Manual de Epicteto, 1: A dicotomia do controle (ou: O que depende e o que não depende de nós)

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Há coisas sob nosso controle e coisas fora de nosso controle (fonte da foto)

1. Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa ― em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos ― em suma: tudo quanto não seja ação nossa. 2. Por natureza, as coisas que são encargos nossos são livres, desobstruídas, sem entraves. As que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem. 3. Lembra então que, se pensares livres as coisas escravas por natureza e tuas as de outrem, tu te farás entraves, tu te afligirás, tu te inquietarás, censurarás tanto os deuses como os homens. Mas se pensares teu unicamente o que é teu, e o que é de outrem, como o é, de outrem, ninguém jamais te constrangerá, ninguém te fará obstáculos, não censurarás ninguém, nem acusarás quem quer que seja, de modo algum agirás constrangido, ninguém te causará dano, não terás inimigos, pois não serás persuadido em relação a nada nocivo. 4. Então, almejando coisas de tamanha importância, lembra que é preciso que não te empenhes de modo comedido, mas que abandones completamente algumas coisas e, por ora, deixes outras para depois. Mas se quiseres aquelas coisas e também ter cargos e ser rico, talvez não obtenhas estas duas últimas, por também buscar as primeiras, e absolutamente não atingirás aquelas coisas por meio das quais unicamente resultam a liberdade e a felicidade. 5. Então pratica dizer prontamente a toda representação bruta: “És representação e de modo algum [és] o que se afigura”. Em seguida, examina-a e testa-a com essas mesmas regras que possuis, em primeiro lugar e principalmente se é sobre coisas que são encargos nossos ou não. E caso esteja entre as coisas que não sejam encargos nossos, tem à mão que: “Nada é para mim”.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

A primeira lição de Epicteto registrada por Flávio Arriano trata de uma distinção fundamental, dada pela própria natureza, e que tem sido denominada “dicotomia do controle” pelos proponentes do estoicismo contemporâneo. Assim, a filosofia deve nos levar a perceber, de imediato, que existem coisas sobre as quais exercemos controle ― juízo (hupólēpsis), impulso (hormē), desejo (órexis), repulsa (ékklisis) ― e coisas que nos fogem do controle ― corpo (sōma), posses (ktēsis), reputação (dóxai), cargos públicos (arkhaí). A educação filosófica proposta pelos estoicos pretende fazer-nos enxergar o valor real do primeiro conjunto, em oposição ao do segundo, constituído de metas ilusórias. Tanto mais perto está um estoico da sabedoria quanto mais for capaz de concentrar-se nas coisas interiores e menos nas exteriores, relegadas estas à condição de indiferentes.

Concentrar-se nas coisas que dependem de nós, que estão sob nosso controle (os “encargos nossos”, tà eph’hēmîn), pode nos parecer um objetivo extravagante ou próprio de gente pouco ambiciosa. Com intensidade jamais vista, nossa sociedade está semeada de mensagens que estimulam os indivíduos a procurar satisfação em coisas que lhes são exteriores: na beleza, no dinheiro, na fama, na posição social. Desde pequenos, somos habituados a considerar felizes quem quer que exiba qualquer um desses atributos. A publicidade, por exemplo, propaga a noção de que a aquisição de produtos ou serviços nos dará um prazer inaudito, nos tornará mais atraentes, nos multiplicará o status, nos franqueará o acesso a um mundo superior.

Contudo, um olhar racional sobre essa opinião vulgar revela-nos a fragilidade de tais promessas: a beleza se esvai com os anos; o dinheiro pode ser consumido ou roubado; a fama não resiste ao esquecimento ou à calúnia; a posição social depende de uma teia instável de favores. Estamos lidando, pois, com fatores circunstanciais, com concessões da Fortuna ― a deusa romana que personificava a força cega do acaso ou da sorte, distribuindo os bens exteriores entre os humanos com o mesmo capricho e facilidade com que os retirava.

