“Honestidade nos negócios: Um experimento estoico” — Jacob Henricson*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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“Fale a verdade, ainda que sua voz fique trêmula” (fonte da foto)

Um dia decidi parar de mentir. Não me entendam mal: jamais tinha eu sido um grande mentiroso em minha vida pregressa, mas decidi — tanto quanto permitia a minha capacidade — não mentir de jeito nenhum. Defini algumas regras para casos limítrofes: por exemplo, evitar ou guardar para mim uma verdade quando os efeitos de proferi-la sejam prejudiciais a mim ou a outra pessoa (“fico bem com este vestido?”) é aceitável, mas não o é dizer uma mentira diretamente, por menor que seja.

O ímpeto para esta medida drástica surgiu com o meu interesse por levar uma vida estoica. Comecei recentemente, há cerca de um ano, quando minha atenção foi desperta pela simples citação de Epicteto:

Os seres humanos são perturbados não pelas coisas, mas pelos princípios e noções que formam a respeito delas. [Manual, 5.a]

Isso me levou a ler muitos dos clássicos e diversos livros do “ressurgimento estoico”, como o de Jules Evans, Philosophy for life [“Filosofia para a vida”]. Acima de tudo, como exemplo destes últimos, devorei Thoughts of a philosophic fighter pilot [“Pensamentos de um piloto de caça filosófico”], de James Stockdale. O avião de James foi abatido durante a Guerra do Vietnã e ele resistiu a torturas por oito anos, antes de regressar para casa aclamado como herói. Ele havia lido Epicteto antes de ser abatido e, tempos depois, atribuiu à filosofia estoica a sua resistência durante aqueles anos. Uma lição que extraí de seu livro foi esta: a culpa era uma alavancagem para os torturadores. Se você fosse culpado e eles soubessem disso, usariam essa sua culpa para arrancar de você alguma coisa. Como James exprimiu-se:

A questão, portanto, é não fazer nada vergonhoso, nada indigno de si mesmo. Porque, se você fizer tal coisa, sendo alguém de certo modo honrado, isso o atormentará e corroerá a sua vontade. Estes são fatos muito simples, porém muito verdadeiros, muito poderosos.

Avançando o filme para minha vida de todos os dias. Vivo na Suécia e fiz carreira em companhias de seguros e gestão de riscos como a Ericsson e a PwC. Estive metido na azáfama da alta política corporativa por mais de dez anos. Mesmo não estando em poder de torturadores, há semelhanças. Vi pessoas de bem perderem o pé de apoio e a moral à medida que escalavam as ladeiras escorregadias que levavam ao topo. Vi pessoas de bem corrompidas por dinheiro e poder a ponto de não mais distinguirem entre o seu interesse próprio e o dos seus companheiros humanos, ou mesmo o da companhia para a qual trabalham.

Talvez você pense que ganhar muito dinheiro e ter muito poder o torna menos vulnerável e mais independente. Por minha experiência, é exatamente o contrário o que em geral acontece. À medida que seus ganhos e seu prestígio aumentam, você desenvolve gostos mais caros. Uma casa pequena já não basta. Vinho barato se torna de repente intragável. Antes que perceba, você se tornou dependente de um salário que é muito maior do que aquele que obteria de outros serviços. Ouvi quem chame isso de “a jaula dourada”. E, como pesquisas de gente como Daniel Kahneman e outros demonstram, é muito mais doloroso descer de uma posição privilegiada que prazeroso subir até ela. Você está preso em uma armadilha. Epicteto, uma vez mais, exprimiu-o da melhor forma:

E quem é o seu senhor? Quem quer que tenha autoridade sobre algo que você anseia ganhar ou evitar. [Diatribes, II, 2: 26]

Subitamente, seu chefe, seus acionistas, seus clientes tornam-se mais importantes que aqueles que lhe são próximos: sua esposa, seus filhos, seus pais. Estes terão de “aguardar na fila” porque você tem de agradar às pessoas que controlam seu salário e sua posição social. Mas por que você tinha iniciado a escalada até o topo mesmo? Para mim, e acho que para muitas outras pessoas, foi uma combinação que envolvia ter desafios estimulantes no trabalho e prover sustento à família. Se me perguntassem, porém, o que pesou mais para mim, eu diria que foi minha família. Acho que para a maioria das pessoas é a mesma coisa.

