A Superação dos Medos em Epicteto

Escrevo este texto em diálogo com João Leite Ribeiro, notadamente sobre o que nosso nobre estoico diz no texto intitulado Sócrates, a lógica e o estoicismo , publicado recentemente neste blog.

Em Epicteto, o termo grego andreia (coragem, em grego) ocorre, nas Diatribes, apenas quatro vezes, e nenhuma vez no Manual[1]. De fato, as virtudes enfatizadas por Epicteto diferem da taxonomia estoica ortodoxa das virtudes, que tem como principais as virtudes cardeais tradicionais do pensamento grego: sabedoria ou prudência (phonesis), coragem (andreia), justiça (dikaiosyne) e  temperança (sophrosyne). Não nos deteremos aqui em investigar a razão disso, mas antes a natureza dessas virtudes em Epicteto.

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Dois sonetos

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Detalhe de baixo-relevo celebrando um triunfo de M. Aurélio; sobre a cabeça do imperador, vê-se seu “espírito guardião” (fonte da foto)

Tenho trabalhado em alguns textos de maior complexidade e que virão a lume, volente Fortuna, aqui no “De vita stoica” nas próximas semanas.

Enquanto isso, deixo meus leitores e minhas leitoras com dois sonetos não tão recentes: o primeiro deles, “Do ofício de homem”, já o tinha eu divulgado aos amigos da minha então conta de Facebook (já falecida e devidamente sepultada). Quanto ao segundo, “Teologia”, não o tinha mostrado a praticamente ninguém, com duas exceções — para mim muito caras.

Os que estiverem familiarizados com Marco Aurélio Antonino decerto se lembrarão da noção de “ofício” ou “trabalho” próprio do ser humano (anthrōpou érgon, ἀνθρώπου ἔργον), com que o imperador-filósofo persuadia e exortava-se a si mesmo a permanecer no caminho reto, ainda que as circunstâncias fossem as mais difíceis. O tom cético relativamente à filosofia, que se nota no início do poema, deve ser entendido à luz de uma visão mais “essencialista” da vida: estamos aqui para praticar o bem, ainda que frágeis de corpo e de entendimento. É como se o que restasse da vida fosse uma nota de resistência, e mesmo de garbo — apesar de tudo.

Quanto aos catorze versos de “Teologia”, não têm tanta importância a profissão de fé de agnosticismo radical que ali inscrevi, nem a aparente indecisão quanto à existência de Deus ou de deuses: uso os argumentos e as noções metafísicas de outrem para ilustrar como, em meu modo de ver as coisas, tudo, por inessencial, acaba equivalendo-se. Como já o escreveu o nosso Antonino, havendo Providência ou átomos, nossa responsabilidade ética não se altera (veja, por exemplo, Meditações, IV, 3; VI, 44; IX, 39).

Porém, deixo o leitor eventual com uma perplexidade: não entendo por que muitos dos que não duvidam, nem por um momento!, de que Deus exista não derivam daí uma grande, inabalável, profícua incerteza a respeito de si mesmos e de suas próprias motivações. Um “Deus” que seja um estandarte com que desfilamos para nossos iguais e alvejamos as cabeças dos diferentes ou ainda um tabique por detrás do qual escondemos o que é vergonhoso em nós não vale a pena. Se há Deus, penso, só pode ser uma divindade que nos leve a duvidar — mas será boa esta minha noção?

Já estou eu explicando-me demais, o que é sempre fatal para quem escreve versos, bons ou maus. Vamos à leitura.

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Sócrates, a lógica e o estoicismo

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Estátua de Sócrates à entrada da Moderna Academia de Atenas, obra de Drosis e Piccarelli (fonte da foto)

Por João Leite Ribeiro

Acredito que a leitura das Diatribes de Epicteto possa levar a enganos quanto ao estoicismo. Leva a uma supervalorização da coragem e, a seguir, a um caminho não estoico para obtê-la.

Me parece que a ideia central é manter a calma, sempre. O que é bom, mas esse sempre, sabemos que é privilégio do sábio. Epicteto era um homem de grande coragem (acredito que coragem para ele não era audácia, e sim fazer o melhor diante do perigo), e não é possível, para a maioria de nós, por meio de qualquer estudo que façamos, atingir a coragem dele.

De um modo geral a coragem pregada nas Diatribes me parece exagerada, tanto pelo fato de Epicteto ser muito viril, como pelo fato de ele me parecer um pouco eufórico.

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O estoicismo e a lógica como caminho para a felicidade

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Por meio da lógica estoica, entendemos a realidade e podemos afastar reações emocionais desagradáveis (fonte da foto)

Por Guilherme Galanti

Todos nós estamos vivos, isto é um fato inegável para qualquer um. Do mesmo modo, todos iremos morrer; este, por decorrência do primeiro, também é um fato inegável. Entre os extremos, temos o curto tempo de nossa vida, no qual podemos contemplar e experimentar o ato de estarmos vivos.

A experiência de viver é muito confusa para nossa mente, e a necessidade de morrer é mordaz pela sua inflexibilidade, levando a uma enxurrada de questionamentos sobre a existência e seu objetivo. Estes questionamentos, assim como possíveis respostas, são o coração pulsante de qualquer religião ou filosofia de vida.

