Manual de Epicteto, 3: Do bom uso dos afetos

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Mais cedo ou menos cedo, tudo o que amamos se perderá irreparavelmente (fonte da foto)

Sobre cada uma das coisas que seduzem, tanto as que se prestam ao uso quanto as que são amadas, lembra[-te] de dizer de que qualidade ela é, começando a partir das menores coisas. Caso ames um vaso de argila, [diz] que “Eu amo um vaso de argila”, pois se ele se quebrar, não te inquietarás. Quando beijares ternamente teu filho ou tua mulher, [diz] que beijas um ser humano, pois se morrerem, não te inquietarás.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

A tranquilidade prometida pelo estoicismo tem um nível alto de exigência. Não nos é difícil constatar, ocasionalmente, a fragilidade de tudo quanto nos cerca: temos ciência de que nos movemos em um mundo de coisas transitórias e de que nossa própria vida se inscreve nessa categoria de coisas. A sabedoria popular está repleta de ditados que dão conta da impermanência e mesmo da precariedade da existência como um todo. A questão é que tais momentos em que vemos as coisas de maneira clara permanecem raros como lampejos; dificilmente temos a disposição de revisitá-los com a constância necessária para atingirmos uma clarividência genuína.

E por que nos falta essa disposição? Por que tamanha aversão à claridade? É que em geral cultivamos o hábito de pensar que a realidade obedece a nossos desejos, que tudo aquilo a que somos apegados estará para sempre aí, ao alcance da mão, para nosso deleite. Fazemos nossa felicidade depender da durabilidade de coisas que, por sua própria natureza, não são feitas para durar. Em inglês, a expressão wishful thinking (“pensamento desejoso”) é usada para caracterizar certa modalidade de decisão ou previsão que não se baseia numa avaliação realista dos fatos, mas na crença de que os desejos que temos se concretizarão a despeito de tudo, apenas pela força de nosso querer. Com isto em mente, se formos rigorosos (e o estoicismo quer que o sejamos), haveremos de reconhecer que incorremos em “pensamentos desejosos” o tempo todo, que eles chegam a ser o estado normal de nossa consciência. Há uma “credulidade nossa de cada dia” que é a antessala de muitas incompreensões e dissabores. Ao obscurecer as regras de funcionamento da realidade e ofuscar-nos com o brilho de idealidades, ela é o oposto da clarividência em que os estoicos procuravam viver.

Nada nos custa reconhecer, de uma perspectiva puramente teórica, que estamos sujeitos a leis naturais que, segundo um encadeamento de causas e efeitos muito complexo, determinam o surgimento e o desaparecimento das coisas. A parte árdua é incorporar tal conhecimento à vida cotidiana, com o objetivo de situar-nos de modo claro no tempo e no espaço.

Epicteto constata que nossa relação com aquilo que nos cerca está impregnada de apego ou afeição: as breves observações que faz neste terceiro capítulo tratam de objetos (palavra usada no sentido mais largo possível) que “seduzem ou arrastam a alma” (tōn psukhagōgoúntōn). Tão indiscutível quanto a utilidade de muitos objetos à nossa disposição é o fato de que acabamos nos afeiçoando a eles. Nas últimas décadas, com os progressos imensos da sociedade industrial, verifica-se um salto quantitativo nesta tendência humana: vivemos em casas não raro atulhadas de produtos e dispositivos os mais diversos, e por isso criamos uma rede bem mais expandida de apegos. Sabemos quanto nos custaram e quão nos são caros o celular, o televisor de tela plana, o equipamento de som, o tablet, o forno elétrico, o aparelho de ar condicionado, nossas melhores roupas. Nos dias de hoje, mesmo pessoas pobres vivem com um nível de conforto e luxo superior ao de muitos monarcas do passado. Como resultado, estamos ligados afetivamente a toda uma gama de artefatos úteis (e mesmo de alguns não lá tão úteis), e a mera suposição de não mais contarmos com eles é o suficiente para encher-nos de ansiedade. Julgamos impossível uma vida minimamente civilizada sem toda essa parafernália.