Essa dependência pode levá-lo a fazer coisas que você preferiria evitar. Todos nós já vimos na imprensa exemplos de altos executivos que usaram mal seu poder para obter ganhos pessoais. Contudo, mesmo em elos mais baixos da corrente, você é frequentemente pressionado a defender coisas em que não acredita. Por exemplo, seu orçamento é cortado pela metade enquanto ainda esperam de você que obtenha os mesmos resultados. Você sabe que isso colocará uma pressão insensata sobre sua equipe e não o aprova. O que faz então? A maioria dos administradores contestará a decisão, mas poucos estão dispostos a sustentar sua contestação com ações concretas (como pedir demissão) e irão no final das contas curvar-se ante tal decisão e abraçá-la como coisa sua (porque qualquer outro ato seria inaceitável na hierarquia das coisas). Às vezes tal situação chega a extremos, quando a cultura corporativa se esfacela. O caso que me vem a mente com mais clareza é o da Enron.

Ao mentir, você é parte de um sistema que deplora. Você não pode mais responsabilizar seu chefe ou seus colegas pelas feições que as coisas passam a assumir. Não pode dizer que foi “forçado” a isso pois ninguém pode forçá-lo a nada e, além do mais, isso nunca “pega bem” na imprensa. Você tem de viver com sua própria culpa, e isso o torna mais suscetível a pressões futuras.

Pois é aí que entra minha “política do sem mentiras”. Decidi experimentá-la para ver se funcionaria e mudaria alguma coisa. Como resumo do “experimento”, posso dizer que minha vida tornou-se mais embaraçosa no curto prazo, visto que tenho de refletir com cuidado ao dar minhas respostas. Em vez de dizer “Não posso participar do jantar hoje à noite porque não estou bem”, tenho de gastar um tempo para explicar que preciso de um período ao lado de minha mulher e meus filhos, ou que simplesmente não estou com vontade de ir, de maneira amigável. Mas, com o tempo, a coisa revelou-se um instrumento fantástico para ganhar o respeito dos outros e dormir bem à noite. Não tenho de manter um controle sobre o que disse para qual pessoa e nunca temo ser confrontado por causa de uma mentira trivial.

O verdadeiro teste para minha política foi quando me desliguei do serviço, tendo sido solicitado que guardasse segredo por três semanas. Não podia dizer nada nem a meus amigos mais próximos do trabalho e tive de recorrer a sorrisos enigmáticos quando questionado sobre prospectos para o futuro. Foi duro, mas no fim das contas me senti melhor por ter mantido a palavra ao mesmo tempo que falava a verdade (ou, ao menos, não mentia).

E, acima de tudo, conquistei respeito. Às vezes fui mais áspero com as pessoas do que teria sido no passado, mas no fim parece que as pessoas a meu redor valorizam-me mais como um “homem de palavra”, o que significa que nem sempre eu terei uma opinião, mas, quando eu a tiver, elas saberão que é sincera e vem direto do coração. E por isso decidi manter o experimento permanentemente e recomendá-lo a todas as pessoas do mundo.

Para terminar, uma citação que retirei do Reddit, uma pichação em uma casa abandonada:

Fale a verdade, ainda que sua voz fique trêmula.

___________________

(*) Jacob Henricson é consultor independente nas áreas de gerenciamento de risco, gerenciamento de crises e segurança cibernética, com interesse em filosofia e ética dos valores. É fundador e proprietário da empresa Knokle.

Publicado em 22/08/2015 em “Stoicism Today/Modern Stoicism“.

 

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