o destino próprio de cada um. Está vendo como todos estão suspensos por uma trama tênue, assim como uma aranha se prende a sua teia?

CARONTE: Sim, vejo um fio muito fino ligado a cada ser humano e muitos desses fios entrelaçados uns aos outros. (Caronte, 15-16)

Sabemos que Luciano não poupa os estoicos de sua sátira mordaz, mas ele o faz por conceber a filosofia em senso verdadeiramente nobre. Ainda assim, quem não verá que é como filósofo estoico que Hermes se pronuncia a respeito do espetáculo que a vida humana lhe oferece a partir de seu ponto de vista privilegiado?

Se, desde o princípio, os homens refletissem no fato de que são mortais, de que, após terem passado uma temporada na vida, eles têm de sair dela como se sai de um sonho e deixar tudo nesta Terra, eles viveriam de modo mais sábio e morreriam com menos remorsos. Tal como é agora, visto que eles esperam desfrutar eternamente de tudo o que possuem, quando o meirinho da Morte os chama ou os conduz por uma febre ou doença pulmonar, eles se enfurecem ao se verem privados da vida inesperadamente. (idem, 17)

E quanto a este símile de Caronte, que conhece os mortos tão de perto, e que contempla, bem pouco impressionado, os vivos pela primeira vez?

Também devo dizer-lhe, Hermes, a que eu comparo os homens e sua vida como um todo? Você decerto já viu as gotas d’água que a queda de uma torrente produz, quero dizer, as bolhas que surgem sobre a superfície aquática e se aninham na espuma. Algumas são muito pequenas e estouram rapidamente, outras duram mais; novas bolhas vêm juntar-se a elas, as quais se inflam além da medida, mas logo elas se rompem por si mesmas e não podem escapar à sua sorte. Tal é a vida dos homens: todos inflados, grandes e pequenos, por um sopro misterioso. Alguns estão destinados a durar por algum tempo, outros perecem no momento mesmo em que surgem: todos, por fim, estouram inevitavelmente. (ibidem, 19)

UMA “VISÃO DO ALTO” EM MACHADO DE ASSIS

Em Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis (1839-1908) faz o protagonista de seu romance de 1881 contar-nos um delírio que tivera pouco antes de vir a óbito. Apesar de cercar o episódio de ares de pouco-caso, como se se tratasse de um capítulo que o leitor poderia “pular”, o relato tem grande relevância quando se considera a obra como um todo. Doente e acamado, Brás Cubas começa a sentir que sofre metamorfoses, até que um hipopótamo se lhe oferece como cavalgadura. Montado no paquiderme, ele é levado por um caminho que se torna cada vez mais pobre em paisagens, passando a totalmente branco nos últimos lances. Ele chega, pois, “à origem dos séculos”, ponto em que terá contato com uma criatura terrível, uma mulher imensa, de aspecto selvagem. É a Natureza (ou Pandora), cuja feição era “a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel” — visão bastante pessimista do mundo natural, em conformidade com a concepção que dele tinham outros grandes expoentes do pensamento oitocentista, como Giacomo Leopardi (1798-1837) e Arthur Schopenhauer (1788-1860). A Natureza ri-se cruelmente de Brás Cubas, dizendo-lhe que a sua pequena vida era um mal, e um mal que ele imploraria por conservar. É aí que principia um trecho que nos deve parecer familiar:

Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma cousa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das cousas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, — flagelos e delícias, — desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das cousas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, — nada menos que a quimera da felicidade, — ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão. (Memórias póstumas de Brás Cubas, Cap. VII – “O Delírio”)

No excerto acima, é clara a influência de Luciano de Samósata, embora Machado de Assis pareça querer suscitar nos leitores mais uma sorte de desnorteamento enfastiado do que propriamente o contágio das gargalhadas do Menipo alado. Ademais, não temos de aceitar acriticamente o pessimismo encarnado por Brás Cubas, o qual “redige” a sua narrativa póstuma com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Afinal de contas, trata-se de um personagem que fracassou totalmente na vida, nada conseguiu construir e sempre agiu levianamente. Memórias póstumas de Brás Cubas é uma sátira: um verdadeiro manual para os que desejam ter a existência mais insignificante possível.

