Como falar da filosofia estoica a um amigo

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É radical o compromisso dos estoicos com a vida prática — o resto não passa de palavrório (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

“facere docet philosophia, non dicere”

— Sêneca

Admito que não tenho a mínima ideia do modo como seria possível fazer o tópico “estoicismo” brotar no meio de uma conversa que se dê em, digamos, condições normais de temperatura e pressão. Não temos o hábito de discorrer sobre figuras históricas, correntes de pensamento ou exigências éticas, antigas ou atuais, quando na presença de amigos. Além disso, imersos em nossos cotidianos, é para espairecer ou nos atualizar dos últimos eventos na vida dos que estão longe que nos dedicamos a uns bons dedos de prosa. Excepcionalmente, quando um dos pares se sente oprimido por uma angústia, a conversa gira em torno de uma confissão e uma opinião “externa”, interessada no bem do outro.

Contudo, as amizades têm uma dimensão ética incontornável: supomos que nossos amigos sejam confiáveis e que valorizem mais ou menos as mesmas coisas que nós. Ninguém toma por amigo um indivíduo que não dê mostras de alguma solidez moral, que não esteja razoavelmente à altura do que julgamos ser o nosso caráter. Quanto maior a atenção dada a tais questões, maior a exigência relativamente aos que desfrutam de nossa amizade — e maiores as retribuições da intimidade compartilhada. Quem se importa com o aperfeiçoamento pessoal, por exemplo, dificilmente admitirá um sujeito de costumes dúbios no rol dos amigos e se verá obrigado a abandonar certas relações ao longo da vida.

Diferem muito as inclinações humanas, mesmo entre amigos. É possível que você seja a única pessoa de seu círculo de conhecidos a interessar-se por filosofia. Se falarmos de filosofia antiga, as possibilidades diminuem consideravelmente. E em se tratando de uma predileção pelo estoicismo — e por um estoicismo adaptado às necessidades atuais —, você talvez será uma voz infinitesimal clamando no deserto. Isso não nos deve desencorajar, porém. Pois, se nos beneficiamos dia após dia da leitura dos estoicos e da influência de seu modo de pensar e agir, será lícito que guardemos para nós o segredo de nosso bem-estar, uma fonte tão inesgotável de entusiasmo?

A maneira mais imediata de chamar a atenção de um amigo para a filosofia estoica é dar ou emprestar a ele um volume que tenha tido relevância para você. Acompanhar o ato de palavras que possam servir-lhe de guia (visto que se trata de textos tão antigos) e de justificativas pessoais prepara o espírito de seu amigo para uma leitura frutífera: “esse livro está agora em suas mãos por tais e tais motivos etc.”. Ainda assim, a coisa pode não funcionar. Uma obra que você tenha em alta conta pode ser recebida com frieza ou aborrecimento. Não é impossível que nem sequer seja lida. O retorno esperado não ocorreu, e você continua sozinho em seu amor pelo Pórtico. Paciência, pois.

À falta de volumes a oferecer ou no caso de timidez, talvez a melhor estratégia seja mencionar, em contexto propício, um episódio que nos é relatado por Epicteto nas Diatribes recolhidas por Flávio Arriano. A depender da reação de seu amigo ao que está contido ali, uma apresentação mais detalhada do estoicismo poderá seguir. Se estiver mesmo muito sem jeito, você poderá até enviar este texto à pessoa e ver o que acontece.

A LÂMPADA DE EPICTETO

Alforriado em algum ponto da vida adulta, Epicteto teve de fugir à perseguição que o imperador Domiciano promoveu contra os filósofos em Roma, estabelecendo-se por volta do ano de 89 em Nicópolis, na Grécia, onde fundou uma escola. De toda parte provinham jovens da elite do Império para educar-se com ele.

Os registros do magistério de Epicteto são impressionantes sob vários aspectos. Dono de um senso de humor peculiar, o liberto costumava chamar a seus alunos “escravos” quando eles o questionavam partindo de preconceitos correntes, o que os tornava suscetíveis às emoções violentas ou paixões. Ao que consta, nada escreveu. Há muitos trechos interessantes nas Diatribes, mas o que me parece dar mostras mais claras de sua grandeza é o que se lê a seguir.