Contudo, quando adotamos a visão ultrarrealista dos estoicos, passamos a entender em um nível profundo que a qualquer momento podemos ser privados da posse ou do uso de tais objetos. Por maiores que sejam os cuidados tomados com o smartphone, ele pode avariar-se para sempre por motivos desconhecidos, levando embora muitos de nossos dados pessoais. Nosso televisor de última geração pode ser roubado. Nossos trajes mais elegantes ficarão desbotados e esgarçados um dia. É dado mais do que evidente que nenhum objeto estará a nosso dispor por muito tempo, mas vivemos como se pudéssemos contar para sempre com essas coisas. Quem nunca se desesperou pela perda ou avaria de um objeto muito querido? Quem nunca se aborreceu com a quebra de um vaso ou enfeite de louça?

Os afetos que nutrimos pelas coisas são pálidos se comparados àqueles que devotamos às pessoas de nosso convívio. Isso não quer dizer que possamos igualar seres humanos a objetos úteis, como uma leitura superficial do trecho em análise pode dar a entender. Seres humanos são dotados de singularidade, consciência e razão, e a morte de uma pessoa é o desaparecimento de um ponto de vista único, precioso, irrepetível. Quando mais não seja, ressalte-se que Epicteto deixa claro em outras passagens que a nobreza fundamental do ser humano reside em sua capacidade de filosofar. Isso fica manifesto no trecho a seguir, no qual o filósofo imagina escutar a voz do próprio Zeus:

Epicteto, se tivesse sido possível, eu teria feito livres e sem entraves tanto o seu pobre corpo quanto as suas diminutas posses. Em verdade, não se esqueça, esse corpo não é propriamente seu; ele não passa de argila modelada com habilidade. Portanto, não podendo fazer aquilo, nós lhe demos algo de nós mesmos — essa faculdade do impulso e do refreamento, do desejo e da repulsa, em uma palavra, o poder de fazer uso das representações. Se você se ocupar destas coisas, se nelas identificar o seu bem verdadeiro, você nunca sofrerá entrave, não encontrará obstáculo nenhum, não soltará gemidos, não censurará ninguém, nem tampouco adulará quem quer que seja. E então? parece-lhe pouca coisa? (Diatribes, I, 1: 10-13)

Conteúdo teológico à parte, o que nos interessa na citação que acabamos de ler é que ela pode desfazer um mal-entendido. Com efeito, só é possível igualar Epicteto à caricatura do estoico empedernido e desligado de tudo se não fizermos uma leitura atenta dos escritos que hoje trazem seu nome, valendo-nos de fragmentos soltos. Está bastante claro que, para nosso filósofo, o ser humano, estando dotado de capacidades que o equiparam aos deuses, não é uma “coisa” qualquer e descartável. Mas o que Epicteto está dizendo no terceiro capítulo do Manual são dois fatos: (a) somos estimulados pelos objetos de que gostamos e pelas pessoas que amamos de maneira semelhante, apenas com uma variação bastante grande na intensidade afetiva; e (b) tanto os bens materiais que nos são caros quanto os nossos parentes e amigos estão sujeitos às mesmas leis que regem tudo quanto existe, determinando a desagregação material quando uma força maior se impõe sobre eles.

Resultante de (a) e (b) é o fato de ser possível tomar um objeto qualquer, de relevância não muito grande para nós, a fim de observarmos como se forma o nosso apego ou afeto em torno dele e imaginar as circunstâncias em que se daria seu desaparecimento. Epicteto então diz a seus interlocutores que, se estes forem afeiçoados a um vaso (ou jarro) de argila de duas alças (khútra), deverão pensar que estão depositando seu afeto em um objeto frágil, que pode estilhaçar-se a qualquer momento. Converter tal pensamento em um hábito, repeti-lo de si para si de tempos em tempos, nos faria conscientes das leis naturais que regem o mundo, tornando-nos mais preparados para lidar com a perda eventual do objeto que nos é dileto. Entender as “regras do jogo”, por assim dizer, longe de deprimir-nos, é algo capaz de dar-nos a medida exata do valor do que temos e amamos. E o que temos e amamos é frágil e um dia inexoravelmente nos deixará, por maiores que sejam os cuidados de que cerquemos tais coisas: é loucura imaginar que as leis naturais não valham para aquilo a que somos afeiçoados, como se fôssemos especiais e pudéssemos manter tudo íntegro pela força do querer. Não somos deuses.