Nós, ao contrário, estamos interessados em um bem maior, a virtude, e sinceramente não acreditamos que alguém se torne mais profundo ou inteligente apenas por abrigar dentro de si algo como o tédio ou o desespero. Isso é coisa que se deve deixar aos mais inexperientes dos adolescentes — os adolescentes morais. Pois apenas alguém que acredita que viverá por tempo indeterminado pode pensar que é desejável desperdiçar os seus dias finitos sentindo-se miserável.

Desafiada por Brás Cubas, a Natureza ainda obrigou-o a observar mais um pouco:

A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às gerações, umas tristes, como os hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Cômodo, e todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma força misteriosa me retinha os pés; então disse comigo: — “Bem, os séculos vão passando, chegará o meu, e passará também, até o último, que me dará a decifração da eternidade”. E fixei os olhos, e continuei a ver as idades, que vinham chegando e passando, já então tranquilo e resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de ideias novas, de novas ilusões; em cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, fazia-se a história e a civilização, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o palácio, a rude aldeia e Tebas de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte, que enleva, fazia-se orador, mecânico, filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da Terra, subia à esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás deles os futuros. (idem)

Deixando-se de lado certos efeitos paralisantes do pessimismo excessivo, as passagens de Brás Cubas transcritas acima podem alimentar muitas de nossas reflexões por apresentarem o fervilhar da vida humana como um espetáculo monótono (e não raro deprimente), com a felicidade sempre a fugir das mãos do homem. Devemos nos ver como parte dessa azáfama, parte dessa precariedade, parte dessa repetição, parte dessa mescla de esplendor fugaz e miséria renitente, parte dessa luta pela sobrevivência quase sempre cruel. É o império das paixões, do qual apenas com muito esforço e a espaços nos subtraímos — e a filosofia estoica pode nos propiciar alguns desses momentos.

A “visão do alto” pode incluir a imaginação do que sucedeu em gerações passadas (cf. Meditações, Livro X, 27), prática que pode constituir também um exercício em separado (cf. Meditações, VII, 49; VIII, 25, 31). Compare-se, por exemplo, o que lemos do delírio de Brás Cubas — uma alucinação cheia de lucidez — com este belo exercício espiritual que Marco Aurélio propõe a si mesmo:

Pense, como ilustração para si, nos tempos de Vespasiano, e você verá estas coisas: a humanidade casando-se, criando filhos, adoecendo, morrendo, guerreando, festejando, comerciando, lavrando a terra, adulando os outros, vangloriando-se, suspeitando, conspirando, implorando a morte de alguns, murmurando contra o presente, amando, entesourando, cobiçando consulados, cobiçando monarquias. Nem sequer um vestígio daquela vida deles remanesce em nenhum lugar.

Mude a cena uma vez mais para os tempos de Trajano. De novo, todas as mesmas coisas: morreu também aquela vida. De maneira igual, contemple e observe os demais registros do passado e de povos inteiros, e veja quantos, extenuados por esforços, em pouco tempo tombaram e dissolveram-se nos átomos. E sobretudo você deve voltar o pensamento para aqueles que conheceu pessoalmente, os quais, perdendo-se em vaidades, deixaram de fazer o que é conforme com sua própria constituição, de manter-se inseparáveis dela e de contentar-se com isso.