Depois de explicar como chamamos a atenção de ladrões ao depositarmos valor nas coisas que nos são exteriores, Epicteto dirige-se assim a seus discípulos:

Algo semelhante sucedeu comigo outro dia. Eu mantinha uma lamparina de ferro ao lado de meus deuses lares, e ao ouvir um ruído perto da janela, corri até lá. Descobri que a lamparina fora furtada. Refleti que o homem que a furtara tinha sido movido por um motivo bem compreensível. E então? Amanhã, disse eu, você providenciará para si uma de argila. De fato, só se perde aquilo que já se tem. (Diatribes, I, 18: 15-16)

Em outra ocasião, tratando do mesmo incidente, ele acrescenta esta reflexão:

Um corpo é mais forte que outro corpo; muitas pessoas são mais fortes que uma; o ladrão é mais forte que o homem que não o é. Foi por isso que perdi minha lamparina; porque, em se tratando de manter-se acordado, o ladrão foi melhor do que eu. Mas ele adquiriu a lamparina por um preço muito alto: por uma lamparina, ele se tornou um ladrão; por uma lamparina, ele se tornou desleal; por uma lamparina, ele se tornou bestial. Eis o que lhe pareceu vantajoso! (idem, I, 29: 20-21)

Poucos episódios traduzem de maneira tão brilhante como os princípios do estoicismo iluminam mesmo as circunstâncias mais prosaicas da vida, dando a quem o pratica a oportunidade de exercer a virtude até na escala das coisas diminutas. Em vez de irritar-se contra o sujeito que lhe privara da posse de um objeto, em vez de julgá-lo o pior dos homens, Epicteto reconhece-se responsável por uma afeição excessiva, quase um luxo: afinal, uma lâmpada de argila cumpre papel igual a uma de ferro. A ação do ladrão dá ao filósofo a oportunidade de compreender, uma vez mais, que ninguém é a rigor dono de nada além do que carrega dentro de si — e de buscar uma vida mais simples.

Meros usuários das coisas que nos cercam (mas iludidos por sentimentos de posse), quantos de nós seríamos capazes de uma resignação tão rápida à ação da Fortuna, que nos dá com tanta rapidez com que nos toma?

CONCLUSÃO

A filosofia estoica reconhece um potencial para a virtude (ou excelência) em cada um de nós, o qual, se for exercitado no sentido correto, pode dar o mais belo dos frutos: uma vida em que se tem a posse plena de si mesmo, ou, nos termos do Pórtico, uma vida em conformidade com a natureza. É tempo, pois, de desvelar o dito latino de Sêneca que serve de epígrafe a este texto (Lucílio é advertido quanto aos que “vendem” a filosofia pelo que ela não é):

Diferente é o propósito dos declamadores que pretendem ganhar o aplauso da assistência, diferente é também o dos conferencistas que atraem a atenção dos jovens e dos ociosos pela variedade dos temas ou pela elegância da exposição; a filosofia, essa, ensina a agir, não a falar, exige de cada qual que viva segundo as suas leis, de modo que a vida não contradiga as palavras, nem sequer se contradiga a si mesma; importa que todas as nossas ações sejam do mesmo teor. O maior dever — e também o melhor sintoma — da sabedoria é a concordância entre as palavras e os atos, o sábio será em todas as circunstâncias igual a si próprio. “Mas quem será capaz de atingir um tal nível?”. Poucos, decerto, mas mesmo assim, alguns. (Cartas a Lucílio, XX, 2; trad. de J. A. Segurado e Campos)

Em vez de falar de conceitos, devemos ir direto às atitudes se quisermos dar uma ideia precisa do trabalho que o estoicismo propôs-se, desde sempre, a fazer sobre os indivíduos. Ele não promete poder, riqueza, fama, paz familiar, saúde corporal, conforto, longevidade, sucesso profissional, boa reputação ou ausência de dificuldades na vida — porque tais objetivos não residem inteiramente na esfera que nos é própria. O que então promete a filosofia, segundo a visão estoica? Epicteto responde:

A filosofia não se propõe a garantir para o ser humano nenhum objeto exterior. Se o fizesse (ou se não fosse como eu a descrevo), ela estaria permitindo algo estranho a seu domínio. Pois, assim como o material do carpinteiro é a madeira e o do escultor é o bronze, assim também o material da arte de viver é a vida de cada ser humano. (Diatribes, I, 15: XX)