Desfazer-nos das ilusões que nos colocam para fora do mundo natural e nos fazem incorrer em “pensamentos desejosos” a todo momento não é tarefa simples, e temos de ter paciência conosco. Principiando pelas “menores coisas”, pelos “vasos de argila” do mundo contemporâneo, seremos levados a reconhecer que cada um dos objetos de que gostamos e fazemos uso pode não estar mais aí para nós, num piscar de olhos. Indaguemo-nos, portanto: “Como pode dar-se o desaparecimento de tal coisa? Seria racional desesperar-me com esta perda, tendo em vista que me esforço por compreender o funcionamento da realidade? Como passarei a viver sem ela?”. Tal exercício faz parte de uma técnica antiga, amplamente usada pelos estoicos, chamada praemeditatio malorum em latim ou “premeditação de males (futuros)” em nossa língua. É importante ressaltar que o exercício de que falamos não pode transformar-se em algo como uma “ruminação mórbida”, nem em um devaneio cheio de melancolia. Caso nossa disposição de espírito esteja longe dos limiares da serenidade, devemos suspender o exercício e deixá-lo para o dia seguinte.

Assim dispostos a ver os objetos a que somos afeiçoados como frágeis e perecíveis, situando-os dentro de uma visão global do que seja a natureza, podemos, após algum tempo, passar a algo mais desafiador: compreender que as pessoas que amamos também estão sujeitas às leis que regem a realidade. Quando deixamos de lado a ideia de que a morte de uma pessoa próxima é uma injustiça cometida contra nós e algo que expõe a falta de sentido de tudo, podemos entendê-la dentro de uma perspectiva natural, de necessidade cíclica — algo que se processa em um nível muito superior ao da nossa própria vida e dos afetos que a enriquecem, o qual é indiferente a nós em larga medida, não havendo nada de ruim ou de errado com ele. Temos de internalizar dois ensinamentos à primeira vista muito dolorosos, mas de que, paradoxalmente, extrairemos consolo se estivermos interessados em ter uma vida filosófica. O primeiro é que, no panorama da natureza, a importância do indivíduo humano é bastante reduzida. O segundo é que não coincidimos com aqueles que amamos: eles têm uma independência, estão “fora de nós”, sendo possível perdê-los (e não apenas por meio da morte).

Comentando as exigências da vida filosófica proposta pelos estoicos, o professor John Sellars, em seu artigo “Verdades duras e felicidade”, exprime-se nestes termos:

Sim, somos todos mortais, como o são aqueles que amamos, mas isso não deveria conduzir-nos a um desespero niilista com relação à falta de sentido da vida humana. Devemos, em vez disso, tentar compreender tal fato dentro do contexto mais amplo da Natureza como um todo. Devemos tentar compreender nossa mortalidade como um fato somente dentre os muitos que estão envolvidos naquilo que significa ser um ser vivo, um animal, um ente biológico que tem um ciclo de vida. E devemos tentar compreender-nos a nós mesmos como organismos biológicos dentro do contexto mais amplo dos processos da Natureza como um todo. (…) Ao pensarmos na morte — mesmo na morte de um filho, aparentemente insuportável — dentro do contexto muito mais amplo de uma série de processos naturais e inevitáveis de nascimento e dissolução que permeiam todos os aspectos do cosmos, dos micróbios às galáxias, será possível obter algum consolo do fato de isso ser mera parte de uma ordem natural muito maior. O ponto de interesse de Epicteto em sua observação aparentemente ríspida é que, do mesmo modo como é da natureza dos jarros de argila se espatifarem, é da natureza das pessoas morrerem.

