“Verdades duras e felicidade” — John Sellars*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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Encarar as verdades duras e compreender a Natureza (fonte da foto)

Não pude estar presente ao evento da Stoicon em Nova York, realizado em outubro de 2016, mas eis um primeiro rascunho bruto do que teria sido ali minha contribuição.

Há um podcast australiano, encontrável online, que tem por título “Philosophy can ruin your life” [“A filosofia pode arruinar a sua vida”]. O motivo por detrás do título deliberadamente provocador é, suponho, lançar um desafio ao modo como alguns vêm tentando cooptar a filosofia para aquilo que às vezes é chamado de “indústria da felicidade”. Existe uma variedade de meios pelos quais a filosofia pode tornar as pessoas infelizes. A ignorância, diz o ditado, é uma bênção; com frequência as pessoas forjam para si narrativas e explicações fictícias para se sentirem melhor quanto à vida que levam e ao lugar que têm no mundo. Em contraste com isso, as verdades filosóficas — até o ponto em que alguma delas de fato possa ser encontrada — podem revelar-se bem pouco reconfortantes.

Muitos dos que estão interessados ou se têm envolvido no renascimento do estoicismo dirão que ele pode ajudar-nos a ter uma vida melhor e mais feliz. À primeira vista, é possível que isso nos leve a considerar a ressurgência do interesse pelo estoicismo como parte da “indústria da felicidade”. Aos insatisfeitos, desiludidos e deprimidos que procuraram em vão algo para alegrá-los, talvez o estoicismo seja a próxima coisa a ser tentada para ajudá-los a superar a tristeza e a recuperar a joie de vivre. Se falarmos do estoicismo como forma de terapia ou como dotado de elementos terapêuticos, decerto tal impressão pode ser transmitida: o estoicismo oferece uma terapia, mas uma terapia para tratar o quê? Parece natural supor que a resposta seja: “uma terapia para tratar a infelicidade”. Com efeito, os estoicos antigos visavam à eudaimonía, o que normalmente se traduz por “felicidade”.

O que desejo é pôr em xeque tal visão ou, quando menos, pôr-lhe ressalvas. O estoicismo não o fará feliz — ao menos não no sentido que a palavra “felicidade” costuma ter quando usada na cultura da autoajuda moderna. Não se trata de pensar de uma dada maneira a fim de garantir dentro de si um sentimento cálido, vago.

Permitam que eu lhes diga logo de cara que não pretendo atacar ou repudiar o que quer que alguém esteja pensando em dizer [nas conferências da Stoicon]. O estoicismo é uma filosofia que se guia pela ideia de que as pessoas querem viver bem, obter aquilo que Zenão, seu fundador, denominava “um fluxo vital suave”; e o estoicismo pensa que pode ajudá-las a atingir esse objetivo. E ele é explicitamente terapêutico, tanto em sua versão ateniense primeva quanto na versão romana tardia. O ponto em que gostaria de insistir é que o estoicismo não se reduz a uma terapia voltada a fazer as pessoas se sentirem melhor; ele também é, e mesmo em primeiro lugar, uma filosofia. Como filosofia, ele está comprometido com a tentativa de entender o mundo, sobre o qual ele faz uma série completa de alegações com pretensão a verdades. Qualquer impacto positivo que ele possa vir a ter na qualidade de vida de uma pessoa dependerá das alegações por ele feitas acerca do mundo e do lugar que aqui ocupamos.

A fim de levar este raciocínio adiante, podemos considerar uma imagem crítica do estoicismo que é popular: um estoico é um sujeito impotente no mundo real e que finge então que sua felicidade é algo totalmente interior e em seu próprio controle. Sem dinheiro? Fácil: basta dizer que o dinheiro é desnecessário para uma vida boa, e problema resolvido. De acordo com uma longa linhagem de críticos modernos do estoicismo, de Hegel em diante, o estoico é alguém que foge à realidade com mentiras a fim de sentir-se feliz em circunstâncias que seriam de outro modo vistas como desagradáveis. É um exemplo daquilo que Nietzsche chamava de “moral de escravos”, essencialmente baseada em impotência e em uma inabilidade de olhar de frente algumas verdades duras a respeito da vida.