Como as coisas que a Fortuna concede não são de posse segura, o aspirante à sabedoria, no entender de Epicteto, terá de mudar seu modo de pensar a fim de privilegiar as coisas que são “livres, desobstruídas, sem entraves” porque a própria natureza as fez assim. Tal mudança passa pelo fortalecimento e pela reeducação da faculdade que nos leva a formar juízos ou opiniões sobre o que existe. De fato, essa faculdade, esse poder interior, faz uso de tudo aquilo que se lhe põe diante, as chamadas impressões ou representações (phantasíai), e é com elas que nossa mente trabalha.

A faculdade do juízo deve ser manejada racionalmente porque, segundo Epicteto, o que nos faz humanos é justamente podermos aplicar a razão sobre o que se nos representa à mente. Numa de suas aulas, ele se expressou assim a um interlocutor desorientado quanto à própria natureza (porque demasiado apegado à aparência):

Primeiro aprenda quem você é e, depois, à luz desse conhecimento, procure adornos para si. Você é um ser humano ― isto é, um animal mortal dotado da habilidade de usar as representações racionalmente. E o que é “racionalmente”? Em conformidade com a natureza e perfeitamente. Que elemento de superioridade, portanto, você possui? O animal em você? Não. Sua mortalidade? Não. Sua habilidade de fazer uso das representações? Não. É a sua razão o elemento de superioridade em posse sua; adorne e embeleze isso. (Diatribes, III, 1: 25-26)

Suponhamos o seguinte: ao sair de casa pela manhã, você acaba preso em um congestionamento. Os estímulos sensíveis que fazem parte da situação “trânsito ruim” cristalizam-se como representações que penetram em sua mente. O “anda-e-para” dos veículos, o rádio alto do carro ao lado, as sirenes de emergência das viaturas policiais, os semáforos avariados, além de outros elementos, criam representações internas incontornáveis. Em tal situação, nossa posição é de passividade, de quem meramente absorve efeitos. Há, no entanto, um momento posterior da experiência, que é quando julgamos as representações que já estão dentro de nós ― e é este o ponto em que nos tornamos ativos. Em nosso exemplo, se você formar um juízo negativo daquilo por que está passando, experimentará um leque de sensações que vão das desconfortáveis às dolorosas. Mais: cada um dos elementos que compõem o engarrafamento será tomado por você como quase uma ofensa pessoal, um ataque direto a seus planos feito sob medida para tirá-lo do sério. Impaciência, frustração, ansiedade e mesmo sentimento de culpa por não ter saído para trabalhar mais cedo: tudo decorre da avaliação incorreta que se faz do fluxo de representações, do uso ruim de nossa faculdade de julgar as experiências. O exame que o filósofo estoico faz das representações se assemelha ao trabalho da sentinela que deve vistoriar os que lhe pedem passagem, como Flávio Arriano registrou em uma das intervenções de seu mestre (cf. Diatribes, III, 12: 15).

Para o estoicismo, todo mal-estar psíquico é consequência de uma interpretação errônea dos fatos da vida ― algo como um protesto da mente (ou da alma) mal empregada. Quem sai de casa em horário de grande circulação, atrasado ou não, tem de estar preparado para a eventualidade de um congestionamento. É uma expectativa racional. Um aspirante à sabedoria deve reconhecer que tudo quanto o cerca nessa situação são coisas que dele não dependem, que não estão em seu poder: sua irritação não removerá os automóveis do caminho nem deixará o tráfego livre. Nos termos de Epicteto, as coisas que compõem o engarrafamento não são encargos nossos (tà ouk’eph’hēmîn). Pela avaliação correta das representações, constatamos que a experiência em que estamos metidos não é boa nem má; falando estoicamente, é um indiferente. Nossa atenção deve voltar-se, portanto, para o campo de ação e interesse que nos é próprio: ali residem os bens e os males.