É necessário ter presente também que a atenção adequada a cada ação tem seu próprio senso de valor e proporção. Pois assim você nunca se abandonará ao desgosto, a não ser que se ocupe mais tempo do que convém com assuntos de pouca importância. (Meditações, IV, 32)

Por fim, para que a observação do espetáculo da vida humana não se torne uma razão para nos desesperarmos da espécie ou nos sentirmos injustificadamente superiores, é bom prestar atenção a esta advertência de Sêneca:

Para formar juízos de valor sobre as grandes questões, há que ter uma grande alma, pois de outro modo atribuiremos às coisas um defeito que é apenas nosso, tal como objetos perfeitamente direitos nos parecem tortos e partidos ao meio quando os vemos metidos dentro d’água. O que interessa não é o que vemos, mas o modo como vemos; e no geral o espírito humano mostra-se cego para a verdade. (Cartas a Lucílio, LXXII, 24)

Quando você for confrontado com a triste encenação das mesmíssimas paixões humanas de há séculos, pergunte-se: sou alheio a esta realidade? O que há em mim para resistir a ela é forte o bastante? É razoável desgostar dos seres humanos pelo que sempre foi o seu comportamento mais comum?

Ao passar em revista a vida da humanidade, com seus erros múltiplos mas repetidos, tenha em mente indagações como estas.

CARL SAGAN E O “PÁLIDO PONTO AZUL”

Muitos estoicos se interessaram pelas questões celestes: Posidônio de Apameia (ca. 135-51 a.C.) fez um cálculo bastante preciso da circunferência da Terra, Sêneca estudou fenômenos meteorológicos como os relâmpagos. De modo geral, os filósofos dessa escola sempre acreditaram que o cosmos fosse uma totalidade racionalmente ordenada e dotada de algo como uma consciência ou alma. Quando diziam “Universo”, “Natureza” ou “Deus”, o que exprimiam era a mesma noção. Alguns chegaram a supor que a cintilação das estrelas que se avistam da Terra pudesse ser um indício de que elas, de certo modo, simpatizavam conosco a partir de suas moradas longínquas.

Os filósofos e cientistas da Antiguidade não tinham os instrumentos nem os conhecimentos de que dispõem os astrônomos e astrofísicos de hoje; ninguém precisa, por isso, pôr-se de acordo com os antigos em certas crenças que não têm lastro na ciência moderna. Ainda assim, podemos nos beneficiar da prática de expandir a mente (ou alma) até os confins do universo, até o fim e o início do espaço e do tempo, e detendo-nos alguns momentos nessa perspectiva, reavaliar nossos problemas, reconsiderar certos aspectos de nossa conduta, tendo uma noção mais precisa do tamanho e da importância que de fato temos.

Algo semelhante foi proposto pelo astrônomo norte-americano Carl Sagan (1934-1996), o qual, talvez sem o saber expressamente, deu feições contemporâneas ao exercício filosófico da “visão do alto”, praticado por Marco Aurélio e outros estoicos.

Em 14 de fevereiro de 1990, a pedido de Sagan, a sonda espacial Voyager 1, antes da desativação de seu sistema de câmeras, fez uma última série de fotografias da posição onde estava, nos limites do sistema solar, a cerca de 6 bilhões de quilômetros de nosso planeta. Uma das imagens, que focalizava a Terra iluminada por um feixe de luz solar e ficou conhecida como “pálido ponto azul”, serviu de inspiração para certas meditações de Sagan sobre o significado do estudo e da exploração espacial para os seres humanos.

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A Terra, iluminada por um facho de luz solar: um ponto azul-claro minúsculo (fonte da foto)

Desta perspectiva distante, a Terra pode parecer destituída de interesse. Mas para nós é diferente. Observe novamente este ponto. É aqui. Nosso lar. Nós. Nele, todas as pessoas que você ama, todas as que conhece, todas aquelas de que já ouviu falar, todos os seres humanos que já existiram, viveram suas vidas. Nosso amálgama de alegria e sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas cheias de confiança, todo caçador e todo forrageiro, todo herói e todo covarde, todo criador e todo destruidor da civilização, todo rei e todo servo, todo jovem casal apaixonado, toda mãe e todo pai, cada criança esperançosa, inventor ou explorador, todo professor de moral, todo político corrupto, toda “superestrela”, todo “líder supremo”, todos os santos e todos os pecadores da história de nossa espécie viveram aí — em um grão de poeira suspenso em uma réstia de luz solar.