Penso que tal imagem do estoicismo é injusta, para dizer o mínimo. Mas não apenas penso que é injusta: é o extremo oposto o que efetivamente encontramos em autores estoicos tais como Epicteto e Marco Aurélio. Ao invés de tentar fugir com mentiras a olhar de frente a realidade, penso que um tema central da obra desses dois estoicos romanos é forçar-nos a confrontar algumas verdades duras e muita vez desconfortáveis que dizem respeito ao funcionamento do mundo. Deixe-me tentar dar corpo a isso com alguns exemplos.

Há uma passagem célebre de Epicteto na qual ele diz que toda noite, antes de dormir, quando beijamos nossos filhos ou aqueles que amamos, deveríamos nos lembrar de que eles são somente mortais:

Que mal há em dizer, em um sussurro para si, quando você estiver beijando seu filho: “amanhã você morrerá”? (Diatribes, III, 24: 88; cf. Meditações, XI, 34)

Em outro trecho, ele compara a perda de um filho ao estilhaçamento de um jarro:

Se você for apegado a um jarro de argila, diga “É a um jarro de argila que sou apegado”, e portanto, se ele vier a quebrar-se, você não se entristecerá. Se estiver beijando seu filho ou sua mulher, diga a si mesmo que é um ser humano que você está beijando; portanto, se um deles morrer, você não se entristecerá. (Manual, 3)

Críticos do estoicismo acusaram tais trechos de ser exemplos da frieza e insensibilidade dos estoicos, e muitos admiradores acharam-nos desconfortáveis e tentaram minimizar-lhes a importância. Em vez disso, acho que temos de tomar tais passagens muito a sério. O que Epicteto está tentando fazer nesse ponto? Decerto ele não está — como alguns críticos corretamente indicaram — dizendo alguma coisa que pareça poder fazer com que nos sintamos felizes. O que então ele está fazendo? Simplesmente tentando levar-nos a olhar de frente para certas verdades duras. Somos todos mortais. Aqueles que amamos são todos mortais. Todos eles morrerão. Nossos filhos morrerão. Muitos de nós, no Ocidente desenvolvido, não temos o temor de que nossos filhos possam morrer no meio do sono a cada vez que são postos para dormir, mas na Antiguidade e mesmo em diversas outras partes do mundo de hoje isso foi e continua sendo uma possibilidade bem mais real. E, claro, isso ainda acontece no mundo desenvolvido, quase sempre sem explicações óbvias, em famílias que dispõem de todos os benefícios da medicina moderna. Todos os nossos filhos morrerão. Se tivermos sorte, morrerão depois de nós; de todo modo, morrerão.

É esta uma verdade dura — talvez uma das mais duras — sobre o funcionamento do mundo, e é uma daquelas que Epicteto quer que nós confrontemos. E ele quer que a confrontemos desde já para que, se acaso uma coisa tão terrível vier a suceder-nos, possamos estar de alguma maneira preparados para lidar com ela. É um exemplo de uma antiga prática empregada pelos estoicos, conhecida como premeditação de males futuros, que nos sugere refletir sobre coisas desagradáveis que podem ocorrer no futuro, de modo a estarmos mais bem preparados mentalmente para lidar com elas se de fato acontecerem. É talvez o caso mais extremo dessa premeditação porque, é claro e desnecessário dizê-lo, deve haver poucas coisas piores do que ter de enterrar um filho.

Por que Epicteto quer que confrontemos diretamente esta que é das verdades mais duras? Se estivermos em busca da felicidade, ela parece ser a última das coisas em que deveríamos pensar. (Os hedonistas antigos repudiavam de modo explícito a prática da premeditação de males futuros porque pensavam que ela somente nos aumentaria a dor.) A resposta é simples: Epicteto não é um coach da felicidade, é um filósofo e, como tal, quer que compreendamos o mundo como ele de fato é e então demos o melhor de nós para lidar com ele e habitá-lo. Longe de fugir à realidade com mentiras, como sugeriram certos críticos do estoicismo, Epicteto quer mirá-la frente a frente, e propõe ser necessário que façamos o mesmo se quisermos aprender a viver bem nela.