Além da faculdade que emite juízos sobre o que nos acontece, Epicteto cita mais três instâncias interiores: o impulso para a ação presente (hormē) e o par desejo-repulsa (órexis, ékklisis), ligado a expectativas futuras. Aqui também, a questão é corrigir o modo como se pensa. Só podemos tomar ações adequadas à situação que vivemos se esta for bem compreendida ou julgada: buzinar freneticamente e xingar os motoristas a nossa volta é tolo e ineficaz. É melhor suportar com paciência a condição adversa do tráfego, dirigindo tão bem quanto possível e sendo respeitoso com os outros. Igualmente dependentes de uma compreensão correta são as sugestões interiores ditadas pelo desejo e pela repulsa. Será grande fonte de ansiedade permitir que cada desejo que nos leve a imaginar como estaríamos mais felizes com o trânsito livre ou mesmo dormindo ainda em casa àquela hora se instale dentro de nós. Similarmente, se manifestarmos repulsa ou aversão ao fato de estarmos ali, pouco ativos ao volante, uma situação trivial e suportável será tida como decisiva e insuportável.

A atitude não filosófica se inicia com o juízo incorreto das representações, migrando para os campos da ação, do desejo e da repulsa. Tomando como um mal uma experiência indiferente, nossa ação se contaminará por um senso de impotência e estaremos sujeitos a devaneios mesclados de emoções negativas. A esse estado, os estoicos denominavam paixão, que nada é senão a perda do controle sobre si mesmo por parte daquele que procura controlar o que não lhe diz respeito. É como se abríssemos as portas de nós mesmos para os redemunhos do mundo exterior. Ora, ninguém deixa a casa escancarada ao pressentir que se arma uma tempestade. Todavia, em se tratando da própria individualidade, são raros os precavidos, e as paixões têm quase sempre caminho livre. Ter à mão e à mente a fórmula “nada é para mim” (oudèn pròs emé), a ser usada para tudo quanto não é “encargo nosso”, é o primeiro passo para impedir que as paixões nos tomem de assalto.

Neste ponto, há que considerar uma objeção. Sabemos que os impulsos, desejos e repulsas que nos despontam no interior muita vez independem de nossa vontade. Não é raro, ademais, que sejam confusos e contraditórios. Epicteto insiste em inscrevê-los no rol daquelas coisas que são “encargos nossos”, mas de que modo ele entende essa atribuição? Do seguinte modo: só se transformam em ações os impulsos, desejos e repulsas que efetivamente selecionamos, dos quais permitimos a consecução. Embora não saibamos exatamente onde se originam toda as ganas e desgostos que nos cruzam o espírito, temos o poder de contrastar o que é inadequado ou irrealista no momento em que surge: a dicotomia do controle nos deve estar sempre à mão. Tudo o que nos leve à não aceitação de um contexto que independe de nós deve ser negado desde a origem, para o que é crucial: concentrarmos nossos esforços sobre nós mesmos. Para os estoicos, não importa a realidade vivida pelo indivíduo, mas o modo como ele reage àquilo que o circunda. Mas há algo mais: quem faz do juízo correto das representações um hábito verá, com o tempo, aflorar dentro de si uma quantidade menor de solicitações convidando para a fruição do mundo exterior; nele aparecerá uma atenção maior ao uso correto da própria interioridade. Trata-se da tão almejada tranquilidade estoica.

A atitude filosófica não se aplica somente a situações cotidianas que podem ser consideradas desagradáveis, como também a estilos de vida geralmente apreciados. Dentre as metas ilusórias já mencionadas, a busca pela riqueza promete àquele que a atinge bens e prazeres que estão acima do nível médio. Tudo o que a riqueza supõe de acumulação, exagero e sobrepujança face ao comum dos mortais é visto como bom pela opinião do vulgo. O aspirante à sabedoria, porém, deve guiar-se não pelo modo de pensar majoritário, mas pela razão, que demanda o exame frio das situações. Reconheçamos friamente: por mais exercitados que estejamos na dicotomia do controle, é difícil nos livrarmos de hábitos arraigados. Temos a tendência de nos apegar aos objetos a nosso redor, fazendo deles juízos errôneos. Vivemos como se tais coisas não pudessem ser perdidas, roubadas, quebradas ou destruídas; dá-nos trabalho manter coisas simples em ordem (roupas limpas, um automóvel funcionando); julgamo-nos incapazes de viver sem certos confortos. Todas essas coisas são, claro, indiferentes do ponto de vista estoico porque ninguém se torna pior nem melhor por tê-las ou deixar de tê-las. Apenas o uso que delas fazemos é que não é indiferente.