A Terra é um palco pequeníssimo em uma vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores a fim de que, em glória e triunfo, pudessem tornar-se os senhores momentâneos da fração de um ponto. Pense nas crueldades intermináveis perpetradas pelos habitantes de um dos cantos desse pixel sobre os habitantes (praticamente idênticos) de algum outro canto, quão frequentes são entre eles as discórdias, quão ávidos estão eles para se matarem uns aos outros, quão ardentes são os seus ódios.

Nossas poses, a importância imaginária que nos emprestamos, a ilusão de que temos alguma sorte de posição privilegiada no universo, são desafiadas por esse ponto de luz pálida. Nosso planeta é uma mancha solitária na grandiosa escuridão cósmica que nos circunda. Em nossa obscuridade, em toda esta imensidão, não há indício nenhum de que, a partir de qualquer outro lugar, virá ajuda para salvar-nos de nós mesmos.

Até agora, a Terra é o único mundo conhecido capaz de abrigar vida. Não há nenhum outro lugar, ao menos no futuro próximo, para o qual nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Instalar-se, ainda não. Goste-se ou não, neste momento a Terra é onde fazemos pousada.

Já se disse que a astronomia é uma experiência de humildade e formadora do caráter. Não existe, talvez, demonstração mais clara da loucura das presunções humanas do que esta imagem distante de nosso pequenino planeta. Para mim, ela ressalta nossa responsabilidade de lidar uns com os outros de maneira mais gentil e de preservar e estimar o pálido ponto azul, o único lar que jamais conhecemos. (Carl Sagan, Pálido ponto azul: uma visão do futuro humano no espaço)

Aqui, Carl Sagan falando da mesma fotografia:

 

ALGUNS VÍDEOS ÚTEIS

Os vídeos a seguir ilustram de forma breve e didática a questão das dimensões cósmicas (espaço e tempo), evidenciando quão impressionantemente grande, complexo e diverso é o universo que habitamos. O conteúdo que veiculam está em sintonia com a prática da “visão do alto”, fazendo-nos refletir sobre a pequenez e a transitoriedade de nossa condição, de um modo que não difere muito dos escritos de Marco Aurélio para si mesmo. A diferença, claro, é que eles se fundamentam em dados científicos a que o imperador de Roma jamais teve acesso.

(1) Uma viagem até os limites do universo conhecido, pondo em perspectiva nosso sistema planetário, nossa galáxia, nosso aglomerado de galáxias (o Grupo Local), nosso superaglomerado de galáxias (atualmente considera-se que o Grupo Local faz parte de um megaconjunto chamado Laniakea, mas durante muito tempo a referência foi o Superaglomerado de Virgem) e finalmente o cosmos como um todo. Em inglês simples, mas sem legendas.

 

(2) Narrado por Morgan Freeman, outro vídeo de temática semelhante: uma jornada pelo universo a partir da Praça de São Marcos, em Veneza. Em inglês, com legendas.

 

(3) Por fim, para embasar nosso senso de proporções, uma comparação visual de diversos corpos celestes, postos em escala e lado a lado. Em inglês, com legendas.

 

“VISÃO DO ALTO”: UM ROTEIRO DIÁRIO

Tudo o que ficou exposto acima pareceu-me relevante a quem esteja interessado em trazer a filosofia estoica para o seu cotidiano. É possível, contudo, prestar um auxílio um tanto mais concreto.