Mas Epicteto não é assim tão brutal quanto isto tudo sugere. Também há um elemento consolatório em ação aqui. Sim, somos todos mortais, como o são aqueles que amamos, mas isso não deveria conduzir-nos a um desespero niilista com relação à falta de sentido da vida humana. Devemos, em vez disso, tentar compreender tal fato dentro do contexto mais amplo da Natureza como um todo. Devemos tentar compreender nossa mortalidade como um fato somente dentre os muitos que estão envolvidos naquilo que significa ser um ser vivo, um animal, um ente biológico que tem um ciclo de vida. E devemos tentar compreender-nos a nós mesmos como organismos biológicos dentro do contexto mais amplo dos processos da Natureza como um todo. Em resumo, devemos nos tornar físicos no sentido antigo da palavra — no sentido de estudantes da Natureza. Ao pensarmos na morte — mesmo na morte de um filho, aparentemente insuportável — dentro do contexto muito mais amplo de uma série de processos naturais e inevitáveis de nascimento e dissolução que permeiam todos os aspectos do cosmos, dos micróbios às galáxias, será possível obter algum consolo do fato de isso ser mera parte de uma ordem natural muito maior. O ponto de interesse de Epicteto em sua observação aparentemente ríspida é que, do mesmo modo como é da natureza dos jarros de argila se espatifarem, é da natureza das pessoas morrerem.

Permitam agora que eu me volte a um exemplo extraído de Marco Aurélio. Ele também açulou bom número de críticos modernos, tendo alguns caracterizado suas Meditações como pessimistas ou melancólicas, e havendo mesmo um estudioso que foi tão longe a ponto de sugerir que suas estranhas visões do mundo só podiam ter sido o produto de vício em ópio. O tipo de coisa que esses críticos têm em mente perpassa as Meditações, e dele há ali muitos exemplos. Permitam-me centrar a atenção em apenas um:

Quando diante de acepipes e pratos sofisticados, você terá uma noção da natureza de tais coisas se disser a si mesmo que isto é o cadáver de um peixe e aquilo o de uma ave ou o de um porco; ou ainda que aquele bom vinho Falerno não é mais que suco e uva e que esta toga púrpura a lã de uma ovelha embebida no sangue de um molusco; e quanto à relação sexual, é a fricção de tripas a que se segue um tipo de convulsão e excreção de muco. (Meditações, VI, 13)

Para alguns críticos, isto soa como vindo de alguém profundamente melancólico, que não mais consegue desfrutar dos prazeres básicos da vida. O último comentário, sobre sexo, é, assim como as observações de Epicteto sobre a morte de crianças, geralmente deixado de lado como algo de que seria melhor não falar. Porém, Marco Aurélio está tocando num ponto importante e, se isso nos deixa desconfortáveis, haverá ainda mais razão para que olhemos a coisa de frente. A verdade dura em que Marco Aurélio procura insistir é que todas as coisas nas quais depositamos tanto valor e significado não são, em última análise, nada além de amontoados de matéria vil em movimento. De novo, pois, estamos sendo instados a adotar uma perspectiva de físico sobre os objetos da vida cotidiana. O trecho que citei acima continua:

Pensamentos como estes se acercam das coisas em si mesmas e penetram no coração delas, permitindo que as vejamos pelo que são realmente. Adote, portanto, esta prática em sua vida, e onde quer que as coisas lhe pareçam mais dignas de apreço, ponha-as a nu, veja quão desprezíveis são elas e dispa-as das aparências prestigiosas de que tanto se orgulham. (idem)

Em outro ponto, Marco Aurélio sugere que existem duas ideias fundamentais que devemos manter sempre à mão: a primeira é que as perturbações da mente são o produto não das coisas em si, mas de nossos juízos sobre as coisas; a segunda é que nada é estável e tudo passa, sujeito a mudança contínua. Ele então sintetiza esses dois princípios do modo mais conciso possível, provavelmente para ajudá-lo na memorização deles: ho kósmos alloíōsis, ho bíos hupólēpsis — o que podemos traduzir de modo mais expandido como: “o cosmos está em mudança contínua, as preocupações da vida humana são produto da opinião” (Meditações, IV, 3: 4).