É evidente que encarar, dia após dia, a mortalidade dos que amamos é um exercício dos mais difíceis. Mas esse hábito, que se cristaliza aos poucos e à força de muita disciplina, não tem por objetivo nem nos tornar melancólicos incuráveis nem baratear o afeto que sentimos pelos nossos. A questão é de simplesmente situar-nos em uma perspectiva natural — e, portanto, racional — para domar certas tendências afetivas que nos levam a pensar que contaremos com as pessoas amadas para todo o sempre. Nosso núcleo familiar, nosso círculo de amigos não estão suspensos por sobre o tempo e o espaço. Se vivermos por largo tempo, é uma expectativa racional supor que compareceremos a muitos funerais. E ainda que tenhamos uma vida breve, dificilmente ela se passará sem alguma perda próxima. Os estoicos acreditavam que uma das tarefas da filosofia — de uma filosofia muito radicalmente comprometida com verdades, por duras que fossem — seria preparar-nos para mudanças repentinas ocasionadas pela Fortuna; donde a importância da premeditação de males. A esse respeito, Sêneca escreve a Lucílio:

Qualquer pessoa enfrenta valorosamente uma situação para a qual se preparou com antecedência, e resiste mesmo às circunstâncias difíceis se nelas tiver previamente pensado. Um indivíduo mal preparado, pelo contrário, fica em pânico à mínima contrariedade. Temos, portanto, de fazer com que nada nos caia em cima inopinadamente; e como as coisas nos parecem mais graves quando não são previstas, uma meditação contínua conseguirá que não te vejas em caso algum com a inexperiência de um recruta! (Cartas a Lucílio, CVII, 4; trad. J. A. Segurado e Campos)

E continua, deixando claro que submeter-se à natureza, resignar-se a suas leis, é um ato de coragem:

Ordenemos à nossa alma que se mantenha tranquila e paguemos sem queixumes o tributo da nossa condição mortal. O inverno traz consigo o frio, logo nós devemos suportar o frio. O verão traz consigo o calor, e nós temos de suportar o calor. O tempo incerto é nocivo à saúde, e nós temos de nos sujeitar à doença. Em qualquer lugar nos pode sair ao caminho uma fera, ou alguém mais perigoso do que todas as feras: um homem! A água destrói uma coisa, o fogo outra. Nós não podemos alterar estas condições da existência; podemos, contudo, assumir uma atitude de coragem, digna de um homem de bem, e graças a ela suportar com valor os golpes do acaso e submetermo-nos à lei da natureza. (idem, 7)

Isso significa que, se formos suficientemente atilados em nossos exercícios de premeditação de males, não sentiremos nada quando alguém próximo se for? Quem, em sã consciência, pode desejar tornar-se insensível a tal ponto? Aqui, novamente, em vez dos próprios filósofos, é a caricatura deles que ocupa lugar na discussão. É preciso deixar claro que os estoicos, em geral, não eram contra as emoções, nem julgavam possível ou saudável extirpá-las; eram contrários apenas às paixões. As paixões são emoções dolorosas e violentas que se originam de erros de julgamento e expectativas irrealistas — da tentativa de controlar aquilo que não é “encargo nosso” —, alienando-nos do uso mais perfeito da razão. Causam-nos padecimentos desnecessários, sendo por isso que, de acordo com a filosofia estoica, deveríamos tentar diminuir o poder que elas têm sobre nós. Nada há de anormal em sentir a perda de um ente querido, mesmo de modo vivaz; a questão é não ser dominado inteiramente pela dor, numa situação que pode durar muitos anos. Quando não se está mentalmente equipado para um “baque” como esse, está-se muito mais propenso a alimentar a tristeza com pensamentos contaminados pela autopiedade, pelo arrependimento, pelo remorso. Está-se para além da possibilidade de consolação porque a razão está turvada por uma paixão muito poderosa. É um tipo de servidão, em algum nível consentida.