Abaixo, sugiro um roteiro de meditações composto de pelo menos dois excertos do corpus estoico para cada dia da semana. A ideia é ler as passagens com alguma periodicidade (se possível, todos os dias) pela manhã e ao cair da tarde, elevando o pensamento e procurando visualizar as coisas desde cima, a partir de uma perspectiva fora do tempo e do espaço. Busque um lugar tranquilo, uma posição confortável e uma disposição de espírito adequada. Releia as passagens quantas vezes julgar necessário. Converse consigo a respeito dos temas suscitados pelas meditações estoicas, relacionando os textos com sua experiência imediata. Desconfie de si mesmo se o exercício levar menos de cinco minutos.

Outra boa ideia seria registrar à mão os trechos propostos a seguir em uma caderneta, deixando-os assim sempre a seu alcance. No fim de tudo, cabe a você dar às reflexões aqui transcritas a reverberação interior que elas merecem. Leve os ensinamentos que elas encerram para o cotidiano, meditando constantemente em tais coisas.


Domingo

Manhã

Pense repetidas vezes na rapidez da passagem e do desaparecimento das coisas que existem e estão ocorrendo. Pois toda a substância é como um rio em fluir incessante; suas realizações estão em contínuas mudanças; suas causas, em infinitas alterações — e quase nada é estável, nem o presente, tão próximo, nem o abismo infinito do passado e do futuro, em que tudo desaparece. Como, portanto, não seria um louco o que se envaidece com essas coisas ou se desgarra ou se sente desgraçado, como se elas o tivessem perturbado durante muito tempo? (Marco Aurélio, Meditações, V, 23)

Tarde/Noite

Algumas coisas se apressam em chegar a ser, outras se apressam em deixar de ser, e parte do que é nascido já se extinguiu. Fluxos e alterações renovam incessantemente o cosmos, assim como a corrente ininterrupta do tempo faz sempre nova a eternidade. No meio deste rio, portanto, em que não há ponto de parada possível, como alguém pode depositar valor em tais objetos fugazes? É como se este alguém caísse de amores por um dos pardais que voam em derredor de nós — e em um instante ele já se foi de nossa vista. De fato, é esta a natureza de nossas vidas — tão transitória quanto a evaporação do sangue ou uma aspiração do ar. Não diferente de tomar uma vez o ar nos pulmões e devolvê-lo (coisa que fazemos a cada momento) é devolver todo o nosso poder de respirar o ar (adquirido no dia em que você nasceu, ontem ou um tanto antes) àquele cosmos do qual você o inalou pela primeira vez. (Marco Aurélio, Meditações, VI, 15)


Segunda-feira

Manhã

Contemple desde o alto os rebanhos infinitos, as milhares de cerimônias humanas, toda sorte de navegação no meio de borrascas e calmaria, e as vicissitudes das coisas que começam a ser, reúnem-se no ser, deixam de ser. Pense também nas vidas que outros viveram bem antes de você, nas que serão vividas depois de você, naquelas que agora são vividas entre os povos estrangeiros; e em quantos nem sequer ouviram o seu nome, em quantos tão logo o esquecerão, em quantos agora o exaltam, talvez, mas que rapidamente o cobrirão de censuras. Considere que nem a memória, nem a fama, nem qualquer outra coisa, merecem que você lhes dedique pensamentos. (Marco Aurélio, Meditações, IX, 30)

Tarde/Noite

Ásia, Europa: meros rincões do universo. Todo oceano, uma gota de água em meio ao universo; o Monte Ato, um montículo do universo. Todo o tempo presente, um ponto da eternidade. Todas as coisas são pequenas, cambiantes, prestes a desaparecer. Tudo procede daquela outra fonte, daquela razão que governa o universo, tanto por seu impulso primeiro quanto como sua consequência. Assim como as mandíbulas do leão, o veneno e toda coisa nociva, quais as espinhas ou a lama, são subprodutos daquilo que é nobre e belo. Não imagine, pois, que sejam coisas alheias àquilo a que você deve reverência; mas antes reflita sobre o que é a fonte de tudo. (Marco Aurélio, Meditações, VI, 36)


