Heranças do Pórtico

Juliano da Silva Lira, mestrando em Letras da UFPE

Alguns estoicos remanescentes preferiram não descer do Célio ou pleitear cargos renomados, serviram a sociedade como simples preceptores, sem se atentarem a maiores legados. Escanteados pelo frenesi contemporâneo, que menospreza e devora a um mínimo sinal de imperturbabilidade, viveram sabiamente às margens de um sistema enfermo, advento da Modernidade.  

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A OPINIÃO SOBRE O BOLO Górgias de Leontinos, Epicteto e Galeno dialogam acerca da opinião

Por Marcus Resende*

           

Tudo aconteceu em uma pequena cidade do interior de São Paulo, onde uma mulher foi assassinada na frente dos filhos. Logo surgiram as notícias nos veículos de comunicação digital estampando em suas manchetes que a mulher havia sido morta a tiros após briga por levar bolo e não salgado à festa. É uma notícia tão estranha e fora do comum que não tem como evitar perguntar como isso é possível, certo? Como uma pessoa pode ser morta por não ter levado à festa o prato combinado? Certamente essa foi a pergunta de muitos leitores que se depararam com a inusitada manchete. Três dias depois do estranho anúncio, os mesmos veículos de comunicação publicaram que havia uma nova versão para o crime. Uma testemunha não identificada afirmou que o assassino estava discutindo com a esposa quando a vítima ofereceu um pedaço de bolo à mulher envolvida na discussão, o que gerou um descontentamento do agressor, que iniciou uma nova discussão com a vítima até assassiná-la com três tiros. Será que estamos falando da mesma história? Embora o bolo faça parte do enredo nas duas versões, na primeira ele é o motivo principal do crime, segundo a polícia, enquanto na segunda, apresentada por testemunha anônima, o bolo perde toda sua importância, visto que a vítima poderia ter interrompido a discussão do casal por qualquer outro motivo.

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ENTRE CREPÚSCULOS E AURORAS

Carlos Enéas Moraes Lins da Silva

(Mestrando em Filosofia UFF)

Eu só queria nesse preciso segundo caminhar belamente sobre as águas, num santificado momento de tranquilidade e ausência de agitação, mínimas ondas a blasfemar o solo sagrado, beijando com pressa a areia e revolvendo-se temerariamente. Eu só queria andar como um deus, negar de tudo o todo e reconhecer em mim a majestosa imperturbabilidade. Mas sucumbi, como um Lázaro caído, uma morte num instante. Para andar como um deus entre os homens é preciso mais que entrega, uma verdadeira morte. É com sangue que se paga a santidade, é com sangue que se paga a excelência, não adianta, é sangue derramado nos vastos campos elísios do Érebo, é morte gloriosa, nada além.

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Reflexões de Musônio Rufo sobre o Casamento

Do destacado filósofo romano Musônio Rufo, que em vida foi equiparado a Sócrates, pouco nos chegou. Mas esse pouco, suas diatribes, contém uma série de reflexões cruciais para a compreensão da verdadeira dimensão do estoicismo romano.

Comentarei aqui brevemente a diatribe 13A, que trata do casamento.

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Apresentação de nossa tradução do Manual de Epicteto

Epicteto, um dos grandes nomes do Estoicismo Imperial, entre os quais se incluem Sêneca, Musônio Rufo e Marco Aurélio, nasceu no ano 55 em Hierápolis, na Frígia, Ásia Menor (hoje Turquia) e morreu por volta de 135, em Nicópolis. Epicteto foi escravo. Seu senhor, o liberto Epafrodito, foi secretário imperial de Nero e Domiciano. Em Roma, Epicteto frequentou a escola do célebre estoico romano Musônio Rufo. Tornando-se liberto, lecionou em Roma, onde viveu de forma absolutamente despojada.

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Reflexões pessoais acerca do uso prático do estoicismo epictetiano na pandemia do coronavírus (Por Renato Diniz)

Por RENATO DINIZ*

…Não importa quão estreita seja a passagem,

Quão carregada de punição a sentença.

Eu sou o mestre do meu destino:

Eu sou o comandante de minha alma.

                                     (Willian E. Henley – INVICTUS- trad. Aldo Dinucci)

 

Nesta pandemia de corona vírus que estamos passando, tenho notado muita ansiedade, aflição e medo das pessoas de serem contaminadas, e o possível desenvolvimento da doença COVID-19, que pode ser letal. Sabemos que é preciso sermos cuidadosos, executando todos os procedimentos para evitar o contágio, tais como: lavar as mãos, usar álcool em gel, ou 70%, usar máscaras, manter o distanciamento social e evitar aglomerações. Imaginando o pior cenário, isto é, de contaminação e agravamento da enfermidade, podendo levar-nos, inclusive, à morte, recorro aos ensinamentos de nosso filósofo Epicteto:

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Sobre nossa tradução do Encheirídion de Epicteto

No princípio da década 2000, quando eu vivia em Petrópolis, li pela primeira vez uma tradução francesa do Encheirídion de Epicteto em uma coletânea organizada por Jean Brun. Percebi que não havia essa obra disponibilizada em Português, seja em formato físico ou eletrônico. Dediquei-me, então, à tarefa de traduzir a obra diretamente do grego koiné com os conhecimentos que adquiri em meus anos de mestrado e doutorado com minha orientadora Dra. Maura Iglésias e o Dr. Fernando Rodrigues (IFCS/UFRJ).

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A Fruição do Prazer no Estoicismo

Por Aldo Dinucci

 

Diz-nos Aulo Gélio (Noites Áticas, III, XIX, ii, 7-8): “Sócrates costumava dizer que os homens desejam viver para comer e beber, mas ele comia e bebia para viver”. O Estoicismo reafirma essa posição socrática, segundo a qual fazer do prazer a razão do viver é pôr-se sob o domínio da externalidade. Porém, não há aí uma condenação do prazer: ele será bom se o homem usufrui-lo mantendo-se senhor de si mesmo e respeitando a comunidade em que vive.

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