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As inscrições délficas e as quatro virtudes (Discurso)

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Ruínas do templo de Apolo na cidade grega de Delfos (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Os parágrafos a seguir baseiam-se em um discurso que fiz como paraninfo de uma turma de formandos do Ensino Médio, no dia 6 de dezembro de 2018. Adaptei alguns trechos para a compreensão dos leitores do blog, assim como, na ocasião em que o proferi, tinha precisado abreviar certas coisas para não me estender. A maior parte das informações sobre as quatro inscrições que mais tinham destaque no templo de Apolo foi colhida do bom site de John Uebersax sobre o tema. Quanto à correlação entre esses preceitos e as virtudes cardeais (que os estoicos sistematizaram e em que tanto insistiram), creio que posso dizer que foi algo que me saiu em boa medida da cabeça. Já eu então tinha trabalhado com meus estudantes terceiranistas o assunto e desejava que minhas últimas palavras se assemelhassem a uma aula. Não sei se fiz bem.

O fato é que, depois das saudações iniciais, a coisa continuava do modo como se lê a seguir. 

 

Como foi meu hábito várias vezes em sala de aula, voltemos à Grécia. Mais especificamente à cidade de Delfos. Na Antiguidade, havia ali um oráculo famoso dedicado ao deus Apolo. Ele se baseava em uma fenda na rocha dura, da qual se desprendiam vapores vulcânicos. De acordo com certos mitos, esses gases proviriam de Píton, uma gigantesca serpente que fora abatida pelas flechas de Apolo e precipitada no centro da Terra, para a segurança de deuses e humanos.

Ao longo dos séculos, erigiu-se em Delfos um complexo de edificações sagradas, das quais a mais importante era o templo de Apolo. Ali, em uma sala muito reservada, uma sacerdotisa — chamada de pitonisa ou sibila — respirava esses gases das entranhas terrenas e era por eles inspirada: entrava em um tipo de transe e respondia às perguntas de consulentes de todo o mundo conhecido. Os gregos acreditavam que era o próprio Apolo quem se expressava por meio daquela senhora de certa idade e reputação sem manchas. As respostas da pitonisa eram sempre enigmáticas, desafiando a compreensão humana. Não foram poucos os gregos e não gregos que se enganaram com as sentenças de Apolo. O deus tinha a última palavra, a qual não raro apontava para uma realidade desagradável, trágica.

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AZAR, um poema

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Cartas do tarô de Rider-Waite-Smith, com destaque para a Roda da Fortuna (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Eis um poema livremente inspirado em certas ideias estoicas.

Espero que os versos divirtam os leitores deste blog. Para mim, compô-los foi prazeroso como a montagem de um quebra-cabeça. Contudo, se vocês não gostarem deles ou lhes faltar a paciência de atravessá-los, não haverá melindre da parte deste que lhes escreve.

Nesse caso e aliás, terá sido um azar meu. Quem me mandou correr tais riscos?

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O BOM, O MAU E O INDIFERENTE – CONSIDERAÇÕES ESTOICAS E EPICTETIANAS

(Publicado previamente no Pórtico de Epicteto)

Um dos pontos menos compreendidos do estoicismo se refere à clássica distinção entre coisas boas e más e indiferentes. Como citado por Diógenes Laércio e Ário Dídimo, os estoicos dividem as coisas todas do mundo em boas, más e indiferentes. Boas e más são respectivamente as virtudes e os vícios. Indiferentes, todas as demais. Isso sempre causa estranheza ao senso comum, pois entre as indiferentes são colocadas coisas que geralmente se pensam boas (como riqueza, saúde, beleza, sucesso) e más (como pobreza, doença, feiura e fracasso). Bertand Russel, em sua História da Filosofia, dá voz a essa incompreensão:

Para uma mente moderna, é difícil sentir-se entusiasmado pela vida virtuosa se nada puder se alcançada por meio dela. Nós admiramos um médico que arrisca sua vida em uma epidemia de praga porque pensamos que a doença é um mal e esperamos diminuir sua frequência. Mas se a doença não é um mal, o médico pode também permanecer confortavelmente em sua casa. (Bertrand Russel, The history of western philosophy, p. 255.)

A raiz da distinção estoica está no diálogo Eutidemo, de Platão. Nesse diálogo, Sócrates observa que os bens reconhecidos pelos mortais se transformam em males se administrados por imprudentes. Apresentarei o argumento de Sócrates no Eutidemo de um modo didático. Pensem em uma lista de bens. Suponho que nela incluirão coisas como a riqueza, a saúde, o poder, um elevado status social, o prazer, a vida. Mas considerem o seguinte: a riqueza na mão de um tolo se torna inútil ou destrutiva; e se pode ser má, não é em si mesma nem boa nem má. A saúde também nem sempre é um bem, já que seu contrário, a doença, pode por vezes levar o homem a valorizar sua vida e tomar ciência de si mesmo. O poder já foi ocasião para a ruína e a destruição de muitos. Um elevado status social pode concorrer para tornar o homem arrogante e cercá-lo de falsos amigos. O prazer também nem sempre é um bem, pois há prazeres que escravizam e destroem os homens. Seu contrário, a dor, nem sempre é um mal, pois às vezes é um meio para se obter algo maior (como o atleta que se submete a um treinamento extenuante para melhorar seu desempenho). E a vida também não é em si mesma um bem ou um mal, pois há ocasiões em que a morte é opção melhor que a vida (como no caso de alguém que, para continuar vivendo, tem que trair seus princípios, sujeitar-se a indignidades, ou compactuar com crimes). Somente a sabedoria (sophía) propicia a verdadeira boa fortuna, que consiste em estar ao abrigo do que está por vir, porque apenas ela transforma o que acontece aos mortais em bens. A sabedoria possibilita ao homem desfrutar sua saúde e ser perseverante na doença, fazer bom uso tanto da beleza física quanto da feiura, não ver no status social um mérito ou um demérito seu ou dos outros, usufruir o prazer e suportar a dor quando for preciso. Enfim, com a sabedoria o homem pode bem viver e bem morrer.

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