Terça-feira

Manhã

Constantemente reflita que todas as coisas que estão sucedendo agora já sucederam antes; reflita também que elas voltarão a acontecer, no futuro. Ponha diante dos olhos de sua mente dramas inteiros e as cenas com características semelhantes, tudo o que você conheceu por experiência própria ou pela história pregressa — por exemplo, a corte inteira de Adriano, a corte inteira de Antonino, a corte inteira de Felipe, Alexandre, Creso. Tudo o mesmo que agora: só o elenco diferente. (Marco Aurélio, Meditações, X, 27)

Tarde/Noite

Torne a olhar para o passado: todas as numerosas mudanças de dinastias. E você também consegue prever o futuro, pois ele será em tudo idêntico, incapaz de desviar-se do ritmo do presente. Daí resulta que, para estudar a vida humana, quarenta anos valem o mesmo que dez mil. O que mais você verá? (Marco Aurélio, Meditações, VII, 49)


Quarta-feira

Manhã

Pense constantemente em todo tipo de homens, de profissões várias e de todas as nações da Terra, que pereceram: e assim traga o seu pensamento até Filistião, Febo e Origanião (*). Passe agora às demais classes de humanos. Convém, enfim, que também nós nos mudemos para o lugar onde existem tantos oradores exímios, tantos filósofos veneráveis — Heráclito, Pitágoras, Sócrates — tantos heróis de antes, tantos comandantes e tiranos de depois. Some a estes Eudoxo, Hiparco, Arquimedes; adicione outros homens de intelecto penetrante, homens de grande visão, homens dedicados ao seu trabalho; adicione os nocivos, os crédulos e mesmo os sátiros que zombaram de sua vida mortal e efêmera, qual Menipo e tantos como ele. Pense de todos eles que há muito tempo estão mortos e enterrados. Em que, pois, isso é terrível para eles? Em que isso é terrível para aqueles cujos nomes se perderam? Neste mundo, há somente uma coisa de valor: passar a vida com a verdade e a justiça, sendo benévolo com os mentirosos e injustos. (Marco Aurélio, Meditações, VI, 47)

(*) Personagens desconhecidos para nós.

Tarde/Noite

Um rio, o das coisas que passam; uma corrente impetuosa, o tempo. Tão logo uma coisa se oferece à vista, ela é levada embora e outra vem até nós: esta também será levada embora, na sua vez. (Marco Aurélio, Meditações, IV, 43)

Através da substância universal, como em uma torrente veloz, passam todos os corpos, unidos com o todo em natureza e atividade, como nossas partes o são entre si. Quantos Crisipos, quantos Sócrates, quantos Epictetos o tempo já tragou! Este mesmo pensamento deve ocorrer-lhe a propósito de todo homem ou coisa, sejam quais forem. (Marco Aurélio, Meditações, VII, 19)


Quinta-feira

 

Manhã

Que parte minúscula do tempo infinito e insondável foi designada a cada um — e esta desaparece rapidamente na eternidade! Que parte ínfima da substância universal! — e da alma universal! Em que diminuto torrão da Terra você se arrasta! Meditando nestas coisas, não imagine nada importante senão agir como a sua natureza lhe indica e tolerar aquilo que a natureza universal lhe traz. (Marco Aurélio, Meditações, XII, 32)

Tarde/Noite

A velocidade do tempo é infinita, e só quando olhamos para o passado é que temos consciência disso. O tempo ilude quem se aplica ao momento presente, de tal modo é insensível a passagem de seu curso vertiginoso. Queres saber por quê? Porque todo o tempo passado se acumula num mesmo lugar; todo o passado é contemplado em bloco, forma uma totalidade; todo ele se precipita no mesmo abismo. De resto, não é possível delimitar grandes intervalos nesta nossa vida tão breve. A existência humana é um ponto, é menos que um ponto. Só por troça é que a natureza deu a tão diminuta existência a aparência de uma grande duração, dividindo-a em infância, em adolescência, em juventude, em período de transição da juventude à velhice, finalmente em velhice. Tantos períodos num tão exíguo espaço de tempo! (…) Por isso mesmo me causa indignação ver como as pessoas gastam em futilidades a maior parte de uma vida que, mesmo dispendida com a maior parcimônia, não seria bastante para as coisas essenciais. (Sêneca, Cartas a Lucílio, XLIX, 2-5)