Imaginem-se, por exemplo, duas pessoas a ponto de ser submetidas a cirurgias mais ou menos delicadas. Ambas têm receios normais, mas apenas uma delas antecipa, mentalmente e em várias ocasiões, as possibilidades de sua operação não dar certo. Nos dois casos, verifica-se um desfecho semelhante: um erro médico com consequências incapacitantes. Qual dos dois pacientes terá melhor condições de lidar com seu infortúnio: o que se precaveu ou o que não se precaveu? Qual deles aceitará sua nova condição com mais rapidez e transigência, não piorando o próprio quadro com desgaste psicológico supérfluo? Outro exemplo: duas mães que consentem com a saída noturna de seus filhos respectivos. Somente uma delas dá-se com lucidez a uma premeditação dos males a que o filho está sujeito na madrugada: afinal de contas, adolescentes fazem besteiras e expõem-se a riscos desnecessários. Qual das duas mães terá mais autocontrole ao receber a notícia de que houve um acidente grave na danceteria predileta do filho? Qual estará menos inclinada a sucumbir ao sofrimento? Quem se resignará mais rápido à perda?

Parece-lhe monstruoso e desapiedado pensar assim? Pois é muito mais monstruoso e desapiedado o domínio que as paixões atingem quando se aninham na alma humana, criando uma carapaça que impede a penetração dos argumentos ditados pela razão. Há pessoas que nunca mais se reerguem de uma perda. Sejamos francos: não podemos proteger aqueles que amamos. Não podemos nem mesmo nos proteger a nós próprios. Se existe algum meio de antecipar os reveses da Fortuna e mitigar seus efeitos deletérios sobre nós, por que não tentá-lo?

A reflexão de Epicteto de que estamos tratando é talvez o resumo de um trecho um tanto maior, sobre o qual vale a pena refletir continuamente:

Por que então você vive? Para acumular pesares sobre pesares que o tornam infeliz? E você vem até mim chamar a isso “afeição natural”? Que tipo de afeição, homem? Se ela é boa, não é a fonte de nenhum mal; se é má, não tenho nada a ver com ela. Quanto a mim, eu nasci para os bens que me dizem respeito; não nasci para os males.

Qual é então o exercício apropriado para essa finalidade? Logo de cara, o primeiro, o principal, o exercício, por assim dizer, liminar, consiste em, quando nos apegamos a alguma coisa, não nos afeiçoarmos a ela como a um objeto que não pudesse ser-nos retirado, mas como a um objeto do gênero de um vaso de argila ou de uma taça de vidro, de modo que, se ele se quebrar não experimentássemos perturbação nenhuma, lembrando-nos do que se trata. Dá-se o mesmo também em nosso caso: se você beija seu filho, seu irmão, seu amigo, não deixe jamais a imaginação sem freios e não permita que suas efusões vão até onde elas queiram ir, mas puxe-as para trás, contenha-as à maneira dos que se mantêm atrás dos triunfadores e lembram a estes que eles são homens. De modo semelhante, lembre-se a si mesmo de que você ama um mortal, que você não ama nada que lhe pertença propriamente: isso lhe foi dado por enquanto, não sem a possibilidade de ser retomado, nem para sempre, mas como um figo ou um cacho de uva, em uma estação do ano determinada: se você os deseja durante o inverno, é porque é estúpido. Do mesmo modo, se você deseja seu filho ou seu amigo quando não lhe é dado tê-los, saiba que é como se você desejasse um figo no inverno. Pois, o que o inverno é para o figo, todo acontecimento do universo é para os objetos que nos são arrebatados por esse acontecimento. Portanto, no momento mesmo em que você desfruta desse objeto, ponha diante de si as representações contrárias. (Diatribes, III, 24: 82-88)

Por fim, se devemos viver sabendo que somos mortais, qual será o sentido de tudo? Talvez esta pergunta esteja mal colocada. Se a mortalidade é fato inegável e nos tornamos verdadeiramente clarividentes quanto a isso, exercitando-nos nesse sentido, cada instante que vivemos ganha uma relevância extraordinária, quase como se se tratasse de um pequeno absoluto. Quando sabemos que os momentos de alegria que passamos ao lado das pessoas amadas podem não repetir-se nunca mais (ao menos, não do mesmo jeito), que a morte pode atingir a nós ou às pessoas que nos são próximas, nossa fruição daquilo que já temos — frágil como de fato é — aumenta grandemente. Nada está seguro, e é por isso que tudo o que temos adquire um valor imenso.

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