“Os votos do estoico” — Massimo Pigliucci*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

Zenão

Nota do tradutor: O texto que se lê a seguir é a tradução de um original (“The Stoic Pledge”) escrito por Massimo Pigliucci no qual se formulam certos princípios que o aspirante estoico à sabedoria (o prokópton) deveria ter sempre em mente. Embora voltado a pessoas que estejam há mais tempo praticando o estoicismo (é observação do próprio autor), creio que qualquer um possa tirar proveito destes votos, a serem periodicamente enunciados e renovados de si para si. Cada um pode tomar a liberdade de adicionar ou suprimir votos, se assim o quiser, ou suplementar os já existentes com citações que lhe falem mais de perto. Eu, por exemplo, criei a minha própria versão deste juramento, acrescentando itens que tratam da necessidade de se evitar a ira, de ver-se como parte do cosmos e de meditar cotidianamente na morte. Conheçam-se a si próprios e divirtam-se! 

Como prokópton comprometo-me a seguir estes preceitos e regras de conduta:

I. A coisa mais importante de minha vida é a prática da virtude, a fim de viver em conformidade com a natureza.

Se a virtude é capaz de proporcionar prazer, não é por isso que ela é buscada. Não é apenas o prazer que ela traz, mas ela o traz como elemento a mais. E sem trabalhar para tal, os esforços dela, tendo em vista outro objetivo, alcançam, além do mais, o prazer. (Sêneca, Da vida feliz, IX, 1)

II. Não me sentirei desencorajado por reveses em minha prática. Na manhã seguinte, acordarei e tentarei novamente.

Quando confrontado com alguma coisa dolorosa ou agradável, algo tido em alta conta ou por infame, perceba que a prova se dá agora mesmo, que diante de você estão os Jogos Olímpicos, e esperar deixou de ser opção; e que depende de um único dia e de uma única ação o progresso — se ele será perdido ou mantido. (Epicteto, Manual, 51: 2)

III. Darei o melhor de mim para comportar-me de modo ético, sem fazer caso da popularidade de minhas opiniões e ações.

Nada farei por causa da opinião alheia, mas tudo por força da consciência. (Sêneca, Da vida feliz, XX, 4)

IV. Será minha preocupação o bem-estar de toda a humanidade, não importando o sexo, a etnia, a religião ou a orientação política das pessoas.

Trabalhe não como um desgraçado, nem como alguém a desejar pena ou admiração. Deseje uma só coisa: agir ou não agir, como a razão da coletividade venha a considerar justo. (Marco Aurélio, Meditações, IX, 12)

V. Rejeitarei o nacionalismo e qualquer outra visão provinciana da humanidade: o cosmopolitismo é o meu credo.

Considerarei todas as terras como sendo minhas, e as minhas como de todos. (Sêneca, Da vida feliz, XX, 3)

VI. Tanto quanto me for possível, renunciarei a julgar as ações dos outros, especialmente sem antes formar uma opinião clara sobre suas motivações.

Alguém toma banho com pressa; não diga que ele toma banho mal, mas com pressa. Alguém bebe muito vinho; não diga que ele bebe mal, mas muito. Pois até que você conheça os juízos que os movem, como você sabe que as ações que tomam são más? (Epicteto, Manual, 45)

VII. Cultivarei amizades verdadeiras porque elas são importantes para uma vida devotada à eudemonia.

Pondere por bastante tempo se deve admitir alguém como amigo, mas, quando tiver decidido admiti-lo, receba-o de coração aberto. Fale com ele com tanta franqueza quanto a que tem consigo mesmo. (Sêneca, Cartas a Lucílio, III, 2)

VIII. Tratarei a todos com amabilidade e respeito.

Serei agradável com os amigos, brando e condescendente com os inimigos. Cederei aos rogos antes de ser rogado e me adiantarei em satisfazer aos pedidos honestos. (Sêneca, Da vida feliz, XX, 5)

IX. Farei o melhor para contribuir com a discussão sobre assuntos importantes, evitando, ao mesmo tempo, dar sermões nas pessoas ou tornar-me arrogante.

Fique em silêncio a maior parte do tempo, ou, se falar, diga somente o necessário, e em poucas palavras. Fale, mas raramente e se a ocasião assim o pedir, mas não fale de coisas triviais — de gladiadores, corridas de cavalo, atletas, ou de comidas e bebidas — assuntos que aparecem em todo lugar. Porém, acima de tudo, não fale de homens com reprovações, elogios ou comparações. Se puder, mude a conversa de sua companhia para um assunto adequado; contudo, se porventura você estiver sozinho entre desconhecidos, mantenha-se em silêncio. (Epicteto, Manual, 33: 1-3)

X. Seguirei uma dieta simples, majoritariamente vegetariana, porque ela é saudável (ajudando-me assim na prática da virtude), tem menor impacto sobre o meio ambiente e reduz a dor e o sofrimento desnecessários no mundo.

Assim como se devem preferir alimentos baratos a alimentos caros, e alimentos obtidos com facilidade àqueles difíceis de se obter, devem-se escolher alimentos adequados ao ser humano de preferência aos que não o são. E o que nos é adequado são os produtos da terra: grãos e outros vegetais variados podem nutrir um ser humano muito bem. São também nutritivos alimentos oriundos de animais domésticos que não matamos. (Musônio Rufo, Diatribes, XVIIIa)

XI. Cultivarei uma atitude de indiferença face aos bens materiais.

Não guardarei com avareza nem desperdiçarei com prodigalidade tudo o que eu possuir. (Sêneca, Da vida feliz, XX, 4)

XII. Adotarei um estilo de vida razoavelmente minimalista.

De modo global, podemos julgar os objetos da casa bons ou ruins determinando o que é necessário para adquiri-los, usá-los e mantê-los em segurança. Coisas difíceis de adquirir, usar ou guardar são inferiores; coisas fáceis de adquirir, prazerosas de usar e guardadas sem problemas são superiores. (Musônio Rufo, Diatribes, XX)

XIII. A mim mesmo lembrarei que, assim como temos o dever de suportar os golpes desferidos pela Fortuna, devemos desfrutar dos dons que ela nos concede.

É preciso também fazer caminhadas, para que a céu aberto e ao ar livre a alma se expanda e se eleve. De vez em quando uma viagem e a mudança de paisagem lhe darão vigor, bem como o convívio social e doses a mais de bebida. Por vezes convém, inclusive, chegar à embriaguez, não a ponto de nos afundar, mas de imergir um pouco, pois ela dilui as preocupações, muda profundamente o estado de espírito e remedia a tristeza assim como algumas doenças. (Sêneca, Da tranquilidade da alma, XVII, 8)

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(*) Massimo Pigliucci é biólogo evolucionista e professor de Filosofia no City College de Nova York. Crítico tanto da pseudociência quanto de certas tendências do ateísmo militante, colaborou com periódicos como Philosophy Now e Skeptical Inquirer. Submete-se, desde 2014, a um experimento: levar uma vida estoica, atualizando os preceitos do Pórtico de modo a atender às exigências do século XXI. Mantém o blogHow to be a stoic“, que deu origem a um livro homônimo, lançado em 2017.

Publicado em 27/02/2017 em “How to be a stoic”.

Massimo Pigliucci – “Os votos do estoico”, versão .pdf.

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