Sexta-feira

Manhã

Tudo o que você vê será em um instante alterado pela natureza que governa o todo: ela criará coisas novas a partir desse material, e depois ainda outras coisas a partir daquelas, a fim de que o universo esteja sempre rejuvenescido. (Marco Aurélio, Meditações, VII, 25)

Considere ainda estes versos da Ilíada, na tradução de Frederico Lourenço. Eles fazem parte da fala do guerreiro Glauco, aliado dos troianos, que assim responde quando o grego Diomedes pergunta-lhe por sua família, por sua linhagem:

Assim como a linhagem das folhas, assim é a dos homens.
Às folhas, atira-as o vento ao chão; mas a floresta no seu viço
faz nascer outras, quando sobrevém a estação da primavera:
assim nasce uma geração de homens; e outra deixa de existir.

(Homero, Ilíada, VI, v. 146-9)

Tarde/Noite

A natureza do universo usa a substância universal como a cera, modelando neste momento um cavalo, depois derretendo-o e empregando sua matéria para uma árvore, logo para um ser humano, logo para outra coisa. Cada um destes seres subsiste por um tempo mínimo. Ora, nada há de terrível para uma caixa em ter suas partes desmontadas, assim como em tê-las ajuntadas entre si. (Marco Aurélio, Meditações, VII, 23)


Sábado

Manhã

Representa no teu espírito toda a vastidão das profundezas do tempo até você atingir a dimensão do universo, compara depois a essa imensidão aquilo a que nós chamamos o tempo de uma vida humana, e verás até que ponto é diminuta essa extensão por que nós ansiamos e que fazemos por prolongar. E desse breve tempo, quanto não é preenchido com lágrimas e angústias? Quanto, ao desejo da morte prematura, à doença, ao medo? Que espaço não ocupam os anos inúteis da inexperiência? Metade da vida passamo-la a dormir. Junta a isto os sofrimentos, as dores, os perigos, e verás como, mesmo numa vida bastante longa, é muito pouco aquilo que vivemos. (…) A vida em si não é nem um bem, nem um mal, mas apenas o local em que se encontram o bem e o mal. (Sêneca, Cartas a Lucílio, XCIX, 10-11)

Tarde/Noite

O tempo da vida humana é um ponto; sua existência, fluida; sua percepção, obscura; sua composição corporal como um todo, corruptível; sua mente, errante; sua fortuna, inexplorável; sua fama, indiscernível. Para dizê-lo de uma vez: tudo o que respeita ao corpo escorre como um rio; o que respeita à mente é sonho e vapor; a vida é guerra e um exílio em terra estrangeira, e a fama póstuma, esquecimento.

O que então nos pode guiar em nosso caminho? Só e unicamente a filosofia. E esta consiste em manter a divindade que habita dentro de nós intacta e livre de danos, dominar os prazeres e as dores, nada fazer sem propósito, verdade ou integridade, despreocupando-se de como venha a agir ou deixar de agir outra pessoa. Além disso, aceitar tudo o que acontece e lhe é destinado como proveniente daquela outra fonte que é a origem de si próprio; e a todo momento esperar a morte com a consciência propícia, como que ela não seja nada além da dissolução dos átomos que constituem cada ser vivo. E se aos próprios átomos não sucede nada terrível ao se mutar cada um deles em outro, por que razão alguém olharia com temor a mudança e a dissolução de todos eles? Pois isso está em conformidade com a natureza; e nada há de mal que esteja em conformidade com a natureza. (Marco Aurélio, Meditações, II, 17)


 

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