Essa tendência multiplica-se por um fator matemático alto no caso de uma pessoa rica. Usufruir posses muito abundantes ou preciosas é algo que vem acompanhado de preocupações também de grande monta. Um sujeito rico terá, por necessidade ou despiste, várias contas bancárias e alguns cofres. Fará investimentos importantes em segurança. Possuirá diversas propriedades e precisará de caseiros para mantê-las, de funcionários para administrá-las. Um exército de domésticos estará a seu dispor a fim de organizar a mansão onde mora, mas a privacidade de sua família ficará comprometida. Ele terá de esgueirar-se por entre invejosos e aduladores. Dificilmente conseguirá confiar nos outros homens, por neles farejar sempre o interesse. E o pior: não obstante tudo o que possui, não estará satisfeito e procurará o aumento de seu patrimônio. Seguindo o roteiro de Epicteto, diremos que, submetido a uma overdose de representações sedutoras, o homem rico sucumbe a elas e desenvolve um tipo de apego: torna-se escravo do que possui. Em conformidade com esses juízos, as ações que levará adiante terão por objetivo fazê-lo desfrutar cada vez mais de sua riqueza, e os desejos e repulsas que cultivará dentro de si apontarão para a noção de que ele será feliz com mais do que tem, e infeliz com menos. Assim assoberbado, o homem rico não terá tempo de pensar na paixão estranha que o consome. Essa paixão o leva a valorizar coisas transitórias e frágeis, que num piscar de olhos podem ser-lhe retiradas — por um ladrão, por um fraudador, por um incêndio, por um plano econômico desastroso, por uma mudança de regime político.

Mas até aqui falamos dos inconvenientes da riqueza adquirida e mantida com honestidade razoável e respeito às leis. Muitas vezes, não é o que se vê. Quando o dinheiro é posto acima de tudo, a conservação da própria integridade — i. e., dos tais “encargos nossos” — não tem nenhuma importância. O ambicioso sem escrúpulos se associará a gente de má fama e se meterá na corrupção política para assegurar o seu quinhão de bens. Cometerá injustiças contra os que estão abaixo dele. Mentirá todos os dias, roubará com frequência, pensará em eliminar inimigos de vez em quando. Viverá em tormento, ameaçado pela possibilidade de que seus negócios escusos sejam descobertos. Mas nada disso o demoverá desse objetivo porque se trata de um sujeito totalmente orientado para o que é exterior e que levou às últimas consequências essa orientação.

Ainda assim, os estoicos são claros quanto à condição indiferente da riqueza. Um aspirante à sabedoria sincero e aplicado pode ser próspero, desde que o patrimônio não seja a meta para a qual ele tende, o centro de sua vida. De fato, tudo depende do uso que ele venha a fazer de suas posses. Se este for dirigido para o bem, a riqueza poderá engrandecer o alcance de suas ações; nascerá daí, por exemplo, uma empresa que faça algo relevante para a sociedade ou uma entidade filantrópica. A riqueza, entretanto, deve ser entendida como algo dado pela Fortuna, uma posição precária e suscetível a grandes reveses. Se o estoico opulento em questão se vir em um dilema no qual tiver de optar entre bens interiores (como honestidade e justiça) e a manutenção de sua riqueza, deverá escolher a primeira alternativa sem pestanejar. Sabemos que se trata de uma escolha rara, mas raros são os estoicos verdadeiros. Estes só se voltam àquelas coisas que lhes proporcionam genuínas liberdade e felicidade (eleuthería kaì eudaimonía).

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