Bem-vindo a “De vita stoica”

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Estátua equestre de Marco Aurélio Antonino em Roma (fonte da foto)

Data de mais de meia década o meu interesse pelo estoicismo. Até então, já me ocorrera ler alguns trechos alentados de Sêneca e Epicteto, mas confesso-lhes que por volta de vinte e poucos anos uma filosofia antiga, centrada em problemas práticos, não tinha grande favor comigo. No campeonato de minhas atenções, ganhavam os escritos que privilegiassem aspectos de composição e estilo em detrimento dos que, de caráter normativo, buscassem um contato com a vida imediata, cotidiana.

O que mudou? Bem, em primeiro lugar, eu mesmo. Um tanto mais avançado em idade, fiquei mais suscetível a questionar-me sobre o uso que vinha fazendo de minha vida. Depois de algum peregrinar por posições mais ou menos radicais, compreendi que a política não satisfaz ou redime ninguém, embora a participação cívica seja importante e a indolência em tais matérias, defeito grave. Tive um reencontro breve com a fé de minha infância, mas ela não me deu respostas concretas nem tranquilidade: hoje eu a mantenho a distância segura, sem renegá-la nem acolhê-la. E finalmente, lendo a República de Platão sem muita paciência para metafísicas, vim a ter um vislumbre do que teria sido o indivíduo Sócrates — aquele que nos disse que devemos ser amantes do “espetáculo da verdade”. De Sócrates aos estoicos, é um pulo: a distância da ágora de Atenas ao Pórtico Pintado (Poikílē Stoá), que lhe ficava adjacente.

Também o mundo mudou — ou terá sido a minha visão do mundo que mudou — e hoje ele me parece bastante mais confuso e imprevisível que há dez, vinte anos. Ambivalente, a tecnologia avança e traz benefícios e problemas de grande impacto. Nossa dependência dos recursos tecnológicos nos fragiliza, ao acostumar-nos a confortos demais, nos sobrecarrega, ao inundar-nos com tanta informação, e nos tenta com controles ilusórios, ao fazer de nós mais espectadores que agentes conscientes da realidade circunstante. À falta de material humano, o escândalo e a inconsistência são a nova normalidade política. Os líderes religiosos não parecem à altura das tradições de que são depositários: vivem vidas como as nossas, falam como quaisquer de nós, e é possível que gostem mais de fama e de dinheiro do que nós próprios. E o fanatismo, que ainda não chegou ao Brasil, espalha seu rastro de sangue em outras partes do globo.

Ora, o que tem o estoicismo a ver com isso? Que respostas pode ele dar? Surpreendentemente, os escritos dos estoicos antigos contêm ensinamentos que podem ser proveitosos aos seres humanos de hoje. Sêneca, por exemplo, pode ensinar-nos a lidar com a ira; Musônio Rufo, a valorizar a vida simples; Epicteto, a disciplinar a mente; Marco Aurélio, a aceitar o transcurso inevitável do tempo. E muito mais não digo, que há todo um blog por fazer.

Este espaço se destinará a textos de minha autoria, sobretudo buscando mostrar a relevância do pensamento estoico em questões contemporâneas e desfazendo equívocos que até hoje existem, além de traduções de artigos de outros autores, dando ao público de língua portuguesa uma ideia do que se anda discutindo no exterior. Com isso, quero tornar mais claras para mim algumas noções e sedimentar certos modos de pensar e práticas do estoicismo.

Por fim, um esclarecimento: não me identifico como estoico. Meu temperamento me pôs bastante longe da imperturbabilidade, que é privilégio do sábio, tal como o postulava o Pórtico. É uma luta contra mim o que travo (e da qual muita vez saio perdedor). A vida estoica, da qual falarei aqui, é um ideal. Nada obstante, ler os estoicos periodicamente, refletir sobre o que dizem e pôr em prática seus ensinamentos são coisas que me têm enriquecido de modos que eu nem julgava possíveis de existir.

E eu gostaria de encorajar você a fazer o mesmo.

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