Tanto Marco Aurélio como Epicteto pensam que ver as coisas a partir dessa perspectiva de físico pode ser terapeuticamente benéfico, mas o motivo de verem tal benefício é porque acham que isso é verdadeiro. Você não pensa nessas coisas a fim de sentir-se feliz — com efeito, por que cargas d’água refletir sobre a morte dos que amamos faria sentirmo-nos felizes? —; em vez disso, você pensa nessas coisas porque elas expressam verdades importantes, mas às vezes desconfortáveis, acerca do mundo. Como filósofos, Epicteto e Marco Aurélio preservam um compromisso profundo com a verdade, não importando quão mais centrados eles por vezes possam parecer em assuntos práticos do que em questões teóricas.

Quais as consequências disso tudo para as pessoas de hoje que estão interessadas em valer-se do estoicismo para suas vidas de todos os dias? Acho que existem duas delas que eu gostaria de mencionar.

A primeira é que é difícil desvencilhar completamente a ética estoica da física estoica. Tanto Epicteto como Marco Aurélio pressupõem implicitamente toda uma gama de alegações sobre a constituição do mundo em seus conselhos práticos. Na Antiguidade, houve quem achasse que questões sobre a Natureza eram irrelevantes para se pensar como viver da melhor maneira. Cícero expressa tal visão em sua República, atribuindo-a a Sócrates, que foi um importante modelo de caráter para os estoicos. Outros, como o epicurista Lucrécio, insistiram no estudo da Natureza quando pensavam em como viver bem, acrescentando que a razão principal de tal estudo devia-se ao benefício terapêutico que ele podia oferecer. A visão dos estoicos partilha essa ideia epicurista de que a busca da vida boa requer ao menos algum entendimento do que seja a Natureza, embora eu suspeite de que eles fossem também menos instrumentalistas que Lucrécio, insistindo no valor intrínseco do estudo da Natureza ao lado de sua contribuição para o viver bem.

A segunda consequência é que, se formos levar a sério a ideia de viver uma vida estoica, então é possível que nos vejamos na situação de aceitar um número de ideias que podem não se reconciliar facilmente com a visão de mundo que já temos. É claro que alguém ainda pode tomar fragmentos, menores ou maiores, de conselhos estoicos, como muitas pessoas ao longo dos séculos, mas se quisermos levar o estoicismo a sério como uma filosofia que oferece algum tipo de orientação sobre o modo como viver, ele pode desafiar e às vezes nos requerer abandonar nossas crenças preexistentes. Se quisermos pensar na filosofia estoica como uma maneira de viver, então precisaremos nos medir a braços com mais do que somente uns poucos exercícios práticos; precisaremos também pensar em algumas das alegações mais abrangentes sobre a natureza do mundo feitas pelos estoicos. Não estou sugerindo que tenhamos de nos tornar crentes propriamente ditos na integralidade da teoria física do estoicismo antigo; não precisamos tomar como factual a alegação de que a cada 10.000 anos tanto mais ou menos o cosmos inteiro é consumido pelas chamas para então renascer (embora os proponentes da teoria do big crunch talvez não tenham problemas com isso). Com efeito, não temos de nos tornar crentes propriamente ditos no que quer que seja pois, como tenho enfatizado, isto é filosofia, não religião. Marco Aurélio é um caso exemplar: em sua versão do estoicismo — e acho que provavelmente todos os estoicos antigos tinham sua própria versão sutilmente diferente — ele se satisfaz em cogitar a possibilidade de que a física epicurista de átomos e vazio seja a verdadeira em vez da ideia estoica de que tudo na Natureza consiste num organismo unificado, mas um princípio no qual ele insiste como fundamental é aquele que mencionei anteriormente, a saber: que tudo é, em última análise, matéria em processo de mudança contínua. Isto não é algo em que devamos acreditar para que nos sintamos melhor; é algo em que devemos acreditar porque é verdade. Parte do aprendizado do viver bem no mundo envolve o entendimento do que é este mundo e como ele funciona.

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(*) John Sellars é pesquisador no Departamento de Filosofia do King’s College de Londres e autor de obras como The art of living (2003) e Stoicism (2006), além de diversos artigos sobre filosofia antiga e renascentista. Mantém o blogMiscellanea Stoica“, voltado para um público não exclusivamente acadêmico, e um site oficial.

Publicado em 15/10/2016 em “Miscellanea Stoica”.

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