E deixa claro que a transformação que ela opera não se dá do dia para a noite:

Nada grandioso produz-se imediatamente, pois que isso não sucede nem ao figo nem à uva. Se você me disser agora que quer um figo, eu lhe responderei que isso exige tempo: deixemos que a figueira primeiro floresça, depois que o fruto se forme e por fim que este amadureça. Mas se o fruto da figueira não chega de imediato e em uma hora ao ponto de madureza, você quer colher o fruto da mente de um ser humano em tempo tão breve e tão facilmente? Não tenha essa expectativa, nem se eu disser que é assim. (idem, 7-8)

Se o relato e os ditos contidos neste texto despertaram o entusiasmo de seu amigo, o caminho está aberto para um tipo superior de relação, na qual cada uma das partes é capaz de auxiliar a outra em seu progresso na direção da uma vida plena. É a amizade filosófica.

Mas também é possível que o exemplo acima mencionado seja recebido com frieza ou incredulidade por seu amigo. Em semelhante caso, a pessoa não poderá beneficiar-se da leitura dos estoicos, possivelmente por um destes dois motivos: por não ter aptidão ou paciência para reflexões sobre a vida; ou por estar demasiado acostumada a apenas ver o que há de miserável e vil nos seres humanos — e estender a sua regra niveladora para todos. A primeira opção é digna de lamento, mas é talvez uma inabilidade inscrita na própria natureza do indivíduo. Quanto à segunda, trata-se de algo mais grave, em alguma medida dependente de hábitos mentais. Convém perguntar a essa pessoa se ela, ao julgar que toda a humanidade não presta, considera-se incluída ou excluída desse conjunto e de que modo seria possível perceber a injustiça, a ganância ou a impiedade se todos vivêssemos mergulhados no mesmo lodaçal de vícios, sem nenhum contraponto.

E esta passagem, de grande nobreza, que Marco Aurélio escreveu para si, só poderá ser, infelizmente, entendida por seu amigo de maneira irônica:

Se na vida humana encontrares algo melhor que a justiça, a verdade, a temperança, a coragem e, em suma, a satisfação que a tua mente extrai de si mesma nos atos em que ela se mostra agindo segundo a razão reta e na condição que te é determinada sem a tua escolha; se, digo, vires alguma coisa melhor do que isto, volta-te a tal coisa com toda a tua alma para desfrutares da perfeição que descobriste. Mas, se não há nada melhor que a divindade que está dentro de ti, às quais os teus apetites se submetem, que examina as tuas representações, que se subtrai, como disse Sócrates, às paixões dos sentidos, e que se subjugou a si própria aos deuses e se importa com a humanidade; se, portanto, em comparação a ela, não encontras nada senão baixeza e mesquinharia, não dês espaço a nenhuma outra coisa; uma vez inclinado e tendendo a outra coisa, tu não poderás mais, sem distrair-te, honrar aquele bem que é a tua posse própria; pois não é acertado que nada de outra qualidade (como os elogios vindos do vulgo, as magistraturas, a riqueza ou a fruição dos prazeres) venha a entrar em competição com aquilo que é, pela razão, pela política e pela prática, bom. Todas essas coisas, ainda que parecendo por um tempo em conformidade com a natureza, dominam-nos de um golpe e nos arrastam. Mas tu, digo, escolhe franca e livremente o melhor, e liga-te a ele. — Mas o melhor é o útil. — Se te é útil enquanto ser racional, conserva essa escolha; mas se apenas te é útil enquanto animal, faz uma prova e observa o teu julgamento com modéstia: apenas cuida que fazes o exame por método seguro. (Meditações, III, 6)

Em resumo, seu amigo inflexível não acredita que a sabedoria seja algo a ser buscado, que possamos aperfeiçoar-nos com a reflexão e a maturidade, que existam modelos de conduta excelentes no passado, os quais poderíamos, na medida de nossas luzes e forças, tentar — tentar, reitero — imitar.

Se for isso mesmo, talvez seja o caso de reconsiderar se o sujeito em questão seja digno de continuar entre suas amizades.

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Donato Ferrara é professor e administrador escolar.

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